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David Bowie

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Criado há 40 anos, o alienígena Ziggy Stardust é a versão do artista para O Príncipe, de Maquiavel

Ziggy played guitar ...Texto por César Munhoz

Fotos: Reprodução

The Rise And Fall Of Ziggy Stardust (1972) é o que se chama de um disco conceitual, criado para contar uma história. Ou então criado em cima de uma história que já existe. Ou então criado livremente em cima de uma história, sem muita pretensão de contar uma história mesmo. Essa última visão dá mais liberdade ao artista de não ter que se prender a uma história (?!). Enfim...

Ziggy foi uma pira que o Bowie teve de contar – livremente – a história do alien rockstar que traz uma mensagem de paz quando a Terra está para acabar. Era pra virar teatro, filme* e acabou sendo só o disco mesmo. Acho digno, uma vez que as pessoas esperam que discos conceituais virem algo mais do que já são, como se isso fosse necessário para justificar a existência do disco. Algo que realize a ideia do disco, assim o público não precisa interpretar, pensar. Ao ficar “só” no disco, Ziggy passou longe do risco de virar piada e ter sua miríade de possibilidades de significação reduzida a uma só. Tommy, por exemplo, não teve a mesma sorte.

O recurso do disco conceitual costuma ser uma válvula de escape para quando um artista se sente bloqueado, quando o mundo real não oferece mais tanta inspiração. Ou então quando o cara quer ir mais longe do que o público acha que aguenta. Aí ele cria um universo à parte, para então poder falar do óbvio ululante. Bowie quis falar de morte, individualismo, estrelato, consumo e business de um jeito visceral demais e preferiu se travestir de alien – “quando esse personagem se tornar perigoso demais pra mim, eu mato”.

Não vou entrar nos detalhes da ficção de Ziggy, com o intuito de evitar que você tenha que ler mais um textinho qualquer sobre como ele revolucionou a música, a moda, etc. As pessoas têm medo de mergulhar fundo em obras importantes e ficam nessa superfície, no attitude gloss que vira estampa de camiseta. Che. Ziggy é importante demais pra merecer essa onda de homenagens ralas porque disseca o caminho para o poder com rigor analítico impressionante. Como todo bom Bowie, é irrevente beirando o cinismo. Não confie nele, porque ele só vai te dar instruções contraditórias. Tem essa panca de estadista do bem, mas não se esqueça que ele tem um olho de cada cor.

Ziggy played guitar. Todo mundo quer pegar na guitarra do Ziggy. Tocar guitarra e cantar em público é uma experiência redentora, dá poder. Ou, como já disse George Michael, “faz com que as pessoas pensem que você tem um pau enorme”. Imagina Hitler tocando guitarra. Bowie imaginou e foi questionado quando apresentou esse “alterego” de popstar egocêntrico em um palco com bandeiras de raios vermelhos. Sigam-me os fascistas, popstars ou fãs, satanistas, céticos, religiosos. Não eu, porque eu não sou fascista, só o vizinho que é.

Louve minha guitarra e meu pau gigante, dependa de mim. Confie a solução dos seus problemas ao popstar da época. Ele te espera no céu e vai te mostrar o caminho. “Starman” cria um cenário pueril, parte da vontade caipira que a gente tem de se conectar um com o outro e ensina uma fórmula que cria dependência. Let the children lose, let the children use it”, let the children blue again. “Star”. satiriza os dilemas éticos do ápice, o momento que separa os meninos dos homens no showbiz, quando uma estrela pode optar por desenvolver uma personalidade aprofundada ou ser só mais um bunda-mole pronto para a câmera. No final da história, Ziggy é despedaçado no palco por seres intergaláticos, um bando de conselheiros traíras chamados infinites. Tipo os membros de uma banda que se voltam contra o líder que um dia os deu projeção, só porque ele come todas as fãs. Tipo os membros do partido descontentes com o líder que ajudaram a eleger. Tipo você, que um dia já sentiu inveja e sabotou alguém.

Não tem nada de ficcional em Ziggy Stardust. É uma forma inteligente demais de contar as mentiras, as dele e as nossas. Ao mostrar um personagem gigantesco, inflado e ultracolorido, Bowie acaba falando sobre a humildade que não queremos ter. Portanto, enquanto ouve esse disco, que acaba de completar 40 anos em julho, lembre-se daqueles que você humilhou, pisou, deixou pra trás. Lembre-se daqueles que foram mártires. Lembre-se dos que não fizeram sucesso. Lembre-se deles com amor.

* Tem filme, mas é um registro do último show da turnê, dirigido por D. A. Pennebaker. Deve ser assistido no escuro, no volume máximo.


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