Domingo Mar 14

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Bonde do Rolê – Ao vivo

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Twittar este Artigo Três anos depois, grupo retorna a Curitiba e faz o show mais sujo que a cidade já viu

 

Laura canta sob a mira de PedroTexto por Felipe Gollnick (do blog Defenestrando)

Fotos de Isis de Camargo (show), Anderson de Souza (camarim) e divulgação (posada)

 

Sabe aquele negócio que dizem quando algo é tão ruim, mas tão ruim que chega a ser bom? Então. Existe um grupo curitibano que parece cair perfeitamente nessa definição...

 

Três anos. O período que separa a última apresentação do Bonde do Rolê em Curitiba da que aconteceu nesta sexta-feira (16) não é curto: nele aconteceu ao grupo curitibano de funk tudo (e mais um pouco) do que pode acontecer a uma banda de rock: ascensão meteórica, turnês exaustivas pelo estrangeiro, menções em todo o tipo de publicação ao redor do mundo, rompimento dramático e estressante com vocalista no auge do hype, concurso na MTV para a definição das duas novas frontwomen, cotidiano com integrantes totalmente novos e desconhecidos e muito mais.

 

Por isso que o anúncio de um show do Bonde em sua cidade natal pôs os fãs em polvorosa. Munidos do natural sentimento de pais, irmãos ou donos da banda, os curitibanos foram em peso ao John Bull Music Hall para ver o que tinha acontecido àquele grupo que em seu último show aqui ainda era um trio desconhecido, que ninguém imaginaria ter um grande futuro. Por essa identificação do público com o agora quarteto e pela promessa de show intenso (como costumam ser todas as apresentações do BDR), a noite de 16 de outubro tinha tudo para ser uma das mais especiais dos últimos tempos. Mas o que não se imaginava é que ela, ao mesmo tempo que inesquecivelmente incrível, seria extremamente suja. Em todos os sentidos, mas especialmente no literal. Explico isso melhor mais pra frente.

 

Pedro e sua meleca marromNoite feminina

Antes da sujeira do BDR, entretanto, tocaram outras três bandas. Quem primeiro subiu ao palco foi a Rockajenny. Dando o pontapé inicial em uma noite de toque feminino (todas as atrações que se apresentaram tinham uma mulher no vocal ou eram compostas apenas por elas), as quatro meninas jovenzinhas subiram ao palco e apresentaram a um público ainda pequeno a sua mistura de rock clássico com o indie dos anos 2000. O material apresentado não foi convincente, mas sem dúvida é promissor. Riffs ágeis, agradavelmente repetitivos (remetendo ao mesmo tempo a Strokes e Kinks) e linhas simpáticas de vocal chamam a atenção, mas as garotas pecaram pela crueza excessiva dos efeitos de guitarra e pela pouca presença de palco. Acertando esses e mais algum outro detalhe, elas têm tudo para alavancar seu nome no cenário atualmente fortíssimo da cidade.

 

Depois delas, quem veio às luzes foi outro grupo 100% feminino. Já pelo nome, Punkake, as garotas em nada lembram a delicadeza dançante do grupo anterior. Começaram tocando algo pesado e depois usaram e abusaram de covers que não tinham muito a ver entre si. Não que houvesse grandes defeitos, mas o grupo claramente ficou deslocado na programação da noite.

 

Após um intervalo demorado, o Copacabana Club subiu ao palco junto com todo o hype que tem carregado nas costas nos últimos meses. Agora de guitarrista novo (Rafael Martins, também do Ruído/mm e do Wandula), os copas fizeram seu animado show para um público agora em bom número. E o que eu percebo a partir desta e de algumas outras apresentações anteriores do copa é que elas começam como algo extremamente normal – um show sossegado – e vão crescendo até chegar à apoteose. Na noite do John Bull não foi diferente: a banda começou calma (salvo alguma empolgação em “King Of The Night”, a segunda do setl), mas evoluiu até grande animação coletiva quando a vocalista Caca V foi no meio da galera para encerrar o show com “Come Back” e o superhit “Just Do It”. Deixou o público no melhor estado possível para o esperado show do Bonde do Role – que faria uma apresentação espetacular...

