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Radio Dept – ao vivo
Escrito por Abonico Sáb, 14 de Julho de 2012 19:50
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Fugindo da facilidade de rechear o set com hits, suecos trazem a SP uma ode aos climas e melodias
Texto de Luis Coutinho e foto de Matheus Gomide (originalmente publicados em Aos Cubos)
Mais uma iniciativa louvável da Playbook que resultou em mais um ótimo show financiado pelo público. Quem conhece um pouco do Radio Dept, banda sueca de dream pop cujos três discos são aclamados pela crítica, sabia o quão improvável era um show deles por aqui: a banda é reclusa, avessa a entrevistas, videoclipes, turnês, festivais, e tem conflitos conhecidos com a gravadora que lança os seus discos, a Labrador Records – que no encarte da coletânea de singles Passive – Aggressive os classifica como “a banda mais difícil com a qual eles já lidaram”. No show que no Beco 203 no último dia 6 de julho, a banda não abriu concessões e trouxe a São Paulo um set list inusitado que fugiu dos singles, mas que foi salvo pela qualidade equilibrada de todo o material da banda.
Donos de uma discografia com apenas três discos mas uma imensa quantidade de EPs lançados regularmente, o Radio Dept escolheu para a turnê sul-americana um set que só um fã muito hardcore da banda reconheceria por completo. Foram cinco músicas do primeiro álbum, Lesser Matters; apenas o quase clássico “The Worst Taste In Music” do segundo Pet Grief; quatro faixas do excelente e mais recente Clinging To A Scheme, dois singles que não saíram em nenhum álbum e três b-sides. Das três músicas presentes na trilha de Maria Antonieta, filme de Sofia Coppola e responsável por boa parte do sucesso da banda, o set deixou de fora justamente a mais conhecida, a incrível “Pulling Our Weight”, um dos únicos hits da banda, se podemos dizer assim.
Ao vivo, a banda estava desfalcada do tecladista Daniel Tjäder. Coube ao vocalista e guitarrista Johan Duncanson e ao guitarrista grandalhão Martin Larsson dividir o palco com um dos membros da equipe técnica que disparava em um Mac as bases pré-gravadas de bateria, sintetizadores e piano. Nem por isso o som parecia desfalcado, e o dream pop com bastante inspiração nas várias camadas de som do shoegaze inundou o Beco (pelo menos perto do palco), criando a atmosfera etérea e nostálgica que o Radio Dept consegue criar tão bem em estúdio. E dá-lhe cachoeiras intermináveis de gelo seco pra ajudar no clima intimista do show – apesar de que o som ensolarado da banda talvez combinaria mais com um set acústico de dia ao céu aberto ou simplesmente com um ambiente mais intimista de fato.
Na sequência “Bus” e “1995″, apenas Johan e Martin ficaram no palco e o “duelo” das guitarras foi um dos momentos em que ficou claro que a prioridade da banda era garimpar a melodia mais agradável e marcante possível, fosse das guitarras ou do vocal. Não é exagero dizer que o som do Radio Dept. parece com um sonho do qual você não quer acordar ou a memória de algum momento para o qual você quer retornar. São muitas referências musicais em jogo, e todas elas parecem ter o objetivo de criar uma sensação de “conforto” musical, e os vocais delicados do tímido Johan são fundamentais nessa mistura.
Já quase no final do show, quando a banda emendou os três singles do último álbum “David”, “Heaven’s On Fire”, “Never Follow Suit”, músicas bem dançantes que flertam com a urban music, o público, comovido, pôde ter uma ideia de como seria o show se a banda tivesse optado por um set mais fácil. Com certeza teríamos uma apresentação mais animada e menos gente teria se frustrado com o show, mas não dá pra contestar a opção deles. Me veio imediatamente o verso de “You Wanted A Hit”, do LCD Soundsystem, que diz “você queria um hit, mas talvez a gente não faz hits”. Pareceu o caso aqui: assim como a música do Radio Dept parece mais preocupada em evocar um sentimento do que soar como um hit, o show pareceu mais preocupado em criar uma atmosfera do que ter a estrutura de um show típico, o que foi bem arriscado dado o clima de “balada” de uma casa como o Beco. Se funcionou ou não, só saberemos quando tiver corrido tempo suficiente para esta noite se tornar uma boa memória.
Última nota:assim que “Lost and Found”, única música do bis, terminou de ser tocada, Johan foi surpreendido por dezenas de encartes e capas de CDs e vinis surgindo do público em sua direção. Tímido, como no resto do show em que se limitou a dizer “thank you very very much” religiosamente depois de cada música, ele acrescentou um “really” no final da frase, agachou-se humildemente e começou a autografar tudo que estava ali. Em pouco tempo Martin voltou ao palco e a oferta de coisas para serem autografadas aumentou: até algumas notas de 2 reais entraram no jogo. Melodia e modéstia são duas boas palavras pra definir o Radio Dept.Palavras que faltaram na banda de abertura, a porto-alegrense Lautmusik, que, assim como 90% das bandas nacionais, acham que uma overdose de pose e muito barulho compensam a falta de músicas que conseguem se conectar com o público. Seja ao vivo, seja em estúdio.- 17/07/2012 23:54 - A Place To Bury Strangers – ao vivo
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