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Revival dos anos 90 nos palcos brasileiros começa com virtuosismo e hits guardados para o final

 

William Calhoun e Corey GloverTexto por Tanara de Araújo

Fotos de Stephan Solon/Via Funchal

 

Depois de uma remessa oitentista (A-Ha, Information Society, Pet Shop Boys) nada mais natural que os anos 90 reclamarem seu quinhão nos palcos brasileiros. Em uma temporada que ainda promete o Faith No More e o Jane’s Addiction para novembro, o Living Colour se responsabilizou pela abertura das porteiras. Para divulgar o álbum The Chair In The Doorway — recentemente lançado após cinco anos de limbo — o quarteto de Nova York agendou quatro datas no país. Entre a estreia em Porto Alegre e os shows no Rio e Belo Horizonte, aportaram em São Paulo para se apresentarem no Via Funchal nesta quinta-feira, 15 de outubro.

 

Se não conseguiram ensiná-los a ter noções de figurino, os anos só fizeram bem ao virtuosismo dos músicos do Living Colour. O guitar hero Vernon Reid pode até insistir em vestir-se de modo duvidoso — seu paletó xadrez + jeans rasgado + chapéu de caipira + óculos vermelhos era praticamente uma fantasia da “festa do ridículo”. Em compensação, segue inabalável no posto de um dos instrumentistas mais geniais de sua geração. Ao vivo, salta com segurança das execuções fiéis às improvisações sem macular o repertório. A mesma capacidade de gerenciar tais nuances — incluindo aí uma curiosa parceria com discretos sintetizadores — é estendida aos demais integrantes. Doug Wimbish enriquece as canções com linhas de baixo potentes, mas sem excessos de firulas. Corey Glover se dá ao luxo de brincar com os vários níveis de alcance de seu gogó. E Will Calhoun é a tradução em suor, pratos e bumbos da palavra energia — embora, fique claro, isso não justifique quase dez minutos de solo de bateria, com ou sem baquetas de néon.

 

O guitar hero Vernon ReidEncerramento apoteótico

Tecnicamente irrepreensível diante de três mil pessoas cientes de seu talento, a banda pecou apenas por uma montagem instável do set list. É uma atitude autêntica não se acomodar a velhos sucessos, sobretudo se o foco é o lançamento de um novo trabalho. Mas o extremo oposto corre o risco de gerar cansaço — e foi o que ocorreu nos dois primeiros terços do espetáculo na capital paulista. Após uma abertura promissora com “Middle Man” e “Time’s Up”, a banda pesou a mão em uma extensa sequência de músicas menos populares. A massiva maioria era de The Chair In The Doorway, cujo conteúdo ainda é de domínio exclusivo dos fãs mais íntimos. Nesse ínterim, até mesmo a performance do grupo soou mais apagada, quase uma sombra do histórico show no Hollywood Rock de 1992. Nem o sempre carismático Glover, que faz o tipo “canto, danço e sapateio”, movimentou-se a ponto de suar a camiseta. E não por acaso, o melhor momento do recheio foi o de “Open Letter (To a Landlord)”, acompanhada com emoção pelo público.

 

Ao invés de polvilhar a crème de la crème de seu patrimônio ao longo das quase duas horas e meia em cena, o Living Colour revelou a estratégia do final apoteótico. Se um clássico atrás do outro aos trinta do segundo tempo não contribui para uma apresentação mais redonda, é fatal na hora de garantir uma impressão derradeira positiva. E não deu outra. A partir de “Elvis is Dead”, a plateia não só recobrou o ânimo, como seu excesso de adrenalina esparramou-se de volta ao palco. Uma vez reacendidas suas peculiares “cores vivas”, o quarteto rapidamente reverteu uma noite à beira do morno em bailão rock’n’roll. Nesse pacote, incluiu peso extra na sua versão de “Should I Stay Or Should I Go” (do Clash), uma ligeira alteração de condução em “Type” e até uma divertida citação de “Hound Dog” (Elvis Presley) em, claro, “Elvis Is Dead”. Com as pilhas recarregadas, Glover e Wimbish entusiasmaram-se, inclusive, a passear no meio do público.

 

Ah, sim. Para quem esperou até o final do texto para chiar que o Living Colour não é “anos 90” — seu primeiro disco (Vivid) é de 1988 — vale uma explicação importante. Quando se trata de música, décadas não se registram no calendário, mas em um conjunto de tendências. Sendo assim, nada mais noventista que o outrora rótulo do funk metal, encabeçado por gente como o Red Hot Chili Peppers, o Faith no More e o próprio Living Colour — todos, a propósito, com discografias anteriores à virada dos 80. A série de shows do quarteto nova iorquino é, portanto, o primeiro indício de uma reinstauração da república das guitarras altas, das camisetas pretas, dos bermudões e quem sabe até de uns fios longos dignos de bater cabeça. Escolha seu revival favorito, a temporada está aberta.

 

Set: “Middle Man”, “Time's Up”, “Go Away”, “Sacred Ground”, “Burned Bridges”, “The Chair”, “Decadance”, “Young Man”, “Method”, “Open Letter (To a Landlord)”, “Bi”, “Papa Was a Rolling Stone”, “Glamour Boys”, “Behind The Sun”, “Bless Those”, “Hard Times”, “Out Of My Mind”, “Elvis is Dead”, “Type”, “Cult of Personality”. Bis: “Love Rears Its Ugly Head”, “Should I Stay Or Should I Go” e “What's Your Favorite Colour”.

 


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