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Banda analisa faixa a faixa de Nova Onda Caipira, seu novíssimo e tão aguardado segundo álbum

Prepare-se para a Nova Onda CaipiraFoto de Eduardo Ribeiro/Divulgação

 

Esta semana de outubro é a principal da temporada do Charme Chulo. Foram quase oito meses passados entre pré-produção e a finalização das gravações e mixagens do novo álbum. Agora, o tão aguardado segundo trabalho da banda – que recebeu o batismo de Nova Onda Caipira – ganha a luz do dia em dois eventos em Curitiba.

 

O primeiro é um pocket-show acústico na Fnac Curitiba (terça, 20, 19h30, entrada grátis), que faz parte do evento mensal Mondo Bacana Apresenta. Além de antecipar algumas músicas que estão saindo do forno, a banda apresenta seu novo baixista e ainda bate papo com os fãs e o pessoal do Mondo Bacana contando algumas curiosidades do disco e “causos” de bastidores da gravação do disco. Quatro dias depois (sábado, 24), o quarteto sobe ao palco do Sesc da Esquina para o show oficial de lançamento de Nova Onda Caipira (veja mais detalhes sobre os dois eventos aqui)

 

Em breve, Mondo Bacana volta a falar de Nova Onda Caipira, que há dois meses não para de ter alta rotação aqui na nossa redação e que com certeza garantirá o grupo paranaense um lugarzinho bem especial nas relações dos melhores discos desse ano. Por enquanto, a dupla de primos, fundadores e compositores do Charme Chulo, o guitarrista/violeiro Leandro Delmonico e o vocalista Igor Filus, comentam cada uma das onze faixas.

 

>> Enquanto você lê os comentários de Igor e Leandro, escute aqui o álbum Nova Onda Caipira

 

MODA DO ACERTO

Leandro: Era questão de honra compor uma moda de viola para este disco. O único problema é que somos caipiras de meia-tigela. Uma moda requer boa dose de inspiração interiorana, mas no nosso caso a inspiração só poderia ser urbana. Então tive a idéia de pegar um “causo” que aconteceu comigo e com várias pessoas por ai: um assalto. O grande lance era tratar um caso sério com a ingenuidade típica do caipira, algo meio irônico mesmo. O mais curioso é que a melodia surgiu de manhãzinha. Nada mais apropriado...

 

FALA COMIGO, BARNABÉ!

Leandro: Barnabé segue o lado new wave do disco. O titulo Nova Onda Caipira veio antes das músicas e acabamos nos influenciando por ele. Queríamos uma música dançante com vocais gritados em uníssono, tipo Titãs ou Ultraje a Rigor. A base melódica de Barnabé foi criada em cima de uma bateria tosca de teclado; se você reparar na linha de baixo do pré-refrão irá perceber algo de baião também. A letra fala de convívio social, do medo de se isolar e não conseguir travar uma simples conversa. Enfim, é preciso ter cuidado para não transferir sua vida para um site de relacionamento.

 

TRÊS MARIAS

Leandro: Foi um dos primeiros instrumentais que criamos após o primeiro disco. Ela tem aquela pegada pós-punk presente em algumas músicas da banda. Surgiu do riff de viola e sua letra parte para um lado mais poético. Quando o Igor me mostrou a letra, me lembrei muito das temáticas do Almir Sater.

Igor: Pegamos o ótimo riff de viola que o Leandro tinha apresentado e desenvolvemos com a banda toda em estúdio, resultando num instrumental embrião da canção. Então, assim como na maior parte do processo compositivo do Charme Chulo, eu peguei o embrião e criei a música (melodia e letra). Considero essa canção como uma prima-irmã de “Mazzaropi Incriminado”, do primeiro álbum.

 

NOVA ONDA CAIPIRA

Leandro: Essa canção defende o jeito Charme Chulo de ser: “Anda logo então, aceita sim ou não/ Um jeca fino assim/ Se é bom não é da gente, normal vai ser diferente/ Depois vai gostar de mim”. Quando mostrei a base para o Igor decidimos dar o titulo do disco a ela. É uma música de guitarra, muito influenciada pelas bandas dos anos 80 que carregavam algo country, como Pretenders, Dire Straits, R.E.M… Achamos muito legal essa coisa de soar pop e raiz ao mesmo tempo. Gosto muito das frases de efeito dessa música: “Então não custa p’reu tocar com uma guitarra uma moda inteira, um rock caipira” ou, recriando Tião Carreiro, “O carnaval é quatro dias\ a viola é durante o ano inteiro”.

