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Virna Lisi
Escrito por Abonico Dom, 15 de Novembro de 2009 20:33
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O renascer de uma das mais cultuadas (e injustiçadas) bandas do rock nacional dos anos 90
Texto por Abonico R. Smith (com colaboração de Rodrigo James)
Fotos de Fernando Libânio/Divulgação (banda) e Rodrigo James (show)
Ronaldo Gino é só alegria. O guitarrista – que milita há duas décadas no cenário musical alternativo de Minas Gerais – não consegue esconder sua satisfação pela retomada de um caminho bruscamente interrompido. “Ele é a pessoa certa para você falar sobre esta volta”, diz a produtora do festival realizado todos os anos
Os mais desavisados que ali estivessem não acreditariam quando, ao final da apresentação do Virna Lisi, alguém dissesse que tratava-se de uma banda de veteranos, parada havia 12 anos. Afinal até mesmo quem viveu a década de 90 e conhece a história da banda não pôde disfarçar o susto quando César Maurício (vocal), Gino (guitarra), Marcelo de Paula (baixo), Luis Lopes (bateria) e o novo guitarrista Henrique Matheus iniciaram sua quente, vigorosa, ensurdecedora e arrebatadora performance.
Foram semanas de ensaios diários até que o quinteto decidisse encarar o palco. Neste período, foram muitos os indícios que algo estava por vir. César Maurício já havia participado como convidado especial do show da Bluesatan (banda de Ronaldo Gino) no festival Garimpo, enquanto Gino dera uma canja no show de César no festival Outrorock. O cenário estava armado. Faltava o gran finale. Ou o "grande recomeço".
Com o repertório centrado nos três discos de estúdio da banda, o quinteto mostrou que os anos separados parecem não ter acontecido. A adição de Henrique (que também presta ótimos serviços à banda Transmissor e produziu o primeiro disco-solo de César, ainda inédito) à formação aparentemente trouxe segurança para o quinteto, permitindo que Gino faça ainda mais estripulias no palco do que em outras eras. E que estripulias! Considerado por muitos o grande guitar hero de Minas Gerais, Gino está cada vez mais elétrico, puxando riffs distorcidos como poucos e armando a cama para César Maurício se jogar. E este é um caso à parte. Pula, rodopia, grita, joga o microfone para o público, toca tamborim, pandeiro, surdo, faz o diabo. Não custa lembrar que a dupla César/Ronaldo, além da primeira encarnação do Virna Lisi, passou um bom tempo junta em outro projeto, o Radar Tantã. Sintonia no palco é o que não falta.
Não faltaram os hits "Hiena Ria", "Vou Te Mostrar" e a cover de "Eu Quero Essa Mulher", hinos de uma geração que emocionaram as muitas gerações presentes ao show. Gente que estava ali para rever velhos amigos, gente curiosa que nunca havia visto o VL ao vivo e até mesmo alguns que não conheciam nada do som da banda mas foram arrebatados por ele. Ironicamente, em uma noite aberta pela melhor banda de rock em atividade no país (Black Drawing Chalks, de Goiânia), foi uma outra até então inativa que roubou o show. Não se sabe ainda qual será o futuro do Virna Lisi, mas pelo que eles mostraram no Eletronika, ele pode ser brilhante. Como já foi seu passado.
Entre o circo e o hospício
E justamente deste passado que se orgulha muito Ronaldo – assim como os outros três remanescentes da formação que se dispersou em outubro de 1997 (apenas o guitarrista Marden Veloso não está presente porque não trabalha mais profissionalmente com música desde então. “O Virna Lisi deixou mais saudade em pessoas antenadas, formadores de opinião, amigos muito próximos do que na molecada dos anos 90. Pudemos perceber isso logo que paramos de tocar. Deixamos muitos órfãos, por incrível que pareça”.
