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Morrissey – ao vivo especial

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Leia aqui a cobertura completa da passagem do cantor por São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte

Moz no Espaço das Américas (SP)Textos por Abonico R. Smith (SP), Leandro Delmonico (RJ) e Rodrigo James (BH),

Fotos: Stephan Solon/XYZ Live (SP), Soraya Sugayama (RJ) e Paulo Fonseca/Futura Press (BH)

SÃO PAULO – domingo, 11 de março de 2012

Assistir a um show de Morrissey não significa apenas estar a poucos metros de um artista que sabe muito bem ser e agir uma das marcas mais valiosas no mercado do rock. É muito mais do que isso. É participar de um processo irreversível de catarse coletiva com pessoas vindas de todas as partes do país (aliás, paulistanos devem ter sido minoria na pista premium do Espaço das Américas nessa noite de domingo).

À frente de sua poderosa banda de apoio – novamente com as camisetas vermelhas que afirmam ser o ditador sírio Assad “um bosta” – Morrissey encerrou em São Paulo sua segunda passagem pelo país. No repertório tudo o que não houve foi surpresa: o set de BH e Rio foi repetido, novamente limando qualquer canção inédita do set e dando um belo passeio por toda a carreira, resgatando faixas de quase todos os discos já gravados pelo cantor, tanto em sua carreira solo quanto nos tempos dos Smiths.

Foram seis canções dos Smiths no total, a maioria estrategicamente colocada na parte final do show. Esta “overdose” de parcerias com Johnny Marr levou à loucura muitos fãs mais antigos. Claro que, em se tratando de Moz, poucos foram os hits da banda de Manchester pinçados do passado. Mas também nem precisava. Quem lamentou a falta deste ou daquele outro sucesso mostrou desconhecimento sobre a trajetória de Morrissey, que até alguns anos atrás se recusava a cantar algo pré-Viva Hate, o álbum de estreia da carreira solo.

As escolhas dos Smiths foram certeiras. Em “Meat Is Murder”, Morrissey deu seu mais claro recado a favor do ativismo vegetariano. Enquanto ele entoava a valsa de protesto, um ousado vídeo era exibido. No telão ao fundo, cenas chocantes de maus tratos a animais vivos prestes a virar carne. Frangos e bois sofrendo muita crueldade chocaram os de – com o perdão do trocadilho – estômago mais fraco. “I Know It’s Over”, pérola despercebida do clássico álbum The Queen Is Dead, multiplicou a sua força executada ao vivo. Entre versos de pura melancolia e ironia explícita (o que é o trecho “If you’re so clever then why are you on your own tonight”, hein?), a música foi crescendo até levar muita gente às lagrimas ou ao êxtase – ou aos dois ao mesmo tempo. Pouco tempo depois, “Please Please Please Let Me Get What I Want” repetiu o feito. Já “There´s A Light That Never Goes Out” e “How Soon Is Now?”, cantadas a plenos pulmões por todos os presentes na casa, fizeram o bardo desabar de vez de emoção. Foi incrível ver Morrissey, tão hábil com a língua inglesa inclusive nos discursos e mudanças nas letras improvisadas em cima do palco, ficar completamente sem palavras para descrever o que estava sentindo aquela noite – a ponto de enrolar a bandeira brasileira na cabeça por um bom tempo na volta para o bis.

Outro ponto que ficou claro é que, tanto ao vivo quanto em estúdio, Morrissey prova que quanto mais o tempo passa melhor ele fica. Comanda a plateia com maestria, sinais e gestuais tão perfeitos quanto simples. E seus três últimos álbuns, lançados de 2004 para cá, são arrebatadores e justificam ser a base do repertório desta nova turnê. “Let Me Kiss You” (que em SP ganhou uma ensurdecedora introdução noisy, com teclados e guitarras repletos de efeitos) ganhou o status de um dos primeiros grandes hinos pop do século 21, por seu casamento perfeito entre a letra romântica e a melodia envolvente. “I Will See In You In Far-Off Places” é uma pequena opereta que leva Moz ao encontro de sonoridades arabescas – sua textura percussiva sugere uma agradável viagem a países da África setentrional e islâmica, como Tunísia e Marrocos. “When Last I Spoke To Carol”, por sua vez, traz flamenco mesclado ao mariachi (vale lembrar que o cantor fixou moradia em Los Angeles justamente por sua grande cultura chicana). “You Have Killed Me”, “First Of The Gang To Die” “Black Cloud” e “One Day Goodbye Will Be Farewell” mostram que o peso das novas músicas não se restringe às guitarras de Boz Boorer e Jesse Tobias e se estende à cozinha dos irmãos Matt (bateria) e Solomon Walker (baixo). Todas essas ainda brindam à versatilidade do colombiano Gustavo Manzur, que preenche a vaga de curinga se revezando entre teclados, violões, acordeon, percussão e trompete.