Igor: Mesmo com todos os elementos regionais, especialmente os contidos na letra, acho que esta é a música mais pop que o Charme Chulo já fez. Pop no sentido musical... Quando tocamos pela primeira vez a versão finalizada em estúdio, sentimos na mesama hora que ela devia ser uma das músicas de trabalho do disco. Nada mais ideal para um soft rock superemblemático e charmechuliano.

 

BRASIL SACANAGEM

Leandro: Este titulo também veio antes da música. Queria fazer um apanhado histórico de toda a sacanagem típica brasileira, desde a colonização, passando pela pornôchanchada até chegar aos dias de hoje, com essa política escandalosa. O Igor acabou indo para um lado mais político social, o que agradou bastante. Consideramos o instrumental um pagode de viola (ritmo criado na viola caipira por Tião Carreiro) com bateria e baixo no gás.

Igor: Para compor essa música observei muito a estrutura desses pagodes do Tião Carreiro, que são canções muito simples, sempre apresentando uma única frase melódica que repete umas cinco vezes, intercaladas por um tema na viola caipira. Só que a letra, por sua vez, é uma história contada sem repetição do início ao fim, que nada mais é do que o verdadeiro esquema folk (da escola clássica), onde o que importa é a história a ser contada pela letra. Uma observaçao legal é que aqui Bob Dylan realmente encontra Tião Carreiro, fácil, fácil... São as duas Américas se comunicando sem nenhuma saber da existencia da outra.

 

DE HOJE NÃO PASSA

Leandro: É a nossa música mais emblemática. A letra é baseada na experiência de ter uma banda independente no país, de não ser levado a sério e lutar com todas as forças por um espaço digno. É meio que um desabafo do Igor. Apesar da guitarra marcar bastante a música, o riff saiu quando eu brincava com o baixo no estúdio da banda. A música já estava presente no disco Charme Chulo Ao Vivo Na GGG, um projeto bem legal aqui de Curitiba [Nota do Mondo Bacana: você pode baixar gratuitamente este disco aqui.]

Igor: Aqui desta vez fazemos uma miscelânia musical de tudo que a banda tem. Essa é de guitarra, mas parece o esquema folk de “Brasil Sacanagem”. Letra, riff, letra, riff... só que desembocando num refrão marcado, o que faz a música parecer uma coisa meio operística e grandiloquente. Então fiz a letra seguindo esse clima, recheada de expressões populares e palavras de ordem, como um cavaleiro galopeando em direção à sua guerra.

 

BORBOLETA DE PORCELANA

Leandro: Flertamos com o brega nesta canção, o titulo já entrega isso. Borboleta é uma guarânia ou polca paraguaia. A bateria leva a música em compasso três por quatro enquanto a guitarra ensaia algo meio glam com o pedal wah wah. Ficamos contentes com o resultado final... A letra é exagerada propositalmente e o instrumental não deixa por menos. Flertamos aqui também com violão, harpa, acordeon e piano. Assim como “Amor de Boteco”, do álbum anterior, “Borboleta” deve ser uma surpresa agradável neste trabalho!

Igor: Tem o ritmo ideal para compor a primeira música de amor romântico para o Charme Chulo. Vão dizer obviamente que escrevi a letra pra minha mulher, pois não estou mais solito, como no primeiro disco (risos), e porque as frases sempre começam com: Ela, ela, ela... Mas, observando melhor, dá para ouvir os vários venenos contidos na letra, que para mim foi sumariamente influenciada pela banda de britpop Suede. Digamos que seja Suede com Chitãozinho & Xororó!!! (risos)

 

VIDA MODERNA

Leandro: Peterson saiu da banda, mas deixou um ótimo presente: sua primeira e única composição para o Charme Chulo. Nos baseamos naquelas marchinhas caipiras que o Mazzaropi cantava em seus filmes e mesmo assim ‘Vida Moderna” ganhou um corpo pop e dançante no estúdio, principalmente nos refrões. Peterson falava que a letra era como se uma pessoa de 50 anos atrás acordasse no mundo caótico de hoje. Acho um tema muito apropriado para a canção. Outro destaque é a primorosa participação do sanfoneiro Adriano Magoo, ótimo instrumentista de Campo Grande (MS).