 

Antes que o Bonde entrasse, amigo meu avisou que era melhor não ficar perto do palco, para preservar a integridade da roupa. Ora, entendi isso como algo bom (coisa boa deveria vir!”, pensei) e busquei um lugar no gargarejo, onde a empolgação é sempre maior. Pouco tempo depois, Pedro D’Eyrot, Rodrigo Gorky, Ana Bernardino e Laura Taylor finalmente apareceram. E é agora que volto a falar sobre a sujeira desta noite...

 

Gran finale com invasão total do palcoChuvas e melecas

Os quatro se apresentavam alteradamente alegres e vestiam trajes de bebê. Pedro estava com a sua fralda notadamente cheia. Gorky, o DJ, deu o play e a “Dança do Zumbi” já saía das caixas de som. Os três vocalistas se revezavam berrando a música, e a platéia, no ponto certo desde o Copacabana, mostrava-se conquistada. E choveu cerveja nos primeiros segundos. Em algum momento, Pedro entornou uma garrafa inteira da mesma bebida na cabeça de Ana enquanto ela cantava – e a moça parecia nem perceber. Gorky, entrando no clima do “traje”, pegou um pote de talco e passou a espirrá-lo para todos os lados (da banda ao público). Então, um inusitado cheirinho de bumbum de bebê surge no mesmo lugar onde há várias garrafas de cerveja estilhaçadas no chão.

 

A primeira nem bem havia acabado, matadora, e “Geremia” começou logo em seguida, entoada como hino por vários fãs que cantavam, dançavam e pulavam entusiasmadamente, “se jogando”, berrando o refrão emblemático que lembra grito de torcidas de futebol (“ih, fudeu, Geremia apareceu!”). Na terceira, “Divine Gosa”, o público passou a subir no palco – a festa estava feita. Com três músicas como essas logo de cara, com uma banda disposta a fazer de suas apresentações eventos memoráveis e com uma platéia disposta a entrar no clima, não havia o que dar errado. O show do Bonde do Rolê deste 16 de outubro de 2009 tinha se tornado marcante já nos seus primeiros minutos.

 

Mas a sujeira não acabaria ali. Logo Pedro tirou de dentro de sua fralda o que a deixava cheia (uma pasta marrom, grossa e feia; seria mesmo cocô?) e espalhou pelo próprio rosto, pela camisa, pelos braços. Passou ainda nas outras vocalistas e jogou o resto no público. Bernardino apareceu depois com uma sacola cheia de geladinhos (aqueles coloridos, lembra?) rasgou alguns e espirrou em quem tivesse perto. Depois distribuiu para a galera, que faz a mesma coisa.

 

Sujeira, sujeira... Os quatro integrantes do Bonde estavam imundos. Na pele e nas roupas, uma mistura de talco, cerveja, cocô falso e geladinho. A platéia, quase do mesmo jeito, além de hipnotizada, se estupefazia com o quão trash era tudo aquilo que ela via. E o pessoal que quisesse dançar ainda tinha de tomar cuidado com a quantidade incrível de cacos de vidro no chão.

 

E passou tudo tão depressa que foi quase um susto quando eles anunciaram que tocariam a última música. O público lamentou, mas logo em seguida Gorky mandou o loop de “Solta o Frango” e o palco foi imediatamente tomado de fãs, que cantavam o hit berrando e tentando aproveitar o máximo possível os últimos momentos desse evento que sabem ser único. Mas a música acabou. O palco esvaziou, o Bonde foi embora. Só ficou a sujeira. Muita sujeira. Não teve como não sentir dó do pessoal da limpeza, que entrou em ação com uma cara de pouquíssimos amigos.