Por este “por incrível que pareça” entenda a tortuosa carreira fonográfica nos oito anos de trajetória da banda. Pelo pequeno selo Tinitus, lançaram dois álbuns (Esperar o Quê? e O Que Diriam Os Vizinhos?, o primeiro em vinil em 1992 e o segundo em CD 1995, ambos nunca mais reeditados em qualquer outro formato mas disponíveis para audição aqui no Mondo Bacana), justamente em uma época em que o compact disc inundava o mercado brasileiro e o bolachão amargava a rejeição imediata de quase todos os compradores de música e que a distribuição nacional dos CDs independente ainda era uma coisa para lá de precária.
Quando parecia que a grande chance do quinteto chegaria, a frustração: o contrato com a multinacional MCA (hoje Universal, a gravadora que mais investe em artistas nacionais) rendeu o álbum Se Desce a Lona Vira Circo, Se Cerca Vira Hospício, produzido com condições impecáveis e a assinatura de Tom Capone e Dado Villa-Lobos na produção. Contudo, também veio um incompreensível desinteresse imediato da gravadora pelo artista, justamente quando nomes como Raimundos, Skank, Pato Fu e Chico Science & Nação Zumbi bombavam nas rádios, TVs e imprensa especializada como os grandes heróis do renascimento artístico e comercial do rock brasileiro.
“Ter sido contratado pela MCA, que virou Universal neste período, não significou muito. Era uma época
Elegância artística
Voltando para os dias de hoje... O reencontro do Virna Lisi se deu após pequenos flertes dos músicos nos projetos musicais pessoais dos outros remanescentes. Também foi necessário um little help from the friends (especialmente Aluizer Malab, empresário do Virna Lisi naquela época e do Pato Fu desde sempre e também produtor e idealizador do Eletronika) na pilha para a ideia. O resto veio naturalmente.
“Já faz um tempinho que de vez em quando nos encontramos para tentar cuidar dessa nossa herança. É impressionante a elegância artística que sempre tivemos por ter feito o Virna Lisi! Todos do grupo puderam perceber isso... Aí, mexer nisso é coisa muito séria pra gente”. Tão séria que, para fazer este primeiro show depois de doze anos, veio a decisão de não mexer com músicas novas. “Até algumas pessoas vieram nos perguntar e cobrar isso. Para compor para o Virna Lisi hoje, é concenso que a gente precisa ficar impregnado novamente do som para depois pensar nisso”, justifica o guitarrista. “Mas a vontade de apresentar algo novo é grande. Chegamos até pensar em trazer ‘A Fala’ que só saiu na primeira coletânea da Tinitus, e depois vimos que isso tanto faz. Curtimos muito trazer novamente o Virna Lisi tal qual deixamos e pudemos perceber o tanto que ele é atual.”
Para Ronaldo, a insegurança de mexer neste retorno foi embora no primeiro reencontro para fazer um som. “O Virna Lisi volta pra valer, sim, mas com essas companhias eficientes de produção para cuidar do grupo. Estamos muito felizes internamente, momento de entrega total. Sinto também o Malab conosco, que completa essa conversa”. Então, estão definitivamente superadas algumas dificuldades de convivência que levaram à dispersão da banda em 1997. “Temos certeza que o Virna Lisi não estaria tocando de novo se não tivesse essa volta da cumplicidade, de querer o outro... História de banda é sempre casamento. E casamento coletivo”, exclama.
Se a história é retomar a relação e voltar a subir no palco como a encarnação que os tornaram famosos em sua juventude, seria possível, então, traçar paralelos como, por exemplo, voltar a ficar com o amor de sua vida depois de passados anos e anos? “Confesso que tive essa sensação do ‘noivo que vai pro altar pela primeira vez’ quando já tinhamos passado o som e combinamos de descansar um pouco. E foi só quando encontrei com os caras para sair junto e chegar junto no Eletronika, que saí dessa. Sensação de estreia...”, confessa Gino.
E ele ainda vai além. “Esta encarnação está muito mais interessante e sincera. Depois desses doze anos pudemos ‘sair desse corpo’ e ver que voltar agora é diferente. É impressionante como se volta melhor! Aquele medo de roqueiros quarentões foi embora nos primeiros encontros para um som. Marmita requentada jamais! Estamos longe disso agora já prontos. E não precisamos perguntar isso a ninguém.
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