 

ATÉ DIZER CHEGA

Leandro: Esta música me surpreendeu por ter entrado no disco. Afinal, foi feita antes mesmo do primeiro álbum sair. Sempre gostamos dela, mas nunca soubemos direito o que fazer... A letra fala sobre uma pessoa que é massacrada pela TV. O titulo é baseado em uma visão que o Igor teve: um outdoor de uma Churrascaria com a foto de uma peça de carne e escrito em cima o slogan “Até dizer chega”. Ela cresceu bastante no estúdio. Lembra um pouco Karnak e Pato Fu pelas partes bizarras.

 

RÁDIO AM

Leandro: Penso que a alma caipira e saudosista está na periferia, onde as pessoas escutam Radio AM e tal. O instrumental é perfeito para os shows e procuramos deixá-la o mais natural possível. O grito de Charme Chulo no final da música deu um toque no disco... Também sentíamos falta de uma música rápida e direta nesse disco e gosto muito de sua temática, algo que tem muito a ver com a banda.

 

GALO MARINGÁ

Leandro: Chamamos “Galo Maringá” de folk brasileiro, como aquelas canções do Raul Seixas de pegada country. Nesses dias percebemos que ela lembra muito um clássico da música paranaense, “Bicho do Paraná”, do João Lopes. O mais interessante é que ela fecha o disco falando de voltar para a sua cidade natal. O título faz referência ao apelido do time de futebol da cidade de Maringá, terra natal de metade da banda. Outra influência é a música “Maringá, Maringá”, composição de Joubert de Carvalho, regravada também por Tonico e Tinoco. O nome da cidade de Maringá é uma homenagem a esta canção que conta a história de uma retirante nordestina, a cabocla Maringá. A parte de Galo que diz “de um caboclo a sossegar” é uma referência explicita ao clássico de Joubert.

Igor: Preferimos suprimir a expressão “Galo Maringá” que havia na letra original pra evitar um exagero com o regionalismo na música, deixando só no título e colocando no lugar disso uma referencia mais sutil. Isso ampliou consideravelmente a abrangência da mensagem contida em sua letra. Para compô-la eu literalmente a arranquei do âmago de um coração interiorano. E foi a música que me fez mais feliz de ter criado para o Charme Chulo até hoje.

 

>> Você também pode escutar aqui o álbum de estreia, Charme Chulo

 

 

 


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Comentarios (2)Add Comment
0
Charme Chulo é sonzeira de 1ª
escrito por Ricardo Vergueiro, 21 de outubro de 2009
Os caras são feras e fazem um som muito louco e original! As composições (música e letra) são inspiradas e poéticas... e o som que fazem é preciso, bem trabalhado e arranjado... puta instrumentistas também... Tive o prazer de conhecê-los (e até dividir o palco com eles) no show que fizeram aqui em minha cidade, Mogi das Cruzes – SP! A galera aqui pirou e já tão me enchendo o saco de tanto perguntar “quando é que os caras voltam?”... Espero mesmo que muito em breve!

Vida longa a essa "Nova Onda"... Viva a viola caipira... Afinal de contas, ela é um pouco a praia de todo brasileiro que não sente vergonha de sê-lo.

Um abração pr’essa banda do c*****o... Igor, Leandro, Rony, Marano, sucesso sempre!!!

Ricardo Vergueiro
(Banda Bico do Corvo)
0
Parabéns
escrito por Felipe Lessa, 17 de novembro de 2009
Ótimo disco. Já que na canção Galo Maringá não falam do glorioso Grêmio da cidade canção, bem que poderiam mandar um som em homenagem ao União Bandeirante e seu lendário presidente Serafim Meneghel.

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