Não existe jeito de sair incólume de um show de Moz. Ele está aí há trinta anos e não deixa de emocionar. Até mesmo quando não está no palco. Primeiro porque escolhe a dedo as gravações e vídeos vintage que rolam antes de sua entrada e logo após o bis – a seleção musical inclui Gigliola Cinquetti, New York Dolls, Sparks, Vince Taylor & The Playboys, Brigitte Bardot, Nancy Sinatra, Nico e o contratenor Klaus Nomi. E como excentricidade pouca é bobagem, ainda pegou a ex-companheira de selo Kristeen Young para viajar o mundo abrindo os seus shows. A americana de visual bizarro e alcance vocal de quatro oitavas mistura programações eletrônicas a linhas atonais de piano, além de caprichar na performance gestual com perceptíveis influências do “chefe”. Tudo isso faz parte do show dele também. Por isso, Morrissey é Morrissey. Sua extensa legião de fãs e seguidores sabe muito bem disso. E ponto final. (ARS)

Moz na Fundição Progresso (RJ)RIO DE JANEIRO – 9 de março de 2012

Em tempo de internet, com YouTube e sites que revelam o repertório que um artista apresentou nos últimos shows, fica difícil surpreender o público. Principalmente um fã de Smiths/Morrissey como eu, que aos 14 anos de idade jura que tocou na mão do vocalista durante o show realizado em Curitiba em 2000. Se minha única opção era sair da capital paranaense para ver o Moz pela segunda vez, por que não viajar para o Rio de Janeiro, curtir o show e ainda pegar um fim de semana com direito a praia e ficar de bate-papo com os amigos? Fechado!

Sexta feira quente e agitada no Rio. A rua que passa ao lado da Fundição Progresso estava completamente tomada por fãs, cambistas, policiais, ambulantes e toda aquela “muvuca” típica do bairro da Lapa. Decidi entrar o quanto antes e meu amigo carioca, Flávio, pôde flagrar algumas figuras carimbadas na entrada vip, como os músicos George Israel (Kid Abelha) e Dado Villa Lobos (Legião Urbana).

Pouco depois das 23h horas Kristeen Young iniciou o show de abertura. Admito que ainda estava tomando cerveja e comendo uma pizza (sem carne, obviamente) quando uma mistura entre Björk , Klaus Nomi e Florence Welch invadiu o som ambiente. Terminei o lanche e fui encontrar um lugar bacana, já com a casa lotada. Achei o show razoável e bem pensado para a abertura, pois seria fácil remover apenas um microfone e um teclado do palco.

Quando vi o guitarrista Boz Boorer vestido de mulher e o resto da banda de sunga amarela eu pensei: “ainda bem que vim para o Rio!”. Em terras cariocas a gente sempre pode esperar algo diferente... Vale lembrar que o Príncipe Harry também estava na cidade, o que se tornou um ingrediente a mais para a língua afiada de Morrissey.

O músico “largou” o repertório-base da turnê sul-americana, abrindo com ”First Of The Gang To Die” e enlouquecendo o público de cara. O repertório se repetiu com canções dos Smiths cantadas pela maioria (“Still Ill”, “I Know It’s Over”, “There Is A Light That Never Goes Out”, “How Soon Is Now”, “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want” e a tensa “Meat Is Murder”) e outros sucessos solo (“Every Day Is Like Sunday”, “Alma Matters”, “You’re The One For Me, Fatty”, “Ouija Board, Ouija Board”, “Let Me Kiss You").

Sobrou (obviamente) uma ótima cutucada no príncipe Harry: “Ele veio pegar o dinheiro de vocês!” foi uma das frases da noite, entre outras afirmações elogiando a naturalidade e a beleza do povo brasileiro. E antes do único bis do show, o tecladista colombiano Gustavo Manzur conversou com o público: “Vocês são os fãs mais barulhentos do mundo, palmas para Morrissey. Ele adora vocês!”. (LD)

Moz no Chevrolet Hall (BH)BELO HORIZONTE – quarta, 7 de março de 2012

Há doze anos, quando da primeira passagem de Morrissey pelo Brasil, o inglês não andava de bem com a vida. Era o auge da batalha judicial que o impediu de gravar durante anos e ele, assim como eu e você, sabemos que é preciso paz de espírito para que o trabalho possa ser realizado com maestria. Você pode não ser um artista, mas não é difícil perceber que entrar num palco de mal com a vida não é um indício de que o show será impecável, por mais profissional que este artista seja.

