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Stooges
Escrito por Abonico Ter, 13 de Janeiro de 2009 20:38
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Como o guitarrista Ron Asheton cravou as bases do punk unindo blues, técnica e crueza extrema

Texto de Cristiano Viteck
Fotos de divulgação
O punk ficou orfão de mais um de seus pais logo no iniciozinho de janeiro. Ron Asheton, guitarrista original da seminal banda Stooges, foi encontro morto, no dia 6, em sua casa, em Ann Arbor. Ele tinha 60 anos e, a princípio, a morte fora causada por um ataque cardíaco fulminante. Ele é o segundo membro original dos Stooges morto. O primeiro foi Dave Alexander, em 1975, vítima de complicações associadas ao álcool.
Nascido em 17 de julho de 1947, em Washington, capital norte-americana, Ron Asheton fou um exemplar típico da juventude transviada nascida no pós-Segunda Guerra Mundial, a qual ficou conhecida como os baby-boomers. Eles viraram os Estados Unidos de ponta-cabeça durante a década de 1960, tendo como mola propulsora a contracultura e o tripé sexo, drogas e rock n' roll.
Quando adolescente, Ron era o clássico encrenqueiro das escolas para a classe média-baixa. Matava as aulas, tinha o cabelo crescido até a altura das orelhas (o que era considerado uma cabeleira e tanto em 1960), não fugia de uma briga e, pior de tudo, era aficionado por símbolos nazistas - embora talvez mal soubesse explicar o que era o nacional-socialismo e, muito menos, fosse adepto do pensamento de Hitler.
Já em Ann Arbor, pequena cidade próxima a Detroit, no estado de Michigan, Ron Asheton ajudou a formar, em 1967, os Stooges: ele na guitarra, o irmão Scott na bateria, Dave no baixo e, Iggy Pop, o membro até hoje mais famoso da trupe, nos vocais. Juntos, gravaram algumas das maiores canções punk da história ("No Fun", "Dirt", "1969", "Down on The Street" e a definitiva "I Wanna Be Your Dog") quando o gênero nem mesmo existia. Não é à toa, portanto, que são considerados os primeiros punks genuínos, vivendo com o botão do "foda-se" ligado 24 horas por dia uma década antes de Ramones, em Nova York, ou Sex Pistols, em Londres, darem o pé na porta que espalhou o movimento por todo o mundo na segunda metade dos anos 1970. Estas duas bandas, e muitas outras, obviamente prestaram seus tributos ao grupo de Ron Scott (ok, o mais comum seria dizer "ao grupo de Iggy Pop", mas a partir de agora vamos também chamar os Stooges de "o grupo de Ron").

Maestria na guitarra
Diferente de Iggy - que no palco chamava toda a atenção para si na época de ouro dos Stooges, pulando em todos os cantos, cortando-se em vidros, ameaçando a platéia ou simplesmente vomitando e desmaiando por usar tantas drogas - Ron Asheton deixava a sua guitarra falar por si. Fortemente influenciado pelo blues, o músico extraía riffs primitivos de seu instrumento. Diferentemente de seus seguidores punks, também conseguia solar com um pouco mais de maestria, embora fosse se difícil se perder nos exibicionismos típicos do rock progressivo que tanto irritaram a muitos no início dos anos 1970 (e que, é certo, encantaram a tantos outros também). Fora isso, Ron era o stooge mais discreto de todos. Era o que menos se metia em encrencas (embora isso não signifique que ele não estevisse envolvido em várias) e talvez tenha sido o que menos consumiu drogas no grupo (o que, mesmo sendo pouco para o padrão stooge, para o cidadão comum significa muito). Enfim, cumpria o papel de irmão mais velho, tentando manter um pouco de lucidez no mundo que girava em volta da banda.
