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Britânicos voltam a mostrar majestade na composição de mais um punhado de irresistíveis faixas

Hot Chip: um por todos, todos por umTexto por Cleber Facchi (originalmente publicado em Miojo Indie)

Foto: Domino/Divulgação

Por que gostamos tanto de Hot Chip? Esta parece ser uma pergunta até tola, afinal. Basta que o quinteto britânico apresente uma de suas diversas composição dançantes e sempre calcadas em cima de versos marcantes para que a resposta surja quase que imediatamente em nossas mentes. Entretanto, mais do que exímios “fabricantes” de canções pop-eletrônicas, a banda criada em Londres no começo dos anos 2000 consegue ir além dos limites que definem a atuação de boa parte dos artistas similares a eles. Longe de “apenas fazer dançar”, os britânicos parecem ter encontrado algo mais, um tempero especial em suas criações. Logo fica a pergunta: por que gostamos tanto de Hot Chip?

Talvez uma das principais respostas para esta pergunta – sim, são várias – esteja na capacidade da banda de agradar os mais distintos públicos. Sejam eles ouvintes exigentes, críticos, indivíduos de “gosto duvidoso” ou meros espectadores interessados apenas na dança, não importa o nível de “conhecimento musical”, há sempre um ou vários interessados no trabalho da banda inglesa. Alguém que prefira o lado descompromissado de The Warning (2006), a melancolia dançante de Made In The Dark (2008) ou até o lado “religioso” de One Life Stand (2010). Independentemente do caminho, ritmo, fórmula ou proposta, o Hot Chip parece capaz de agradar a todos.

Soa uma afirmação duvidosa ou exagerada? Talvez até seja, mas não são poucos os momentos onde a aclamação ao trabalho da banda inglesa se fez visível nos últimos anos. Basta vasculhar qualquer comentário na internet – principalmente os relacionados a festivais de música – para perceber a vontade do público em mais uma vez celebrar ao vivo as canções do grupo. Confira qualquer festa, “moderninha” ou não, para perceber que cedo ou tarde alguma das canções da banda acaba surgindo. Isso sem contar no constante estado de euforia que se mantém em diversos fóruns, sites ou blogs de música por qualquer novidade em relação ao trabalho do quinteto. Há algo nas canções do Hot Chip e independente do que seja, isso é assertivo, hipnótico e encantador.

Outra das possíveis respostas ao teor magistral que conduz os discos da banda está claramente relacionada ao fato de que o coletivo inglês não é formado apenas por um ou dois brilhantes colaboradores. Todos os que integram a composição, produção e direção de qualquer disco lançado pelo grupo parecem contribuir de forma igualitária – manifestação que se amplia visivelmente nas apresentações ao vivo da banda. Da guitarra aos teclados, da bateria aos efeitos de percussão, cada membro participa e se reveza na condução dos instrumentos. Nem os vocais de Alexis Taylor são entregues individualmente. Afinal, há sempre os complementos (mesmo que mínimos) dos demais componentes da banda – manifestação que se repete com a chegada do recente In Our Heads (2012, Domino).

Sexto registro oficial do grupo (que desde Coming On Strong, de 2004, tem lançado religiosamente um novo trabalho a cada dois anos ) o recente álbum traz mais uma surpreendente conta de faixas memoráveis e prontas para se transformar em poderosos hits. Um novo e substancial acumulado de canções que para além dos limites das pistas conseguem alcançar outros infinitos territórios e possibilidades para a carreira do quinteto. Tão econômico quanto o anterior registro, o novo álbum mantém no reduzido número de composições uma intensa proximidade entre as faixas, que usam do electropop como força para movimentar o trabalho e lentamente agregar toda uma nova carga de possibilidades, sons e influências.

A capacidade da banda em incorporar outros elementos, entretanto, passa longe de se alinhar qualquer conexão com o dubstep ou mesmo com influências projetadas na década de 1990 – referências quase essenciais em boa parte dos registros de música eletrônica que brotaram nos últimos meses. Assumindo uma postura invejável, o grupo mantém a mesma proximidade instrumental que tanto definiu (e ainda caracteriza) a obra do Hot Chip desde os primeiros discos. Percepção que talvez se modifique por conta de uma maior valorização dos sons percussivos (bem empregados em músicas como “How Do You Do”) ou do uso de faixas mais amplas e até introspectivas (como na enorme “Let Me Be Him”). Já os que haviam se preocupado com o aspecto deveras hermético e choroso do anterior One Life Stand, estes podem se sentir aliviados: com o novo álbum a banda retorna ao regime empolgante que tanto definiu os primeiros discos.

In Our Heads talvez seja o trabalho que melhor supra a ausência do LCD Soundsystem no cenário recente. Afinal, quem melhor para ocupar a lacuna deixada por James Murphy do que o quinteto inglês? Observado de forma atenta, o álbum não somente ocupa a posição abandonada pelo produtor, como parece se cercar por diversas referências lançadas por Murphy ao longo dos três registros montados por ele durante a rica década de atuação à frente do projeto nova-iorquino. Da exposição de faixas mais extensas e com um pé bem cravado na house music (“Let Me Be Him” e “Flutes”), passando pelos toques criativos de dance punk (“Night And Day”), tudo faz lembrar obras do LCD Soundsystem como Sound Of Silver e principalmente This Is Happening. Contudo, as aproximações jamais ocultam as características dos britânicos, que logo na primeira música já se tornam mais do que evidentes.

Uma vez iniciado a audição do registro, interromper com o fluxo do álbum precocemente parece simplesmente um erro. In Our Heads conta com uma pegada rara, um disco consumido por reviravoltas instrumentais constantes. É como se a cada nova canção a banda fosse mais uma vez capaz de prender o ouvinte, figura que dificilmente conseguirá passar o disco sem agitar as pernas, batucar em alguma superfície ou quem sabe ensaiar tímidos passos de dança. Mesmo que ainda pareça difícil encontrar um significado específico para gostarmos tanto do trabalho do Hot Chip, a resposta parece aos poucos tomar formas em nossa cabeça, como se a cada novo disco da banda entregasse mais uma colorida peça desse diversificado quebra-cabeça. Enquanto a imagem e a resposta não se completam na mente, cabe apenas dançar. E a trilha sonora perfeita para isso a banda acaba de lançar.

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