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Cassim & Barbária

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Projeto de um homem só criado entre Curitiba e Floripa vira banda e já rende bons frutos no exterior

Cassim e Barbária na praia de FloripaTexto de Abonico R. Smith (com colaboração de Bianca Sobieray)

Fotos de divulgação

Figurinha carimbada do cenário alternativo curitibano há vinte anos, Cassiano Fagundes é um eterno insatisfeito. Nos anos 90 trabalhou de programador de rádio e DJ underground na capital paranaense, enquanto era o frontman do Magog, grupo grunge que foi um dos ícones do rock local na época. Depois passou um tempo na Bahia como guia de caiaque e decidiu respirar ares da maior metrópole do mundo passeando com cachorros pelas ruas de Manhattan. Voltou para sua cidade anos atrás e juntou um grupo de velhos amigos para dar vazão ao Bad Folks, que trouxe aos palcos da cidade canções baseadas em referências do folk e do country rock. Mas não sossegou muito o facho. Pegou a BR 376 e rumou a Florianópolis para trabalhar na área em que se formou, Publicidade e Propaganda. E desde o ano retrasado – quando, enfim, gravou o primeiro álbum oficial do Bad Folks – está morando em Florianópolis.

Neste vai-e-vem pela estrada resolveu dar forma a um projeto solo. Assumiu o codinome de Cassim, retirado de um dos personagens das Mil e Uma Noites, e gravou sozinho suas primeiras músicas e lançou no primeiro semestre do ano passado o EP Ready pelo selo midsummer madness. Cassiano foi atrás de gente disposta a ajudar a levar aos palcos sua nova encarnação. Topou com nomes ímpares do rock catarinense: os “pipodélicos” Eduardo XuXu (guitarra e backings), M. Leonardo (baixo) e Heron Stradioto (bateria e efeitos eletrônicos), além do ambervision Guilherme Zimmer (bateria e efeitos eletrônicos). A partir daí, estava formado o combo Barbária (outra referência de origem árabe, desta vez a região da África setentrional correspondente hoje às costas da Argélia, da Tunísia, da Líbia e a alguns portos de Marrocos).

Acabou conseguindo mais do que um mero time de apoio. “Montei a banda para poder fazer shows, com as minhas composições. Mas a parceria ultrapassou isso e hoje somos um grupo mesmo”, revela o vocalista. Desde então já surgiram alguns frutos da criação coletiva, como um single (“Catastrofismo” e “The Orchard”) e um dos melhores clipes dos últimos tempos feitos com criatividade e orçamento quase zero. Dirigido pelo vídeo-artista Cleverson Oliveira, residente em Nova York há mais de uma década, e rodado parcialmente na clínica de estética da irmã de um dos músicos, o clipe coloca o gorducho e bonachão Zimmer como um cientista louco em meio a muito sangue e instrumentos cirúrgicos.

Apesar de ser uma das mais novas peças do repertório, “Catastrofismo” ganhou a condição de carro-chefe de Cassim e sua Barbaria. Baseada no livro Uma Breve História de Quase Tudo, do escritor americano Bill Bryson, a letra imprime tons apocalípticos a uma história de amor. O refrão “Espero a colisão”, cantado em falsete por Cassiano e XuXu, é de assimilação imediata, assim como a repetição constante do bloco monolítico instrumental. Krautrock com sotaque em português, que faz você apertar o botão do play no mínimo umas cinco vezes consecutivas.

Cassim sempre foi fã de krautrockChucrute rock

Krautrock aliás é apenas uma das palavras-chave por trás da poderosa usina sonora interestadual. Fã assumido de bandas como Neu!, Faust e Can, Cassim já voltou de Nova York, uma década atrás, com a fixação de fazer algum trabalho derivado do gênero atribuído aos artistas experimentais da Alemanha do final dos anos 60 e começo dos 70 (e que resultaria anos depois em discípulos como Sonic Youth, Pere Ubu, Gang Of Four, PiL, Joy Division, Gary Numan, Cabaret Voltaire, Throbbing Gristle, Stereolab e Einsturzende Neubaten). “Só que a gente não faz exatamente krautrock. Não temos sangue germânico. Eu sou descendente de índios”, declarou o vocalista no palco da FNAC Curitiba, durante a apresentação do quinteto na noite de fevereiro do projeto Mondo Bacana Apresenta. “Estamos mais para chucrute rock”, emendou, fazendo referência a um dos maiores ícones da culinária catarinense.