Com a formação original, os Stooges gravaram apenas dois discos: o epônimo, de 1969, e Fun House, de 1970. Fracassos comerciais absolutos na época, juntamente com o enorme problema que era colocar os quatro em turnê, tamanha era a confusão que eram os seus shows, a banda praticamente se desfez após o lançamento do segundo álbum. O empresário do grupo na época, Danny Fields, em entrevista registrada no livro Mate-me Por Favor: Uma História Sem Censura do Punk (de Legs McNeil e Gillian McCain, recentemente reeditado em edição de bolso pela LP&M e bem fácil de se encontrar por aí), traduziu como era trabalhar com eles. "No que dizia respeito à minha relação com os Stooges, estava tudo se despedaçando. (...) Havia rumores de que eles estavam assaltando postos de gasolina nos fins de semana para pagar o aluguel da casa. (...) Ficou impossível, eu não conseguia segurar. Eles estavam doidões. Provavelmente eu estava doidão também e disse: ‘não agüento mais‘. Era demais pra mim. Eu precisava de um emprego de verdade".
Para a sorte do grupo, David Bowie, que no início dos anos 1970 estava se tornando uma grande estrela do rock, cruzou o caminho do grupo. Na verdade, de Iggy Pop. Fã do cantor norte-americano, o inglês conseguiu um contrato para ele na mesma gravadora que a sua para fazer um disco na Inglaterra. Para ajudar na nova empreitada, Iggy chamou o guitarrista e seu novo parceiro junkie James Williamson. Na Europa, por não encontrar ninguém a altura ou que quisesse se comprometer com ele, acabou convidando os irmãos Asheton para participarem das gravações. Assim, acabou saindo, em 1973, o terceiro álbum dos Stooges, Raw Power, agora com Ron no baixo, James na guitarra e produção do próprio Bowie.
Entretanto, nem a nova formação, nem o apoio de David Bowie e muito menos o novo disco conseguiram salvar os Stooges, que decidiram encerrar a carreira em 1974. Depois do fim do grupo, mais uma vez com a ajuda de David Bowie, Iggy Pop iniciou sua carreira solo em 1977 com o disco The Idiot. Aos trancos e barrancos e com alguns discos abaixo da crítica e outros clássicos, conseguiu chegar aos anos 2000 como um grande rockstar, citado como influência por milhares de bandas mundo a fora. Fama que contribuiu muito para o sucesso do retorno dos Stooges em 2003, quando a banda se reuniu novamente, após 29 anos de separação. As turnês de sucesso que se seguiram acabaram encorajando a banda, agora com Ron de volta à guitarra e o ex-Minutemen Mike Watt no baixo, a gravarem o quarto álbum de estúdio, The Weirdness, em 2007.
Breve ressurreição
Nos 29 anos em que os Stooges estiveram separados, período que levou Iggy Pop ao estrelato, Ron Asheton viveu com a mesma discrição que tinha nos palcos. Com o fim do grupo, tocou em diversos projetos como o New Order (não aquele New Order que surgiu das cinzas do Joy DiIvision na Inglaterra), New Race e Destroy All Monster, todos grandes desconhecidos do público diante da pouca repercussão que tiveram. No final dos anos 1990, participou da gravação da trilha sonora do filme Velvet Goldmine, ao lado de Mike Watt, Mark Arm (Mudhoney), Thurston Moore e Steve Shelley (Sonic Youth). Em 2002, juntamente com J Mascis (Dinosaur Jr), Ron e seu irmão Scott excursionaram pelos Estados Unidos e Europa, com shows recheados de canções dos dois primeiros discos dos Stooges. Daí até a reunião com Iggy Pop e o grandioso retorno da banda foi apenas questão de tempo.
Se a reunião do grupo foi breve, pelo menos aconteceu e ajudou a resgatar da obscuridade do rock um dos grupos mais importantes da cultura pop. E junto com o grupo, revelou para as novas gerações Ron Asheton, um dos músicos mais importantes das últimas décadas. Para ser mais preciso, o 29º maior guitarrista de todos os tempos, conforme eleição da renomada revista norte-americana Rolling Stone.
Agora, com a morte inesperada de Ron, é bem provável que os Stooges encerrem definitivamente a carreira, já que são dois membros originais que não estão mais por aqui. É como cantava Iggy Pop no primeiro disco do grupo: "No fun my babe no fun/ No fun to be around/ Walking by myself/ No fun to be alone".
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