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Metallica – ao vivo
Escrito por Abonico Sáb, 30 de Janeiro de 2010 23:50
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Maratona em Porto Alegre inclui hits, surpresas, emoções, banho de lama e zumbis de camisetas pretas
Texto por Luis Guilherme Rodrigues
Fotos: Divulgação
Nada melhor do que uma noite mal dormida pra começar uma maratona "metallica" de 24 horas... Nesse ritmo, sigo para o Aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba. Num curto espaço de tempo, consigo perder e reencontrar minha passagem de avião. Minha longa jornada rumo a Porto Alegre assim começou. Fortes emoções desde cedo.
Surreal. Uma invasão de camisetas pretas tomou conta do Aeroporto Salgado Filho. Barbudos, cabeludos, tatuados, e algumas belas moças também. Nunca vi tantos metaleiros reunidos em um lugar tão insólito. Parece que a transferência de última hora para o Parque Condor, em frente ao aeroporto, incentivou o pessoal a tomar as vias aéreas.
Mas essa mudança de local não foi uma idéia tão boa assim. Quem atravessava a avenida em frente ao Salgado Filho em direção ao local do show encontrou uma enorme valeta separando duas vias – e eu só consegui encontrar uma mísera pontezinha pra atravessar. Muitos arriscaram pular; outros tomaram um belo de um banho sujo. A chuva que tomou conta da tarde de Porto Alegre só piorou a situação. O pequeno portão que dava acesso ao local teve de ser aberto mais cedo e a fila se tornou gigantesca. O Parque Condor era uma tradução fiel de Woodstock: muita lama, tênis se tornando imprestáveis e um cheiro de bosta de vaca por todo o lado. Mas nada disso impediu os true metal lovers de ouvirem a fúria sonora do Metallica.
Antes, a abertura com a banda local Hibria. Não conhecia nada dos caras, mas gostei muito do que vi e ouvi. Executando um power metal melódico com boas influências de Iron Maiden e do próprio Metallica, o som dos gaúchos promete avançar os pampas e conquistar mais fãs pelo Brasil.
Com 15 minutos de atraso, Clint Eastwood invadiu os três telões do palco, ao som de “The Ecstasy Of Gold” e a clássica cena do duelo final em The Good, The Bad And The Ugly. Era a deixa para os milhares de presentes entrarem em êxtase e explodirem quando o Metallica mandasse bala nos primeiros acordes de “Creeping Death”, do clássico Ride The Lightning. Do mesmo álbum, a abertura do show incluiu também “For Whom The Bell Tolls” e a faixa-título, raridade em shows do grupo.
A melhor faixa da fase Load/Reload veio logo em seguida. “The Memory Remains” ganhou um peso ainda maior com a platéia fazendo o backing vocal outrora destinado à Marianne Faithfull. Arrepio nos pêlos da barba, só superado pela música seguinte, a balada “Fade To Black”.
Os três telões, um em cada lado do palco e outro ao fundo, foram um show à parte. A edição das imagens, que mostravam a insanidade e a habilidade dos quatro músicos, renderia facilmente um DVD. Graças às imagens das câmeras, o público que estava mais longe do palco pode perceber que esta nova fase do Metallica é sem dúvida uma das melhores da história do grupo. James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e o novato Robert Trujillo mostraram uma sintonia sem igual, cada um deles com uma energia exclusiva. Um clima de amizade que nem de longe lembrava o documentário Some Kind Of Monster, que mostra os bastidores tumultuados da gravação do álbum St. Anger, em meio a brigas, substituição de baixista e problemas com alcoolismo.
Álbum este, aliás, completamente ignorado no set list do show, que após “Fade To Black” apresentou uma seqüência de músicas do trabalho mais recente, Death Magnetic. “That Was Just Your Life”, “The End Of The Line” e “The Day That Never Comes” foram muito bem recebidas, mais uma vez comprovando a boa fase atual. Pausa para a "pausa mais heavy metal do mundo" de “Sad But True” e mais uma faixa de Death Magnetic, a favorita do público “Cyanide”.
Tiros em áudio, fogos e explosões ao vivo; James Hetfield entoava em seu violão os acordes iniciais de “One”, derramando uma lágrima em um ou outro barbudo. Os solos destruidores no final da canção foram apenas o começo para a fúria espiritual tomar conta do lugar com duas faixas da obra-prima Master of Puppets: a faixa-título e a fuzilante “Battery”.
Ápice com fervor
Mais uma balada para acalmar os nervos da platéia, desta vez “Nothing Else Matters”. Ao final, uma singela cena: James segurou uma nota com a guitarra praticamente no chão. A câmera focava sua mão e, depois de um dedo médio e da combinação diabólica dos dedos indicador e mínimo, o guitarrista mostrava uma palheta que reproduz fielmente a capa de Death Magnetic, inclusive com o caixão vazado. Emendando na nota, surgiu o hino oficial do Metallica, “Enter Sandman”. Os puristas conservadores xiitas podem não concordar com isso, mas é a canção que abriu à banda as portas da conquista do mundo. Por isso, foi cantada com fervor pela maioria dos presentes.
intervalo pré-bis habitual e em seguida Kirk Hammett começou um solo entoando “The Frayed Ends Of Sanity, música do disco ... And Justice For All que nunca foi tocada completa ao vivo. Vale a pena lembrar, aliás, que o Metallica não costuma repetir sets de um show para o outro. Logo, foi com surpresa e alegria que o público recebeu a execução de “Die, Die, My Darling”, clássico dos Misfits. E mais surpresa ainda estava por vir, com a lembrança de “Phantom Lord”, do poderoso disco de estréia Kill 'Em All. E do mesmo álbum veio “Seek And Destroy”, a música que encerraria o show com o devido louvor metálico e arregaçando a garganta dos fãs.
Um show memorável, surpreendente e muito bem conduzido. Valeu toda a grana gasta e o esforço despendido, que não estava longe de acabar. Como um bando de zumbis, o público foi saindo pelo mesmo pequeno portão. Até atravessar a avenida e chegar ao aeroporto levou quase mais uma hora. A valeta citada no começo do texto foi novamente cenário de algumas cenas enlameadas. Pelo que fiquei sabendo, a produtora local do show tem a fama de trazer excelentes artistas com uma péssima organização e desta vez não fora diferente.
Para quem tinha vindo de avião até Porto Alegre, veio a difícil tarefa de repousar nos bancos e no chão frio do Salgado Filho, o que gerou mais uma visão inusitada. Com os tênis recheados de lama, continuei um zumbi por um bom tempo, sem dormir e esperando por um vôo que ainda atrasaria mais duas horas. Cheguei em casa depois de mais de 24 horas acordado e com heavy metal tocando na cabeça. Depois comecei a escrever este texto...
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