Assim também como não teve como não ficar pensando que porcaria toda fora aquela. Que tipo de show, que tipo de banda é essa que atira geladinho e cocô falso ao seu público fiel, entusiasmado? É o tipo de banda que é o Bonde do Rolê. O quarteto fez um show tão ruim, de tão elevado grau de tosquice, que deve ter sido um dos melhores e mais espetaculares shows vistos em Curitiba nos últimos anos.

 

ENTREVISTA - PEDRO D´EYROT E RODRIGO GORKY

 

Bati um papo com eles um pouco antes do show no John Bull. A conversa passou pelos assuntos mais variados possíveis: do disco novo à gravação do video em uma favela do Rio de Janeiro, passando pela vidente do grupo e por um caranguejo encontrado vivo na comida de um restaurante do centro de Curitiba.

 

Cheguei no camarim e estou me preparando para fazer as primeiras perguntas. Foi quando escutei um barulho de porta abrindo e sinto um cheiro horrível, daqueles de banheiro depois do almoço. De repente todos no camarim se mataram de rir. Olhei para o lado e vi Laura Taylor saindo do sanitário, gargalhando também...

 

Ana Bernardino: [gargalhadas] Foi você, né, Laura?! Foi você, né?!

Laura Taylor: Ai gente, não sei o que falar.

 

Alguém ainda tirou um sarro de Laura. Pedro mostrou interesse no que eu queria perguntar, mas tanto ele quanto Gorky pareciam cansados. Concluí que eles estavam mais interessados em se livrar das perguntas e começar a beber mais intensamente, para se preparar para o show. Perguntei como é tocar em Curitiba depois de três anos...

 

Pedro D’Eyrot: É muito loco, tem vários amigos meus aí...

Ana: Seu pai está aí...

Rodrigo Gorky: O pai do Pedro tá aí...

Pedro: Meu pai tá aí, a japonesa gostosa por quem eu era apaixonado no Cefet tá aí... [todos se espantam]

Ana: Nossa, aquela japonesa linda!

Pedro: Você conhece a japonesa gostosa do Cefet?

 

Respondi que conheço várias japonesas do cefet, mas nenhuma muito gostosa.  

 

Pedro: O que mais você quer saber, meu filho?

 

Reza a lenda que o nome Bonde do Rolê vem da Lanches Rolê, lanchonete na Vicente Machado onde Gorky e Pedro comiam regularmente. Perguntei se já voltaram lá pra ver se rola algum tipo de homenagem...

 

Pedro: Reformaram o Rolê, cara!

Gorky: A gente passou do lado.

 

Pedro: Não rola nem um pôster.

 

Não rola nem uma homenagenzinha... Gorky apontou para as meninas e perguntou para Pedro...

 

Gorky: Cara, a gente podia levar elas lá amanhã né?

Pedro: É, vocês podiam ir no Rolê... Que horas que é o vôo? Alguém checou?

Gorky: Quatro da tarde.

Pedro: Quatro? O do Copa é meio-dia.

 

É que no dia seguinte, o Bonde do Rolê tocaria junto com o Copacabana Club em Porto Alegre. Não parecia que eu entrevistava o grupo, mas que apenas estava dando tópicos para os quatro conversarem entre si. Mas mesmo assim continuei e perguntei a respeito do churrasco na laje, que foi uma gravação do vídeo que a banda fez na favela Tavares Bastos, no Rio de Janeiro.

 

Gorky: Ah, era uma curtição, era uma vibe legal, praia no Rio, calor, sol, churrasco e bebida de graça para os amigos.

 

E como foi fazer aquilo no meio da favela?

 

Pedro: Rolou uns pipocos. A gente se abaixava, passava bala perdida.

Gorky: É que com o suingue as pessoas não percebem. Tinha granada...

