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Móveis Coloniais de Acaju
Escrito por Abonico Ter, 26 de Maio de 2009 00:55
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C_mpl_te vem para mostrar um outro lado da banda que sabe manter o brilho nos olhos e melhorar a cada show
Texto de Tiago Agostini
Fotos de Ariel Martini (show) e MCA (divlgação)
Eles tinham o melhor show do rock nacional, mas ainda faltava ao Móveis Coloniais de Acaju um trabalho de estúdio consistente o bastante para legitimá-los como grande banda. Não que Idem, lançado em 2005, seja um disco ruim – ele é apenas cansativo. A produção frouxa acaba jogando contra e acentua a similaridade entre as canções, que acabavam soando muito melhores e completas na dinâmica do show. Havia, porém, “Aluga-se Vende”, música diferente de todo o contexto do álbum. E foi justamente a partir dela que a banda começou construiu a idéia do novo disco.
C_mpl_te (Trama/Álbum Virtual) representa uma grande evolução na carreira dos brasilienses. Com o auxílio do produtor Carlos Eduardo Miranda eles conseguiram criar um conjunto de canções independentes entre si mas ainda assim com um fio condutor. Concentraram-se muito mais em melodias, harmonias e arranjos do que no ritmo e pariram um dos grandes (se não o melhor) discos do ano no rock nacional. Mas quem ouve o resultado não percebe que o processo inteiro não foi assim tão natural quanto parece. Eles passaram quase um ano dentro do estúdio, compondo, ensaiando e, principalmente, suando muito para conseguir ao resultado desejado e estabelecido em conjunto.
De alguma forma, parece que eles sempre tiveram certeza do bom resultado que estava por vir. Da primeira vez que os entrevistei, em outubro do ano passado, um dia antes de entrarem em estúdio para registrar o disco, não precisei fazer nenhuma pergunta para que eles falassem durante 40 minutos ininterruptos. Durante vários momentos, me olhavam e repetiam “desculpa a gente estar se atropelando, mas essa é a primeira vez que a gente fala sobre o disco novo e a gente está tão ansioso”. E na verdade não havia problema algum em eles falarem e falarem o quanto quisessem. Aquilo sim era a coisa mais natural do mundo. Dez pessoas (incluindo o produtor Fabrício Ofuji) totalmente afinadas sobre seus desejos. É piegas dizer, mas havia um brilho nos olhos de cada um que inspirava sinceridade e confiança enormes.
Menos é mais
Confesso que me surpreendi a primeira vez que ouvi C_mpl_te. Miranda já tinha me dito que aquele era um dos melhores discos que ele havia produzido, mas eu não esperava tanto. A complexidade do disco e a maneira como as canções cresciam aos poucos era surpreendente. O trabalho de guitarras minucioso, a bateria precisa, a voz tranqüila de André Gonzáles... Mas principalmente os metais que, com frases curtas, instigavam uma audição mais cuidadosa. O Móveis parecia ter compreendido que, às vezes, menos é mais – e como isso funcionava bem.
Quando eu estava fazendo meu TCC de Jornalismo, minha orientadora em algum momento me disse: “bem, já temos o começo e o fim do texto. Os outros 50 mil toques são fáceis”. Como sempre, ela não podia estar mais certa. A mesma premissa pode ser utilizada com C_mpl_te. Uma vez que se tem duas músicas perfeitas para abrir e fechar um disco – como “Adeus” e “Indiferença” – tudo fica mais fácil. A primeira é a coisa mais diferente que o Móveis já fez em toda sua história, com o dedilhado de guitarra e o clima etéreo. De alguma forma, começar com ela é como dar um chute na porta e já deixar avisado “olha, sabe aquele Móveis que todo mundo conhece? Então, preparem-se porque lá vem coisa nova”. E “Indiferença” tem um clima de festa constante que termina de um jeito relaxado, com um solo “herbertviannístico” de BC que deixa no ar um até logo.
O disco ainda guarda duas canções excelentes. “Descomplica” é lúdica, despretensiosa, ensolarada. E, bem, “O Tempo” é simplesmente a melhor música que a banda já fez e provavelmente a melhor lançada em 2009 – olha que outras bandas terão de ser muito geniais para derrotá-la. É daquele tipo de canção que bate imediatamente, com suas mudanças de ritmos e todo o trabalho dos sopros, servindo de cama para a interpretação inspirada de André em uma bela letra de amor. A caidinha só com a guitarra dedilhada após o segundo refrão é capaz de cortar corações, fácil, fácil.
A banda ainda escorrega um pouco em alguns momentos, em algumas letras mais preguiçosas (como “Café Com Leite”), mas o resultado final é muito acima da média da produção atual. E tudo isso sem ter perdido a excelência em cima de um palco. Já assisti a três shows da turnê de C_mpl_te e é impressionante como eles conseguem melhorar cada vez mais, estar cada vez mais em sintonia com a platéia, inovar nas interações. Agora fica a curiosidade de ver esse mesmo show daqui alguns meses, quando o público estiver tão familiarizado com o novo álbum quanto está com as músicas de Idem. Mais importante que isso é conversar com os integrantes após o show e perceber a empolgação de cada um. Com o mesmo brilho nos olhos de alguns meses atrás.
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