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Ex-integrantes de Bonde do Rolê e CSS se juntam para afastar a tristeza e transformá-la em boa música

Adriano e Marina: mistérios e tristezasTexto por Abonico R. Smith

Foto: Miro/Divulgação

Começar de novo é sempre doloroso. Seja na vida, no amor, na profissão ou em qualquer outra ocasião, o fato de reconstruir os planos do zero é uma situação muito delicada. Dúvidas, incertezas, inseguranças se criam a todo instante e a cabeça parece virar um grande galpão abarrotado por pontos de interrogação. E angustias. Pelos sofrimentos vividos anteriormente à transição. Pelo caminho novo a ser percorrido em direção ao futuro.

Marina Vello e Adriano Cintra passaram recentemente por isso. Ela, curitibana, veio de uma saída conturbada do grupo que a projetou internacionalmente, o Bonde do Rolê. Ele, paulistano de carreira reconhecida no circuito alternativo da cidade (I Love Miami, Ultrasom, Thee Butchers Orchestra), veio de uma saída conturbada do grupo que o projetou internacionalmente, o Cansei de Ser Sexy. Em novembro de 2011, quando Marina – casada com um estrangeiro e hoje residente em Londres – veio passar uns dias no Brasil, deu um pulinho ao estúdio de Adriano para colocar os papos em dia com o amigo, que duas semanas antes surpreendeu muita gente ao largar a banda logo após o lançamento do novo álbum e despejar toda a sua fúria verborrágica contra as ex-colegas de CSS. O que seria apenas motivo para um café acabou se estendendo em cinco dias consecutivos. Como resultado, a criação de seis músicas inéditas. Teria se estabelecido ali uma parceria perfeita em tão pouco tempo?

“Eu andava muito deprimida em Londres, numa frustração total. O Bonde do Rolê começou apenas com mera diversão. Eu me juntei a eles quando eu não acreditava mais em fazer música e estava bem empolgada com minha vida acadêmica. Queria era fazer carreira nas Letras. Só que tudo deu certo por uma cagada e eu aproveitei a onda. Não voltei sequer para trancar o curso na universidade. E fazia três anos que eu saí da Bonde. Já estava trabalhando em meu disco solo mas sem qualquer grana para poder lançar o álbum”, relembra Marina sobre aquela semana determinante do final do ano passado.

A empolgação dela com aquele encontro tão seminal foi imediata. “Só me diga quando que eu paro tudo para fazer um disco com você”, disse diretamente ao multiinstrumentista. E depois de passar as festas de fim de ano com o marido, ela aterrissou novamente no Brasil em janeiro, onde ficou por mais três meses. Neste período, compuseram mais músicas, selecionaram onze para entrar no primeiro disco da dupla e ainda acharam tempo para participar do elenco musical do primeiro cruzeiro indie-hipster nacional, promovido por uma conhecida grife de óculos.

“Foi um encontro absurdo mas a gente precisava muito disso. Primeiro porque eu me dei muito bem com o Adriano. A gente gosta de música essencialmente e temos um lado bem punk também, viemos do underground. Sem falar no fato dele ser um ótimo músico e ainda estudou em conservatório. Qualquer instrumento que se dê na mão dele já sai tocando. E também porque pela primeira vez eu senti que estava fazendo exatamente tudo aquilo que eu sempre quis da vida”. Sobre as letras, Marina diz que não haveria outro jeito de extravasar os momentos turbulentos que os dois andavam passando. “Elas são muito miseráveis. Falam sobre perda, fim, o vazio que fica depois, o fato de não conseguir ver o que fazer da vida”.

FENÔMENOS PARANORMAIS

Definido o perfil musical da dupla, Adriano e Marina foram atrás da estética visual. E então surgiu no caminho deles Thomas Glendennig Hamilton, cirurgião canadense do início do século que perdeu um filho com a idade de três anos e, depois disso, tentou, de todas maneiras, provar a existência de fênomenos paranormais. Desde então, até a sua mprte por ataque cardíaco em 1937, ele também não se furtava a manipular fotografias que “retratavam” ectoplasmas, comunicações com espíritos e outras coisas bizarras para quem está mais acostumado com a matéria.

 

“Fomos ao Google procurar literalmente por ‘gente morta’ e acabamos nos deparando com essas fotos incríveis, toscas e macabras de T.G. Hamilton. Vimos que elas tinham tudo a ver com esse clima soturno das músicas”, lembra a vocalista. A escolha da estética para a sessão do projeto gráfico do disco de estreia, feita com Azemiro de Sousa, um dos maiores nomes do circuito de moda e publicidade do país, não poderia ter sido mais dolorosa, porém. “O Miro é muito minucioso. Comprou a nossa idéia e fez um trabalho muito apurado. Fez a gente ficar posando por até horas, fazendo pequenos movimentos, para tirar uma única foto”, completa o parceiro. No fim, todo o esforço para os cliques valeu a pena. Fotos em que cadeiras somem mesmo com os músicos sentados e panos que voam sob os olhos de ambos – sempre com Adriano e Marina caracterizados com roupas e looks de quase cem anos atrás – tornaram ainda mais enigmática a chegada do Madrid.

No estúdio, Marina ficou com os violões e algumas guitarras e Adriano foi responsável por quase todos os instrumentos, inclusive saxofone e trumpete – até então ele nunca havia mostrado profissionalmente que também pode tocar e gravar os sopros. Ao vivo, a banda conta com dois instrumentistas de apoio, que seguram a bateria e uma segunda guitarra enquanto Cintra se concentra apenas nos teclados. As referências musicais são muito mais variadas do que ambos apresentavam em suas bandas anteriores. A dupla – que trocou o eletrônico e o barulho pela sonoridade orgânica e intimista – passeia do folk ao naïve a la Amelie Poulain, da valsa – aproveitou alguns shows no Brasil (como em São Paulo e na estreia do minifestival periódico curitibano Zebra Stage) para lançar o álbum de estreia, que também inaugura o novo selo Coletiva Produtora, ligado à produtora de áudio da qual Adriano é sócio.

Inicialmente, haverá edição apenas digital (já disponível no iTunes) e um número limitado de vinis fabricados na República Tcheca. “Não acredito mais no CD como mídia. Você olha por aí e vê todo mundo já adaptado à praticidade do armazenamento de MP3. Eu mesma raramente entro em uma loja para comprar um disco”, diz Marina. “O vinil tem todo aquele charme de ter um suporte maior para a arte, um som melhor para ser escutado, a obrigação de fazer você levantar da cadeira para levantar a agulha e mudar o lado”, completa Cintra.

Marina e Adriano – cuja junção de sílabas e apelidos acabou dando nome à dupla (mais a adição da letra D no final, para ficar igual ao nome original da cidade espanhola) já planejam uma pequena turnê pela Europa entre agosto e setembro. “Mas nada muito grandioso, não”, avisa ele. “Vamos só tocar em lugares pequenos, com capacidade para até oitenta pessoas, no máximo”. Depois deverão surgir mais datas por outras grandes cidades brasileiras – como Recife, por exemplo, onde o show poderá casar com a grande do conceituado festival Coquetel Molotov. “O que passou agora é passado”, finaliza Cintra. “Claro que nós fizemos parte de bandas como o Cansei e o Bonde, não dá para negar isso. Mas agora somos nós e as nossas coisas. É o Madrid e isto aqui é só o ponto de partida.”

 

>> Assista aos clipes "live session" das músicas "Siblings" e "Let Go Of Me"


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