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Rolling Stones
Escrito por Abonico Dom, 13 de Junho de 2010 01:19
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Clássico álbum Exile On Main St. é relançado com dez “novas” faixas e imagens daquela conturbada época
Texto por Julliana Bauer
Fotos: Reprodução
Em 1971, os Rolling Stones deviam uma fortuna à Receita Federal da Inglaterra. Eles já era figuras célebres havia cerca de oito anos e descobriram que os impostos da banda não foram pagos durante todo esse tempo. A saída encontrada foi “à francesa”: embarcar em uma viagem para a Riviera, onde gravariam um disco para fazer em seguida uma turnê pelos Estados Unidos. Assim dava conseguir acertar as contas com a Rainha.
Foi aí que o exílio começou para Mick Jagger, Keith Richards, Mick Taylor, Bill Wyman e Charlie Watts, a então formação do grupo na época. Levaram esposas e filhos para a França, para produzir o disco que se tornaria o mais aclamado da carreira da banda. Mas o fato é que, de toda a extensa discografia dos Stones, dificilmente algum outro disco tenha sido composto e produzido de forma mais adversa do que Exile On Main St. As sessões se davam em um porão muito quente, em uma mansão chamada Villa Nellcote, alugada por Richards, e os músicos levaram muito mais tempo do que o previsto para a conclusão do álbum. Era o auge do vício em heroína do guitarrista que invariavelmente abandonava os ensaios alegando que ia colocar o filho Marlon na cama – e só era encontrado horas depois, com agulhas ainda enterradas no braço.
Mesmo assim, Exile On Main St. tem muito mais influência de Keith do que de Mick. É neste álbum que aparece pela primeira vez a música que se tornaria a assinatura do estilo de vida do guitarrista, “Happy”. Mick Taylor, que assumiu o posto de Brian Jones, morto dois anos antes, teve papel fundamental durante toda a estadia da banda em Nellcote. Embora o próprio músico tenha assumido anos mais tarde que nunca conseguira acompanhar o mesmo ritmo particular dos demais Stones, ele leva crédito por grande parte das levadas de blues das faixas do disco. A canção “Ventilator Blues” leva esse nome como uma “homenagem” a Taylor, que só conseguia ensaiar no porão da mansão se houvesse algum ventilador ligado por perto.
Lendas e cenas proibidas
Quase quarenta anos após o lançamento do álbum, a banda agora coloca no mercado uma versão reeditada de Exile On Main St. em CD duplo, com dez faixas inéditas. A novidade já atingiu o topo das listas de vendas na Inglaterra. Para acompanhar o CD ainda vem um DVD com trechos do “documentário proibido” dos Stones, Cocksucker Blue – a edição poderá ser adquirida pelos fãs brasileiros a partir do dia 30 de junho. Mas é claro que não se deve esperar que o que tornou tal documentário proibido, em ação judicial movida pelos próprios músicos, apareça nesse DVD. Dentre essas cenas, que já vazaram na internet ano passado, há o registro de Mick Jagger usando cocaína e olhando diretamente para a câmera. Keith Richards aparece totalmente fora de órbita, dopado pela heroína. Groupies e roadies dividem drogas em um clima tardio de Geração Amor.
Embora as principais razões para uma reedição de um álbum como esse sejam obviamente financeiras, em recente entrevista em um talk show americano, o apresentador perguntou a Keith por que não escolheram para relançar algum dos outros títulos considerados mais importantes para a banda, como Sticky Fingers ou Let it Bleed. A resposta foi direta: “Porque merece uma segunda rodada”. E o fato é que são tantas as lendas que envolvem o exílio dos Stones na Riviera francesa nessa época que seria besteira se optassem por qualquer outro disco para voltar à tona.
É difícil encontrar um fã dos Stones que não saiba contar ao menos uma história que envolva a produção do Exile On Main St. São tantos os boatos sobre adultério, intrigas entre membros da banda e lendas sobre a inspiração para a composição de músicas que o escritor Robert Greenfield chegou a escrever um livro que narra as histórias de bastidores da criação do álbum. Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones, lançado no Brasil em 2009 pela editora Zahar, destrincha o estilo de vida dos cinco roqueiros durante a estadia na mansão Nellcote. Greenfield conta, por exemplo, que Anita Pallenberg, esposa de Keith Richards na época, chegou a considerar abortar por achar que poderia estar grávida de Mick Jagger.
Julgamento do tempo
Além disso, trata-se de um trabalho que reúne influências de blues, country e rendeu uma série de clássicos para a banda, como “Tumbling Dice”, “Rocks Off” e “Sweet Virginia”. Entre as dez faixas inéditas, há uma nova versão de “Loving Cup”, ressuscitada no documentário Shine a Light, de Martin Scorsese, em 2008. (Mas a verdade é que pelo menos um terço das faixas desse álbum não foram compostas na França, e sim eram canções que já estavam finalizada e simplesmente não entraram em trabalhos anteriores. Foi o caso de “Shine a Light” e “Sweet Virginia”, por exemplo.)
Quando o disco foi finalmente lançado, em 1972, a crítica e os fãs não o receberam de forma muito fervorosa. Não chegou a ser classificado como um trabalho ruim, mas não também não causou tanto entusiasmo quanto alguns discos anteriores. Foi com o tempo, necessário ao amadurecimento tanto do disco quando do público, que ele passou a ser visto como um dos melhores trabalhos da carreira da banda – e a ter o status de um dos melhores discos de rock da história.
Agora, 38 anos depois, essas dez boas “novas” faixas, que estão em sintonia com o que representavam os Rolling Stones nos anos 70, são apresentadas aos fãs. Pena que seja tarde demais. Eles já se tornaram uma banda que move multidões mais por seu caráter histórico do que por seus trabalhos mais recentes. E parecem estar mesmo cientes dessa condição. Afinal, a reedição do seu disco mais nostálgico é apenas mais uma prova disso.
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