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Curitiba vai ao Inferno
Escrito por Abonico Seg, 19 de Janeiro de 2009 20:44
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Os bastidores da viagem que levou quatro bandas da capital paranaense para uma noite especial em São Paulo

Texto de Heitor Humberto *
Fotos de Ariel Martini (CC e HBG) e Mari Pereira (S e r/mm)
O dia nove de janeiro amanheceu com muito calor. O ponto de encontro para o início da viagem rumo ao Inferno era em frente ao Shopping Curitiba. Aos poucos, todos foram chegando: eu a Banda Gentileza, mais Sabonetes, Copacabana Club e o ruído/mm, que com sua tradicional parafernália lotaram o micro-ônibus (três amplificadores precisaram ser colocados no corredor, entre as poltronas). Onze e pouco da manhã estávamos na estrada. Já no início, a primeira parada em um posto. Café da manhã para muitos. Depois, no meio da viagem, a tradicional parada na Petropen, lugar de ser feliz. No ônibus, sempre calor, janelas abertas. Quem queria passar pelo corredor, precisava caminhar em cima dos amplificadores, sempre cuidando com o botão. Já perto de São Paulo, nova parada. Muito calor. E teve gente que estava suando e mesmo assim tomou um pingado no posto.
Chegamos em São Paulo por volta das 17h30. Trânsito não atrapalhou. Batemos na porta do Inferno e alguém que não era o proprietário atendeu. Fomos colocando tudo para dentro e o pessoal já foi montando o palco. Lugar grande. Assim como a nossa expectativa. Quinhentas pessoas já tinham mandando e-mail para a lista da casa para ter desconto no ingresso.
Uma parte dos Sabonetes e uma outra da Gentileza foram até uma sorveteria vegan comer açaí na tigela. Enquanto isso, uma outra parte da Banda Gentileza, que viajou de carro, chegava ao Inferno. Pouco tempo depois, chegou a equipe-de-um-homem-só da TV Cultura para uma matéria do programa Metrópolis. Gravou duas músicas de cada banda e uma entrevista com cada uma. Aparecemos na TV com cara de ontem, amassada, depois de algumas horas na estrada suando.
Som passado, entrevista dada, fomos jantar no Pedaço da Pizza. Enquanto isso, caiu uma puta chuva de verão. A Rua Augusta virou um minirrio, água invadindo a calçada. Por alguns minutos, parecia que a noite estava arruinada. Mas logo a chuva passou e voltamos ao Inferno, onde os ruídos/mm terminavam a passagem de som. Quem ficou lá dentro nem soube da forte chuva que acabara de cair.
Em cima do palco
O público foi chegando timidamente. O show do ruído/mm começou um pouco atrasado e logo chamou a atenção de quem estava no local. Eles começaram bem de mansinho, quase inaudível, obrigando o pessoal a ficar em silêncio para ouvir quatro guitarras, baixo, bateria e teclado. Logo depois entraram em cena as já famosas e densas camadas sonoras da banda.
Infelizmente perdi metade do show, justamente a parte em que tocaram as minhas músicas favoritas: “Praieira” e “Rockers Mariatchis”. Nessa hora, a nossa banda estava afinando os instrumentos e deixando tudo pronto para subir ao palco sem demoras. Nesse meio tempo, apareceu por lá o Daniel Belleza. Trocou uma idéia com a banda. Ele desejou um bom show e saiu do camarim para acompanhar a apresentação. Subimos no palco e o Inferno já estava bem mais cheio do que a hora em que entramos no camarim. Foi um ótimo show. Platéia interessada, dançando e dando risada. Foi a nossa quarta apresentação em São Paulo e, felizmente, a mais inspirada de todas.
Na seqüência, vieram os Sabonetes, sempre com o som redondo, seja onde for. Show perfeito. Para mim, os melhores momentos foram a música nova “Marca-Página” (com uma bela participação da concertina do “nosso” Garapa), além de “Se Não Der, Não Deu”, clássico antigo da banda que contou com um coro da platéia gritando o nome de Rodrigo Lemos, novo baixista que substituiu o Salim “nos braços de outra mulher” (como diz o último verso desta música).