Pedro: Não, granada não tinha porque o povo era do bem. Tinha umas bombas caseiras, uns copinhos de mijo [risos]

Ana: A gente tava mostrando a favela mais linda do Rio de Janeiro.

Pedro: O pessoal lá era do bem!

Gorky: O Hulk foi gravado lá [naquela laje]. Do lado tem o estúdio da Record.

Pedro: Não é estúdio.

Gorky: É, é locação.

 

Uma das meninas falou que o lugar que ela queria morar era ali. Assocei os fatos e perguntei se, então, não era mesmo no meio da favela.

 

Pedro: Não.

Ana, Laura e Gorky: Era!

Pedro: Era uma favela, mas era uma zona sem tráfico.

Gorky: Do bem!

 

"A gente fez um disco de samba na verdade, só com músicas de travesti. Não é “O” novo disco do Bonde do Rolê, é tipo um projeto. Bonde do Rolê Apresenta Samba de Traveco... Não é o nome oficial ainda mas a ideia é essa"

 

Próxima pergunta... O primeiro álbum do grupo, With Lasers, saiu pelo selo Mad Decent, do produtor norte-americano Diplo. O segundo está vindo aí. Vai sair pelo mesmo selo?

 

Pedro: Vai... É que a Mad Decent licencia o disco para uma gravadora que a gente não sabe qual vai ser.

 

A partir daí Pedro e Gorky começaram a conversar alguma coisa ininteligível sobre quantidade de discos, mas demorou para cair a ficha que eles estavam se referindo a alguma outra coisa subentendida entre os dois da qual eu não fazia ideia o que era.

 

Gorky: São dois discos...

Pedro: São DEZ discos...

Gorky: Ah, vai tomar no cu!

 

A explicação veio em seguida...

 

Gorky: A nossa vidente falou...

Pedro: A gente veio pra Curitiba e foi ver nossa vidente...

Gorky: Ela falou que a gente vai lançar dois discos... [para Pedro] Puta, a gente tem começar a falar disso de verdade! [para mim] ...Olha, ela falou que dos nossos discos, um fica pronto em março, o outro fica pronto em outubro, os dois vão ser lançados ano que vem e vão ser um sucesso. Foi isso que a nossa vidente nos disse e se você quiser o telefone dela você pode ir lá pra confirmar.

 

Nessa hora todo mundo começou a falar ao mesmo tempo e, não sei como, o tema da conversa descambou e foi parar em um restaurante chinês da Rua Comendador Araújo.

 

Pedro: O Fonk! O Fonk é zoado.

Gorky: [com nojo] Eu vi uma foto...Acharam um caranguejo vivo no meio da comida.

Pedro: [rindo] Eu vi! Eu vi no Facebook!

 

A conversa segue girando e agora chega no sebo Fígaro, no qual Gorky fala para Laura que ela iria pirar. Até o momento em que Pedro me fala que eu preciso interrompê-los se não eu ficaria ali até o dia seguinte. Faço uma última pergunta: se o disco novo realmente tem “travesti” como tema único.

 

Pedro: A gente fez um disco de samba na verdade, só com músicas de travesti. Não é “O” novo disco do Bonde do Rolê, é tipo um projeto...

Gorky: É tipo, sabe quando o Quentin Tarantino brilha e não dirige o filme, só o produz? Sabe, ele diz que é um filme dele, mas é outra pira?

Pedro: Bonde do Rolê Apresenta Samba de Traveco... Não é o nome oficial ainda mas a ideia é essa.

 

Quando estou saindo, Pedro foi até um canto onde estão depositadas várias latas de cerveja vazias: "Cadê minha cerveja? Eu sempre perco ela". Quando estou indo embora, desejo bom show a todos. Ana e Laura me olharam com um sorriso meio sério, como que se divertindo, mas concentradas. Cerca de uma hora depois o Bonde subiu ao palco e fez uma das apresentações mais sujas dos últimos tempos...


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