Tudo isso aí em cima foi somente para dizer que agora, em 2012, é tudo diferente na vida de Morrissey. Se em disco, o cantor está em uma ótima fase, com três belos álbuns na sequência (You Are The Quarry, Ringleader Of The Tormentoes e Years Of Refusal, lançados entre 2004 e 2009), que se reflete também em cima dos palcos. Curiosamente (ou não) é desta fase o grosso do repertório do show que ele tem apresentado pela América Latina e que os brasileiros podem conferir esta semana.

A primeira apresentação ocorreu no último dia 7 de março em Belo Horizonte, para um Chevrolet Hall lotado em sua maioria por pessoas na faixa etária 35-45, como era de se esperar. Morrissey abriu o show postando a banda na frente do palco, para que todos pudessem ler a mensagem que estava escrita nas camisetas: "Assad is shit", numa referência ao presidente/ditador sírio Bashar Al Assad. Na sequência, a primeira música do show – e uma das melhores de sua carreira solo – "First Of The Gang To Die".

Mas e os Smiths, onde entram nesta história? Se tem uma coisa que pode ser "criticada" no show de Morrissey (além do som do Chevrolet Hall, que esteve em um de seus dias ruins), é a escolha das canções de sua ex-banda para entrar no set list. Não que as escolhas sejam ruins, mas se grande parte do público que estava lá conhecia Morrissey apenas por dois ou três clássicos como "Bigmouth Strikes Again" e "The Girl With The Thorn In His Side", por que não entregar isso? Enfim, escolhas são escolhas e a crítica tem que parar por aí. Porque não dá pra dizer que um show com "Still Ill", "Meat Is Murder", "I Know It's Over" (a mais emocionante do repertório do show, que levou muita gente às lágrimas), "There Is A Light That Never Goes Out", "Please Please Please Let me Get What I Want" e "How Soon Is Now?" seja ruim.

Show impecável? Quase, não fossem algumas escorregadas exatamente nesta escolha do repertório. Eu eliminaria "Black Cloud", "Ouija Board, Ouija Board", "Speedway" e "When Last I Spoke To Carol". Só que aí é minha opinião e Morrissey deve saber o que faz colocando-as em seu show. Talvez para se manter feliz – sentimento que ele demonstrou várias vezes durante a apresentação, fazendo juras de amor ao público belorizontino. Em determinado momento, chegou a se perguntar "Será que estou mesmo aqui?", como quem duvida da realidade. Talvez Morrissey prefira cantar algumas destas canções para manter seu bom humor – que atingiu o auge antes de "Speedway", quando ele perguntou ao público se eles queriam escolher a próxima canção, para na sequência emendar um "Mas vocês não podem!". E tome urros do público de BH, que manteve a longa tradição de jogar flores no palco durante as apresentações do cantor.

"O maior inglês vivo", "o poeta do rock", "o dândi predileto da música". Chamem-no do que quiserem. O importante nesta turnê brasileira é Morrissey proporcionar diversão ao público brasileiro e também se divertir. Neste sentido, mercadologicamente falando, a entrega do serviço é perfeita. (RJ)

Set list (BH, RJ e SP): "First Of The Gang To Die", "You Have Killed Me", "Black Cloud", "When Last I Spoke To Carol", "Alma Matters", "Still Ill", "Everyday Is Like Sunday", "Speedway", "You’re The One For Me, Fatty", "I Will See You In Far Off Places", "Meat Is Murder", "Ouija Board, Ouija Board", "I Know It’s Over", "Let Me Kiss You", "There Is A Light That Never Goes Out", "I’m Throwing My Arms Around Paris", "Please, Please, Please Let Me Get What I Want", "How Soon Is Now?". Bis: "One Day Goodbye Will Be Farewell".


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Comentarios (1)Add Comment
0
Showzaço
escrito por Daniel Boratto, 08 de março de 2012
Eu sou muito suspeito para opinar... Mas achei tudo perfeito, superando minhas melhores expectativas. Achei o set list muito equilibrado, com pelo menos uma música de cada disco desde os Smiths (ok, faltou uma do Strangeways), privilegiando o Hatful of hollow, You are the Quarry e o mais recente, Years of Refusal. Achei que a receptividade do público que encheu um espaço tão grande como o Chevrolet Hall deve ter alegrado muito o velho Moz.... "The Girl With The Thorn In His Side"? The boy, né?

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