Durante o show dos Sabonetes, eu comecei a distribuir os ímãs com calendário 2009 da Banda Gentileza. Eram 200 unidades. Ou seja, foram umas 200 pessoas abordadas. A maioria estava bêbada e foi muito receptiva. Muitos elogiaram a iniciativa das bandas curitibanas de tocar em São Paulo e destacaram a atuação dos grupos. Uma garota dizia “Vida loka” e fazia o símbolo com a mão, imitando um “V” e um “L”. “Ou pode ser Louis Vuitton, você que escolhe”, complementava. Um integrante da banda do Mister Lúdico também estava lá. Dois caras ficaram me falando que rock mesmo era o feito por Cazuza e Renato Russo. Outros perguntavam sobre as características do ano do boi. Toda essa abordagem demorou muito tempo, foi até o fim do show do Copacabana Club, que subiu ao palco às quatro horas da manhã.
Não consegui acompanhar a apresentação da banda mais aguardada da noite, mas ouvi muita gente elogiando as músicas e a performance do grupo. Nessa hora já tinha uma fila para ir embora, mas um belo número de pessoas ainda estava firme, dançando na frente do palco, que ficou cheio de confetes jogados pela vocalista Caca V.
Depois do último show, Guga Azevedo, DJ que acompanhou a empreitada, colocou clássicos de “bandas de apenas um hit”. Quem ainda estava lá, dançou. No camarim, alguns curitibanos conversavam espremidos em um mundo de instrumentos e equipamentos. Aos poucos, fomos nos arrumando para ir embora.
Cadê o ônibus?
Foi aí que surgiu a preocupação: o motorista do nosso ônibus não estava atendendo o telefone. Vários anotaram o número e todos ligavam para ele. Sempre caía naquela mensagem de que não foi possível completar a ligação. Uma hora alguém do outro lado da linha atendeu a ligação, mas era uma outra pessoa, nada a ver com um motorista de ônibus em São Paulo. Insistimos por muito tempo. Já era umas sete horas da manhã. Alguém foi até o hotel onde ele estaria hospedado e, para a nossa surpresa, ele nem havia passado por lá. O motorista havia sumido e simplesmente não tínhamos como entrar em contato com ele. Todo mundo estava podre de sono, uns dormiam em uns sofás, outros no próprio chão do Inferno.
Os seguranças da casa precisavam ir embora e mandaram todo mundo pra fora. Eram umas 30 pessoas, oito horas da manhã, dia claro, cheia de equipamentos a frente do Inferno. Um sujeito estranho ficava passando, chutando lixo, quebrando garrafas, pedindo cigarro. Alguém parou o carro e ligou músicas da Xuxa no último volume. Muitos trocadilhos com Inferno foram feitos. Foi aí que a gente decidiu “meu deus, precisamos sair daqui e ir pra casa”. Como estávamos com o dinheiro do cachê, decidimos que voltaríamos para Curitiba em um ônibus convencional, da rodoviária. Chamamos táxis para levar os equipamentos até lá. Alguns resolveram ir de metrô. No caminho até a estação, resolvemos parar em um posto para ir ao banheiro. Foi nessa hora que alguém gritou: “olha lá, o ônibus!”. Ele estava o tempo todo parado em um estacionamento a duas quadras do Inferno.
Ligamos para quem já havia ido de táxi. “Não comprem as passagens, achamos o ônibus!”. O motorista disse que o número dele estava correto e que ninguém havia telefonado. Ninguém estava com disposição para discutir, então não rolou nenhum estresse. Fomos até a rodoviária buscar os outros. Teve quem dormiu no chão enquanto nos esperava.
Finalmente, lá pelas nove horas da manhã, pegamos a estrada de volta para Curitiba. Chegamos às quatro horas da tarde. Espero que essa tenha sido a primeira de muitas viagens de bandas curitibanas a outras cidades do Brasil.
* Heitor Humberto é o vocalista da Heitor e Banda Gentileza
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