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Little Joy

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Projeto de “férias” de Amarante e Moretti vira mania no Brasil entre os fãs de Los Hermanos e Strokes

Little Joy em Los AngelesTextos de Tiago Agostini (show) e Abonico R. Smith (disco)

Fotos de divulgação

A tradução literal do nome da banda Little Joy seria “pequeno prazer”, mas é preferível ficar com a versão meio sacana entreouvida ao final do show do trio (sexteto ao vivo) mezzo americano mezzo brasileira: “joinha”. Por que, enfim, o que Rodrigo Amarante, Fabrizio Moretti e Binki Shapiro apresentaram na Clash, em São Paulo, não pode ser classificado muito mais do que isso.

Resumidamente, ao vivo a banda repete a sensação que se tem ao ouvir o primeiro e único disco gravado por eles: um som bonitinho, aconchegante, agradável, que não incomoda e você pode ficar ouvindo por horas enquanto está conversando com seus amigos na sala de estar. Nas palavras de Rob Fleming (protagonista do romance Alta Fidelidade, escrito por Nick Hornby), algo que você possa ignorar. Não vai mudar sua vida, mas não custa nada ouvir.

Fato: Rodrigo Amarante e Fabrizio Moretti estavam extremamente animados com seu segundo show em terras paulistas e o terceiro da meteórica turnê brasileira,. A recepção que a banda teve, além dos ingressos esgotados para três noites de shows em menos de duas horas, davam uma segurança enorme para a dupla apresentar suas canções. Na real, mais do que tudo a legião de fãs de Los Hermanos que estava presente ao show e entoava cada letra como se fosse uma profecia de Nostradamus era a maior força para essa segurança.

Por que, vamos combinar, o Little Joy só é o que é porque é a banda de um Los Hermanos e um Strokes. Existem, no mínimo, 15 bandas melhores, mais inventivas e inovadoras do que eles no Brasil. Mas a equação música que não ofende + músicos bonitos e "famosos" conseguiu atrair e enganar muita gente. Prova? Em algum momento do show você consegue ver um monte de barbudos e as menininhas paga pau entoando a letra de “Brand New Start” como se fosse a nova “Something”. E, bem, nada contra o Little Joy, mas você já ouviu tudo que eles tocam de uma forma mais original e melhor. A verdade é que se esse disco e shows tivessem sido lançados em 1964 talvez seriam algo relevante. Mas, pô, estamos em 2009, afinal.

Foi um show curto e suficiente, contando com uma animação com jeito exacerbado de Fabrizio. A platéia, em alguns momentos ensandecida, acabava atrapalhando um pouco quem quisesse acompanhar o show com calma. Talvez em um teatro a apresentação funcionasse melhor. No final, não dava para negar que 90% do público tenha saído satisfeito, apesar do preço extremamente salgado (R$ 60) do ingresso para assistir a uma banda com pouco mais de meia hora de repertório. Um show que pode entrar na classificação bem particular do "diversão ok". Com o detalhe de que devem ter umas 20 bandas no Brasil que entrem na mesma classificação. Basta não ter preguiça de procurá-las.

Tiago Agostini

 

Trio tem conceito de comunidadeLittle Joy por Binki Shapiro *

£££ “Sim, eu reparei [que eu pareço uma personagem misteriosa próxima a Fabrizio e Rodrigo]. Já me envolvi com a música antes, mas foi de forma caseira; era muito receosa para mostrar isso a alguém. Tive um violão na minha adolescência, vendido acidentalmente por vizinhos durante uma garage sale. Gastei todas as minhas economias, mas senti que ainda não era a hora. Com 18 ou 19 anos ganhei outro de Natal de um amigo e acabei aprendendo por conta própria. Comecei a escrever algumas canções por conta própria mas só acabei mostrando-as para bem poucas pessoas. Quando Fab passou a escrever algo seu, próprio, ele também estava bastante relutante para revelar isso a alguém. Só que passou por cima da timidez e me abriu todo o material, o que me deu coragem de também apresentar a ele o que eu estava fazendo... Ele foi sensacional, a primeira pessoa que realmente quis trabalhar em conjunto comigo.

£££ A recepção a mim foi surpreendente, no bom sentido. Pensei que iriam me odiar porque eu estou namorando Fab [risadas] e ele tem um monte de, ummm, garotas apaixonadas por ele. Também estava nervosa porque Rodrigo tem uma linda voz e já tem no Brasil uma carreira incrível... Achava que todo mundo iria ao show para ver os meninos, mas foi, definitivamente, uma agradável surpresa quando as pessoas se mostraram interessadas naquelas canções que eu canto. Me sentia como se estivesse pedindo desculpas toda vez em que assumia o microfone. Era algo como “perdão, mais uma minha e voltaremos aos garotos em um segundo”. [gargalhadas]

£££ Foi muito bom [sobre a imersão do trio em uma subcultura musical ao lado do produtor Noah Georgeson e os músicos que compõem a banda de Devendra Banhart]. Eles são pessoas lindas e legais, sinceras e encorajadoras... Noah foi incrível, me senti realizada por tê-lo encontrado e pego para trabalhar neste disco. Ele se tornou uma espécie de quarto membro da banda. Ficou bem envolvido com tudo e nós não poderíamos ter feito o que fizemos sem ele. Devendra sempre nos deu a maior força e o apoiador número um desde os primórdios. Ele foi o nosso ponto de união. Rodrigo participou de seu álbum Smokey Rolls Down Thunder Canyon, de 2007. A casa de Devendra foi onde Rodrigo conheceu Noah, onde Rodrigo e eu fizemos um trabalho juntos antes do Little Joy, onde Fab trabalhou com Rodrigo também antes do Little Joy.

