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Tiê

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Simplicidade e busca pelo essencial marcam a veia autoral da menina com nome de pássaro

 

Tiê: bem longe das personasTexto de Abonico R. Smith

Fotos de divulgação

 

Menos é mais. A frase foi originalmente utilizada pelo dramaturgo e poeta vitoriano inglês Robert Browning (no poema que levava o nome do pintor renascentista italiano Andrea Del Sarto), mas transformou-se em conceito quase um século depois, quando o arquiteto Ludwig Mies Van Der Rohe passou a propor em seus trabalhos a depuração da forma para se chegar à essência.

 

A cantora e compositora Tiê é discípula assumida da veia minimalista do ícone da Bauhaus. E ainda faz questão de ir além, sempre frisando também em seu trabalho outro lema de Mies Van der Rohe, o de que “Deus está nos pormenores”. É assim, deste jeito, que ela norteia sua ascendente carreira autoral, que conta com o primeiro álbum recém-lançado (feito de forma superindependente mas agora devidamente encampado por uma gravadora multinacional, a Warner, que em breve lançará uma nova edição, com o acréscimo de “Se Enamora”, regravação do clássico infantil da Turma do Balão Mágico) e uma coleção de elogios por onde ela passa, toca e canta.

 

Sweet Jardim, o disco, representa a essência de Tiê. Não apenas suas canções remexem lá no fundo se suas experiências e sentimentos, como ainda são tocadas de um modo puro, singelo, simples. É quase sempre Tiê ao violão ou ao piano, com poucos adereços ao seu redor no arranjo. Uma guitarra aqui, um cello ali, um teclado ou baixo discretíssimo acolá. Ao vivo no estúdio, sem banda de apoio, tal qual ela soa ao vivo.

 

“Eu quis justamente fugir daquilo que todo mundo faz. Hoje você tem acesso a mil efeitos, softwares ou computadores. Qualquer miniestúdio faz um puta disco. Minha proposta então foi trazer as músicas para o simples, A coisa falada, a falta de clique, sem grandes firulas. Chamar a atenção para a minha voz, que é pequena. Foram três takes para cada faixa e depois foi escolhido o melhor”, conta a paulistana que se profissionalizou no meio musical trabalhando durante dois anos backing vocal de Toquinho (sim, o parceiro de Vinícius de Moraes em vários clássicos da MPB e o intérprete da clássica “Aquarela”).

 

Versos são quase todos autobiográficosVerdades internas

E é justamente compondo e cantando suas músicas que ela se distancia dela mesma para se sentir melhor. Uns escrevem blogs, outros fazem livros, muitos vão para o divã do terapeuta. Tiê escolheu tecer melodias, construir harmonias e escrever versos autobiográficos. “Eu canto sobre o cotidiano e o amor, assim como tantas outras cantores. Mas eu canto bem as minhas músicas porque ali estão as minhas experiências. São tudo o que está dentro de mim. É o que eu tenho para falar. Aliás, no começo da carreira eu me perguntei: cantar para quê, se já existe uma grande competição de intérpretes com outras 597 milhões de cantoras por aí? Uma hora eu entendi que eu funcionava falando a minha verdade. Só uma letra, ‘A Bailarina e O Astronauta’ é metafórica. Claro que eu nunca vi um astronauta se esborrachar no chão, mas também muitas coisas que eu canto ali são minhas”.

 

Nem tudo, porém, foram e são flores para a menina que decidiu se despir diante de seu público através do microfone. “Claro que tudo isto sempre foi difícil para mim, Deus do céu, logo eu que sempre fui muito fechada... Quando eu cantava sambas antigos, acompanhava o Toquinho ou fazia o projeto Cabaret [nota do jornalista: desenvolvido em conjunto com o também cantor e compositor Thiago Petit e do tecladista Dudu Tsuda, que toca em bandas como Jumbo Elektro, Cérebro Eletrônico e Pato Fu] eu me escondia atrás de personas”, relembra. Agora, Tiê fala com naturalidade do fim de um amor (“Assinado Eu”), das memórias da infância (“Sweet Jardim”) ou ainda da origem curiosa de seu nome (“Passarinho”)

 

A intimidade extrema de suas canções também foi intencionalmente transferida para a concepção gráfica do disco, com encarte e capa desenhados à mão e explorando o contraste entre o preto e o branco. “Quis também algo simples, que fosse no vazio. O pôster eu fiz na Galeria do Rock, no centro de São Paulo, que é um lugar supertosco. Aliás, existem artistas com os quais se gasta tanto com grifes e maquiagens que realmente não dá para entender...”

 

Outra curiosidade do encarte: no meio dos agradecimentos, de forma proposital, estão espalhados alguns dos maiores ídolos e heróis de Tiê, como Leonard Cohen, Radiohead e Tom Waits. Na maioria desta seleta lista, nomes masculinos. “É estranho, né? Gosto muito das vozes masculinas, apesar de minha obra ser bem feminina e romântica”, justifica. “É que eu gosto de caçar tudo quando tenho um disco na mão, as influências do artista, quem fez o quê, quem toca em cada música... Já que hoje CD não serve para quase nada mesmo, procurei explicitar tudo isso no meu”, ironiza, sem deixar de ter uma boa dose de razão.

 

Sobre Plínio Profeta, a cantora não se cansa de rasgar elogios. “Ele é mais do que o produtor musical do meu disco. É um anjo! Conseguiu fazer o que se espera de todo bom produtor, que é captar e trazer aquilo que o artista tem de melhor sem aparecer demais. Sua atuação em Sweet Jardim foi cirúrgica. Ele entendeu perfeitamente o que eu queria fazer e olha que quando seu nome me foi apresentado eu meio que fui contrária à idéia... ‘Imagina, aquele funkeiro lá do Rio!’... Hoje ele é inclusive minha banda de apoio nos palcos.”


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