Apesar da brincadeira bem-humorada, o que provavelmente Cassiano nem imaginava no momento, é que sua comparação passou a fazer mais sentido ainda. Afinal, a expressão popular kraut (que indica “uma pessoa alemã” mas que na língua culta pode ser traduzida como “herbáceo”) é derivada do prato tradicional sauerkraut (literalmente “repolho azedo” e que acabou virando o nosso chucrute).

Ainda há – em maior ou menor grau de discrição – outras referências ao krautrock salpicadas no repertório do grupo. O rolo compressor repetitivo da dupla de hits “Libertaria (Madagascar)” e “Catastrofismo” se aproximam do gênero através do arranjo. “Blixa”, como o próprio nome já entrega, é uma música inspirada e dedicada a Blixa Bargeld, guitarrista dos Bad Seeds de Nick Cave e do trio alemão de música industrial Einstürzende Neubauten, que nunca negou sua ascendência kraut. Já “Maelstrom SOS” faz uma inusitada conexão geográfico-etimológica. Apesar do balanço rockabilly, o nome faz referência a um fenômeno natural (um indomável redemoinho oceânico que já foi citado em obras literárias de Edgar Allan Poe e Julio Verne) com nome de origens nórdicas e holandesas.

O chefe e os insubordinadosBrasil anglo-saxão

Mas Cassim & Barbária não ficam apenas do lado de lá do Equador. Eles descem o globo, cruzam o oceano e promovem um belo cruzamento entre a alma anglo-saxã e as referências brasileiras que fizeram a banda carregar o neo-rótulo de subtropicália – intelectualmente bem sacado mas que pode soar indigesto com o tempo, já que o próprio vocalista já se encarrega de fazer declarações “de amor e ódio” ao termo em recentes entrevistas – ao mesmo tempo em que declara sua simpatia pelo termo, também teme ficar marcado por algo que não sintetiza o todo da musicalidade da banda. O pandeiro de samba de “One Minute Ago” (canção poderosa, que fascina desde os primeiros segundos de execução) e “The Orchard” (cujo título faz uma citação ao “pomar” de frutas, árvores e pássaros que Cassim tem à sua visão sempre que abre a janela de sua casa em Floripa. Ambas pintam de verde e amarelo as guitarras pesadas e os versos compostos em inglês.

Por tudo isso que, apesar da curtíssima trajetória do projeto/banda, Cassiano e seus “subordinados” catarinas já estão de malas prontas e passaportes carimbados para sua primeira turnê pelo exterior. Os músicos embarcam no próximo dia 5 de março, para uma turnê nos Estados Unidos e Canadá, passando, inclusive, pelos festivais South by Southwest (em Austin, no Texas) e Canadian Music Week. Os dois são considerados – ao lado do evento promovido pelo portal alternativo CMJ – as maiores vitrines a divulgação e exposição de novos artistas no lado de cá do Atlântico. Ao ser questionado sobre como tudo isso ocorreu, o vocalista prontamente explica: “A internet significa a democratização da música. Para nós, foi importantíssima. Através dela surgiu, inclusive, os convites para estes festivais”.

Junto à turnê, o Cassim & Barbária lançam (lá fora) seu primeiro álbum, homônimo, pela BNS Sessions – uma edição nacional deve vir no segundo semestre pela Midsummer Madness. “Para o álbum, regravamos as mesmas faixas em um estúdio de Floripa, mas com todo o grupo. Naturalmente, o resultado ficou bem diferente do ouvido em Ready. Ele reflete o atual momento do som”, explica Cassiano.

Com relação às composições, o processo também muda. Inicialmente feitas apenas, por Cassim agora conta com a participação de todos os outros integrantes – vale lembrar ainda a preciosa colaboração de XuXu, que, além do trabalho anterior com o Pipodélica, ainda foi o produtor de estúdio do álbum de estréia de outro nome de Curitiba, o Charme Chulo. Uma das novidades deste trabalho de criação coletiva já vem sendo mostrada ao vivo. “Dark Side Yoda” foi inspirada em referências filosóficas/religiosas e da trilogia clássica de Guerra nas Estrelas e vem promovendo um grande clímax percussivo no encerramento das apresentações pré-turnê do quinteto.

“Não tem como estar entre esses caras e ser um ‘chefe’, compondo e produzindo tudo. Eles são incríveis, todos têm sua participação nas composições. O que era pra ser um trabalho solo virou uma banda de verdade”, aponta Cassiano, já deixando pistas para um futuro próximo que parece ser promissor. Se a banda vier com todo o peso, som e fúria que leva aos palcos, ganharão todos. Acima e abaixo da linha do Equador.

 


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