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El Guincho – ao vivo

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Espanhol comanda um carnaval tropical que leva os indies do estranhamento freak à festa

Pablo: dançante e tropicalienteTexto originalmente publicado no site Aos Cubos

Foto: Ana Laura/Aos Cubos

Na última sexta (17 de fevereiro) enquanto o projeto El Guincho do espanhol Pablo Diaz-Reíxa se apresentava na sempre ótima Choperia do Sesc Pompeia, perto dali no Sambódromo do Anhembi acontecia o primeiro dia de desfiles das escolas de samba de São Paulo. Não é exagero dizer que a animação e as danças durante o show rivalizavam com as do Sambódromo. O som constantemente dançante com uma avalanche de elementos tropicalistas, tribais, latinos, eletrônicos, mostrou que funciona tão bem ao vivo como funcionou nos álbuns do El Guincho que o alçaram ao posto de queridinho da mídia indie em 2008.

Ao vivo, Pablo comanda um altar de sintetizadores e bateria eletrônica, enquanto um baixista também fica por conta de um pequeno sintetizador e o guitarrista comanda riffs tão imediatamente latinos e os passos de dança mais ousados (e engraçados) do power trio. A movimentação deles e a maluquice sonora que a mistura de tantas referências provoca no som do El Guincho podem parecer uma auto-ironia para justificar o descarado “tropical exploitation” por trás do projeto. Mas essa “despreocupação” só aparece superficialmente.

Nascido nas Ilhas Canárias, território espanhol muito mais próximo da África do que da Europa, Pablo sabe do que está falando quando joga marimbas por todos os lados e cria atmosferas que te arremessam num passeio pelo litoral. Mas foge do óbvio quando embala isso com cantos folclóricos e elementos perturbadores que dão um tom fantasmagórico/esquizofrênico que faz toda a diferença sem comprometer a “diversão” que o espanhol propõe com sua música. Mais ou menos como a arara de oito olhos contra um fundo preto chapado na capa de Alegranza!, seu disco de 2008. O litoral proposto por Pablo é ensolarado, porém freak.

O set de São Paulo deu prioridade ao álbum mais recente Pop Negro (de 2010), que se esforça em criar canções com estruturas mais palatáveis ao contrário dos mantras repetitivos quase cacofônicos de Alegranza!. E essa mistura de “propostas” diferentes resultou num show bem equilibrado – o El Guincho ao vivo sairia perdendo sem um dos dois lados. Os melhores momentos ficaram com as dobradinhas “Palmitos Park” e “Bombay”, no final do show logo após a difícil “Muerte Midi” (único momento mais fraco da noite), e “Cuando Maravilla Fui” (com um cântico de arrepiar meio Folia de Reis) e “Antillas” encerrando o bis.

Mas durante o pouco mais de uma hora que durou a apresentação, o público que esgotou os ingressos não parou de dançar após o estranhamento do começo. E o show foi um grande “melhor momento”: alguém deveria estar lá premiando as melhores coreografias, algumas eram impagáveis. Pablo, no começo, aparentava estar meio irritado com o som e o calor e engomadinho demais com sua camisa pólo (“meio coxinha, mas um coxinha bom”, disse a nossa fotógrafa Ana Laura). Depois foi se soltando e ficou visivelmente feliz com a reação do público – mas não mais que o guitarrista, que gargalhava de felicidade olhando para as pessoas dançando e cantando enquanto fazia seus próprios passinhos.

Pablo é mais um da extensa lista de artistas internacionais que dizem ter tido sua vida mudada pelo Clube da Esquina de Milton Nascimento e Lô Borges. Pela primeira vez no país que deu origem à Tropicália (apesar de o som remeter muito mais à música popular caribenha, por exemplo, do que a Tropicália) esse tipo de reconhecimento é de fato muito importante, ainda mais em um país que não fala espanhol. A sorte é que isso nunca fez diferença para o El Guincho, que excursiona mundo afora participando dos festivais mais importantes (e com uma energia ao vivo que não deve a nenhuma das grandes bandas atuais, como o Two Door Cinema Club) e assinou com a mesma gravadora que o XX. O espanhol ininteligível em 80% do tempo e nonsense nos outros 20%, cantado com uma quase indolência por Pablo, acaba caindo como mais um elemento pra criar a atmosfera mistérios-do-Atlântico-Tropical que o El Guincho criou com tanto sucesso. E quem precisa de carnaval com um show desses?

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