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Aos 53 anos, popstar perde o medo de errar e volta caleidoscópica no novo álbum MDNA

Madonna no último SuperbowlTexto por César Munhoz

Foto: Reuters/Reprodução

Uma das coisas que mais me interessa ever é saber qual será a visão da Madonna sobre a senhorice. Não sei o porquê, fico esperando esse momento em que ela vai crescer e virar Joni Mitchell, uma coisa sofisticada e definitiva. Quem sabe eu esteja querendo colocar ela no seu devido lugar, o de uma senhora de 53 anos. O mundo todo (especialmente senhoras de 53 anos e músicos) passaram as últimas três décadas tentando colocar Madonna no seu devido lugar. Tentando fazer a guria calar a boca, parar de sair por aí fazendo música chiclete, dando de dedo no Vaticano, retrucando John Oates, beijando as mulé na boca e pegando no pau do negão. Em última instância, a gente pode alegar que ela comete o crime de ser mulher, ganhar muito dinheiro, fazer o que gosta e ser bonita. MDNA (Universal) marca um retorno claro a tudo isso.

Sorri amarelo para os últimos materiais. Esperei, mas não encontrei, aquela heterogeneidade que a gente deve esperar de um disco da Madonna. Porque – fala sério – o mundo dela é escandalosamente heterogêneo. E uma das graças de tudo isso era ver ela cuspindo isso na cara da gente all the way. Gosto do Confessions..., mas me custou entender que, a partir dali (ou mesmo antes disso, no Ray Of Light), ela estava abandonando o papel de caleidoscópio, a visão além do alcance. Sei lá, teve filha, casou, cansou. Mas agora que – como ela mesma disse em entrevistas recentes – os filhos que se virem pra arcar com seu status de rainha e com a missão de rebostear a sociedade, vamos rebostear: MDNA.

O que, a princípio, eu não saquei quando ouvi e odiei “Give Me All Your Luvin'” é que é papel dela colocar a senhora de 53 anos no seu devido lugar. A começar por tirar o “senhora” da jogada e botar banca como a entertainer molequinha que mexe com as estruturas da indústria. A indústria. Não falei indústria cultural, porque o alcance do lançamento de um disco da Madonna não se resume ao âmbito da indústria cultural. Madonna move o mundo porque move dinheiro. Ela pega o que está a fim de fazer no momento, vê como aquilo se conecta com o que rola por aí, cerca-se de gente boa (ou, pelo menos, influential, como a Minaj) e faz coisa que funciona e vende. MDNA vai vender horrores.

“GMAYL'” já cresceu dentro de mim. Me pegou no colo e me jogou direto na pré-venda do iTunes. Caí que nem pato. Assim como o single, o disco é assertivo. Preste atenção no primeiro acorde de cada música. Todas chegam chegando, anunciando um passo diferente na viagem que o disco é. Por vezes, uma viagem no tempo, como na bela “Falling Free”, que traz texturas de “Oh Father”, “Live To Tell”, “Drowned World” e “Dear Jessie”. Tudo ao mesmo tempo, numa mistura que funciona pra quem não tem as referências, mas que toca os fãs hardcore. MDNA tem drama e tem memória.

A maioria das faixas se sustenta depois do primeiro acorde. Tem um ponto pra provar. Pra ilustrar isso, eu quero falar de “Gang Bang”, que tem um trabalho de voz fantástico, muito próximo do que é a voz dela sem processamento. É uma Madonna mais livre pra causar, sem se preocupar com as chatices dos puristas (como eu), que ficam reclamando que ela não canta mais ao vivo.

Tem também a Madonna bitchy (“GB” e “I Don't Give A”), que eu não curto muito porque soa artificial. Mas dou um desconto, porque ser bad girl é pré-requisito pra popstars e quem disse isso primeiro foi ela. Nos momentos em que ela quis ser outra coisa, via-se que faltava um pedaço da alma.

Depois que ela te xingou de tudo que é coisa e disse que não precisa de você, vem a fofice de “Turn Up The Radio”, as canções de fé, o rise and shine. É Madonna recorrendo à meninice e à vontade de viver para criar mais um hino de estádio. E se você não está assim tão radiante pra aumentar o volume, dirija-se a “I'm A Sinner” e “Girl Gone Wild” e console-se com a sina de pecador.

A viagem não terminou. Cada vez que ouço, mais uma camada se revela. MDNA está longe de ser um disco chato ou pointless. Também não pode ser acusado de não ser verdadeiro (para ela) ou atual. Tem identidade. Tem o DNA dela, aquele que não compreende o medo de errar.

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