£££ Ainda não parei para pensar no que eu e Rodrigo faremos depois de Fab voltar a Nova York para se reunir com os Strokes. Foi lançada a idéia de irmos também para lá e tentar trabalharmos juntos enquanto Fab estiver com a banda. Só que há uma boa questão nisso tudo: adoraria que pudéssemos ter essa mesma vibe de verão nas músicas... Embora tenha feito muito frio em Los Angeles enquanto nós estávamos compondo e gravando. Houve também muitas noites chuvosas, lareiras acesas e todas essas coisas. Então, eu acho que o som foi o resultado deste tempo bom vivido enquanto estivemos reunidos em um mesmo ambiente...

* Trechos extraídos de uma entrevista concedida ao portal cmj.com. Tradução de Abonico R. Smith.

Outras praias

Períodos sabáticos são mais importantes do que férias. Enquanto nestas você apenas dá um refresco para a mente aliviando o corpo por alguns dias ou semanas de afastamento de sua atividade cotidiana, o sabá tem como principal função zerar a cabeça de tudo e deixa-la livre daquela obrigação de ter de retomar logo aquela rotina na qual seu cotidiano está imerso. Fora do cenário habitual, inserido em outro contexto diário, assumindo a condição de espectador externo do dia-a-dia deixado para trás, a alma pode se redescobrir, se reinventar, se reformar.

Foi isso o que se propuseram a fazer Fabrizio Moretti e Rodrigo Amarante. Distante das bandas que o catapultaram para o estrelato durante a última década, eles se mudaram da mala e cuia para Los Angeles para sentir o mundo de outra maneira. Um abandonou a urbanidade latente da maior metrópole do mundo. Arranha-céus, happy cool hype people e a agitação de 24 horas por dia sobre e sob o solo foram trocadas por um pacato way of life, regado a pores-do-sol com o barulho do quebrar das ondas, madeira queimando no fogo da lareira e uma casa recheada por amigos de interesses em comum. Fora a experiência de sair de trás das baquetas para assumir instrumentos diferentes, novos postos de comando e a função de trabalhar com o encaixe de palavras, melodias e harmonias. O outro – que já experimentara temporadas de criabilidade em microcomunidade neo-hippie nos últimos álbuns de sua banda principal – saiu do Rio de Janeiro para encontrar um novo idioma, novas praias, novas sonoridades, novos hermanos. Novos ares e inspirações para novas obras.

A dupla brasileira ainda ganhou o auxílio luxuoso da namorada de Fab, Binki Shapiro, maruja de primeiro viagem no além-mar de turnês, discos e experiência em participar de uma banda pop. Ela ficou responsável pela parte mais doce da musicalidade do Little Joy – leia-se backings charmosos e vocais principais suaves sempre quando necessários, até mesmo se arriscando em versos escritos em português. Binki protagoniza também os momentos mais graciosos do disco de estréia, quando canta nas baladas “Unattainable” e “Don´t Watch Me Dancing” ou comanda o lamento loser que faz de “How To Hang a Warhol” a melhor e mais divertida música do grupo)

Little Joy, o álbum (que, graças à bem-sucedida turnê-relâmpago pelo Brasil, ganhou edição nacional através do selo Slap – Som Livre Apresenta), é o belo retrato destes momentos de calmaria, felicidade e outros brilhos no olhar. Moretti ainda pode trazer pequenos ranços de composição dos Strokes (as duas faixas iniciais, “The Next Time Around” e “Brand New Start” entregam de cara a fonte de inspiração chamada Julian Casablancas) e Amarante pode em determinados momentos não se livrar da força centrípeta hermana (quando escreve na língua-pátria, como no “solo” “Evaporar” e na estrofe final de “The Next Time Around”, ou na levada “quadradinha-niuêive” de “Keep Me In Mind”). Contudo, no fim da contas, soa aprazível vê-los surfar por uma sonoridade mais soft, praieira e nostálgica (algumas pitadas de reggae pop, valsa e calipso sixtie pontuam esse disco, lançado no exterior, no final do ano passado, pelo cultuado selo independente britânico Rough Trade) enquanto fica no ar a incógnita em relação aos próximos trabalhos e o que Fab e Rodrigo levarão para o futuro desta experiência atual com os pequenos prazeres.

Abonico R. Smith

Veja aqui o videoclipe da música "No One´s Better Sake"


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Comentarios (2)Add Comment
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escrito por karen tortato, 04 de fevereiro de 2009
muito legal, fiquei curiosa em ver ao vivo...saiu o titãnic? beijos
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escrito por Atreus, 13 de fevereiro de 2009
Ah,concordei com o comentario de nao ser nada de fantastico. Mas temos de levar em consideracao que nem sempre os caras conseguem fazer algo de revolucionario.Citando inclusive o Camelo. Cdzinho peco aquele viu.

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