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Devendra Banhart – ao vivo

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Cantor revela aproximação ainda maior com a MPB e passa a ocupar o nicho deixado pelo Los Hermanos

Terno, gravata, sandália e meia: o bicho-grilo refinado Devendra em CuritibaTexto por Abonico R. Smith

Foto: André Mantra

Nove discos em quinze anos de carreira. Uma produção intensa que consolidou não apenas uma rica discografia – sobretudo no período inicial de carreira, quando, entre 2002 e 2005, a hiperatividade permitiu que Devendra Banhart de seis álbuns, sendo dois álbuns por ano. Entretanto, a veia lo-fi, tosca, básica, aos poucos acabou substituída por um trabalho mais refinado e consistente, permeado por arranjos mais trabalhados com banda e ainda intervalos maiores entre o período de produção dos trabalhos preenchidos por turnês maiores.

Devendra mudou nos últimos anos. Foi adicionando novos elementos, novas sonoridades. Do folk passou ao indie rock. De discos caseiros passou a uma gravadora que aposta em nomes cult para seu elenco. De um quase desconhecido até mesmo dentro do mundo da música alternativa passou a ídolo de um segmento. De fã assumido da música e cultura brasileira passou a não ter a mínima vergonha de incorporar elementos de seus ídolos (Caetano Veloso, João Gilberto, Tom Zé) em suas composições. E vem se tornando tão brasileiro que, além de ser amigo íntimo de Rodrigo Amarante, acaba de encerrar um extenso tour pelo país, passando por sete grandes capitais em nove dias, dentro da série de concertos Popload Gig.

A base do repertório desta turnê é dividida entre o material dos dois últimos trabalhos, Mala (2013) e o ainda recente, completando apenas um ano de lançamento, Ape In Pink Marble (2016). Estes dois discos, que marcaram a produção oficial de Banhart nos últimos oito anos, são frutos do trabalho em conjunto com dois colaboradores de longa data, os multi-intrumentistas e produtores Josh Steinbrick e Noah Georgeson. Neles, o mezzo americano mezzo venezuelano revela que atingiu a maturidade apontada nos álbuns transicionais entre a fase do-it-yourself para o mundo de gente grande de gravadoras consolidadas e com mais grana para bancar gravações e videoclipes profissionais. Isto é, quando passou a experimentar o gostinho de ser pop.

A canção que deu o pontapé inicial no sexto e penúltimo show da turnê brasileira (Ópera de Arame, dia 13 de setembro) já era um pequeno preview do que viria a ser aquela noite de celebração entre Devendra e seus fãs de Curitiba. A bluesy “Celebration” anunciava que viria uma sucessão de flertes entre as formas variadas do indie rock e da MPB. Vocais requintados, suaves, macios e algumas vezes abusando do tremolo a la Caetano em palavras do final dos versos, passariam a flertar com uma certa tosquice imperando em riffs no teclado-de-uma-mão-só ou da guitarra que se divide entre a veia surfy-Los Angeles e truques como solos-vagabundos-de-duas-notas. As letras de Devendra, por sua vez, mostram ser capazes de ir da melancolia aos devaneios de espírito. Assim como acaba sendo natural vê-lo emendar trechos de covers como “My Sweet Lord” (George Harrison), “You Don’t Know Me” (Caetano) ou “I Just Can’t Get Enough” (Depeche Mode) no começo e no final de outras canções suas.

Tudo fluía muito natural e espontaneamente. Não só durante as canções previamente programadas mas também nas conversas mantidas com a audiência no intervalo delas. Com o mesmo timbre joãogilbertiano baixo e discreto com que cantava, ele embalava animadas conversas que misturavam inglês, espanhol e português. Estabelecia, assim, um diálogo intenso com os fãs, a ponto de protagonizar um momento “solo”, sem a banda de apoio, apenas para atender a pedidos especiais desta ou daquela música preferida de quem está ali pelo gargarejo. E, claro, clássicos mais antigos da carreira – como “Baby”, “Foolin’”, “Shabop Shalom”, “My Dearest Freind e “Carmensita” ainda foram dispostos estrategicamente em momentos mais intensos do set list.

O show da Ópera de Arame foi pontuado pelo mesmo tom intimista que Devendra imprime na gravação de seus álbuns, no qual se conectou prontamente uma plateia gestada pela descoberta de um circuito independente já pela internet nossa de cada dia, suas redes sociais e plataformas de divulgação musical, streaming e compartilhamento de arquivos. Não por acaso, Banhart e Amarante são BFF. Seu nicho, afinal, é o mesmo público criado no auge do Los Hermanos e que até hoje não se conforma com a estagnação criativa da carreira do quarteto, mantido no piloto automático há uma década sem discos novos e apenas turnês comemorativas.

O clima de gratidão eterna que imperou durante toda a hora e meia deste show na Ópera de Arame leva a crer que o indie cada vez mais se afasta da pegada tensa herdada do punk e se fecha em castelos de positividade. Cada vez menos carrega aquela vontade do destroy berrado por John Lydon para comungar um “constrói” coletivo onde borbulha o amor pelo próximo. Cada vez tem menos questionamento, desafios e ímpeto de quebrar a barreira do estabelecido para o império de um hedonismo exercido de modo coletivo e através da música, outrora um fim e não apenas mero meio. Devendra Banhart – que em Curitiba personificava no palco o bicho-grilo refinado, com uma bizarra combinação de terno escuro, gravata vermelha sandália de couro preto e meias brancas – é o grande exemplo de como um artista pode fazer música de qualidade sem que isto, necessariamente, acabe soando como algo realmente válido para quem acha que o rock deve manter sempre sua veia transgressora.

Set List: “Celebration”, “Saturday Night”, “Für Hildegard Von Bingen”, “Good Time Charlie”, “Theme For a Taiwanese Woman In Lime Green”, “Jon Lends a Hand/My Sweet Lord”, “Daniel”, “Baby”, “Mi Negrita”, “A Sight To Behold”, pedidos do público, “Golden Girls”, “Never Seen Such Good Things”, “Shabop Shalom”, “Linda”, “Fancy Man”, “Cristobal Risquez/You Don’t Know Me”, “I Just Can’t Get Enough/Foolin’”. Bis: “Fig In Leather”, “My Dearest Friend”, “Carmensita".

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