Sábado Jul 31

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Feira Música Brasil – Ao vivo

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Marco Zero de Recife em quatro noites de shows que celebraram a boa diversidade da música brasileira

 

Sepultura: inferno de camisa pretaTexto por Marcio Sno (gentilmente cedido pelo Portal RockPress, com parceria de Music News)

Fotos de divulgação

 

A Feira Música Brasil é um evento anual que tem como objetivo juntar pessoas que fazem da música um trabalho. Entre 9 e 13 de dezembro, produtores, empresários, músicos, se reuniram em Recife para discutir o atual cenário do mercado fonográfico brasileiro e as perspectivas de futuro, principalmente no que se diz a respeito ao formato a ser comercializado. Isso tudo, é claro, regado a muita música, distribuídas em diversos espaços. Nesta edição, o principal foi o Marco Zero, que fica ao lado de um porto com o mar às costas do palco (que para uma cidade quente, é algo a ser muito considerado).

 

Nação e Paralamas: gravação de DVDQuarta – 09.12

A pré-abertura do evento contou com a apresentação itinerante do bloco TAMBORES DO PILAR, formado por meninos que mostraram a sonoridade mais característica de Recife, o maracatu, e arrastaram o povo pelos arredores.

Para abrir os trabalhos no palco, a BANDA BLACK RIO mostrou um tanto de seu repertório baseado na áurea fase da década de 1970. Com muito suingue, botou as pessoas para balançar ao som da black music clássica do grupo. Ao final do set, foi ao palco o rapper paulista MANO BROWN, que apresentou algumas músicas do Racionais MCs para o delírio do público, encerrando sua apresentação com “Nego Drama”.

Apesar do grande alarde provocado desde o seu aparecimento, o MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU nunca me impressionou. E a última oportunidade que dei à banda foi uma apresentação ao vivo dos meninos de Brasília. Eles fizeram bem o seu papel, mostrando um som bastante energético e uma performance muito agitada – os músicos do naipe de metais não paravam quietos no palco. A banda tem um público grande na cidade, demonstrado pelos jovens que acompanharam todos os sons, baixados da internet a pedido do vocalista. Fecharam o set com direito a chuva de papel prateado, o que deu um impacto muito bacana. Realmente foi impressionante o trabalho dessa banda ao vivo. Talvez seja uma grande revelação para o cenário pop/rock brasileiro.

Mas a grande estrela da noite era a NAÇÃO ZUMBI, aguardada por milhares de fãs que gritava o nome de Chico Science antes mesmo da banda começar o seu set com “Fome de Tudo”. Os últimos shows que acompanhei da Nação em São Paulo me decepcionaram em muito – inclusive cheguei a negar convites para ver a banda ao vivo, pelo fato de ser muito monótona. Porém, nesta noite tive a oportunidade de ver a melhor performance deles ao vivo desde que Chico deixou a banda por força maior.

Não sei se era pelo fato de estarem tocando em casa, gravando um DVD ou pelos convidados diversos que subiram ao palco, mas a Nação colocou no palco o melhor de si naquele momento. Os primeiros extras da noite foram o naipe de metais da FULORESTA DO SAMBA, um grupo formado por senhores da velha guarda musical pernambucana. Na sequência, para cantar uma música, o parceiro das duas bandas, SIBA, também fez parte da festa.

No meio do resgate dos sons dos primeiros discos da banda (Da Lama Ao Caos e Afrociberdelia, coube espaço para uma música nova, “Cordão de Ouro”, feita para o filme Besouro. O próximo convidado foi FRED ZERO-QUATRO, que cantou e tocou “Rios, Pontes e Overdrives”. Para “Mangueboy”, ARNALDO ANTUNES mostrou ainda muita disposição com suas coreografias características (que ainda deixaram uma indagação: como ele consegue levantar a perna tão alto?).

Após apartarem de longe uma briga no meio do público, Jorge du Peixe e Lúcio Maia pediram permissão para continuar o show. O guitarrista, após resolver o problema lá na platéia, disse simplesmente “cala boca todo mundo!” e emendou o riff marcante de “Afrociberdelia”, que botou todos para pular. A propósito, Lúcio a cada dia impressiona mais com a sua técnica na guitarra. Sua performance também revela uma pessoa que ama o que faz. Exemplo disso é a versão bossa nova de “Maracatu Atômico”, que se fundiu com o rock pesado.

Os maiores convidados da noite foram os PARALAMAS DO SUCESSO, que já chegaram tocando “A Praiera”, seguida de “Selvagem?” e fechando com “Manguetown” em um ritmo bastante alucinante. Fecharam a noite com Recife inteira encantada.

Tirando o atraso de pelo menos meia hora provocado pelos problemas técnicos e repetições de músicas (por causa da gravação do disco), foi uma apresentação impecável. Daquelas que dá vontade de até comprar o DVD, não só para ver se você aparece lá mas para conferir um dos momentos mais interessantes da história recente da música brasileira.

 

mundo livre s/a e a idade das músicasQuinta – 10.12

Para o segundo dia de Feira, o público começou a chegar mais timidamente, talvez por ter começado mais cedo que o dia anterior. Porém, no espaço ao lado do palco, onde se concentravam os estandes, começou a rodada de negócios, que reuniu pessoas de todo o país em busca de novas parcerias e oportunidades no mercado fonográfico.

Do lado de fora, com meia dúzia de gatos pingados, A TROMBONADA subiu ao palco com seus cinco trombones que disputam e conversam entre si, causando com isso um dialeto que passeava pelo jazz, black music e salsa, sempre com muito peso, suingue e alegria. O convidado da banda foi o músico e compositor Silvério Pessoa, que cantou uma música. Foi uma pena poucas pessoas conferirem esse show muito competente e com diversão garantida.

No palco ao lado, a cantora carioca NINA BECKER foi um colírio para os olhos, pois até então só homens haviam tocado no evento. O show de Nina começou meio frio, com algumas experimentações que chegavam a ser até um tanto monótonas. Mas música a música foi crescendo e ela passou a colocar ingredientes de samba e bossa nova. Aos poucos foi pegando confiança e conquistando o público, sendo muito aplaudida ao final da apresentação.

Na sequência, foi a vez da BANDA NAURÊA mostrar todo o balanço de Aracaju. A base da banda é o forró, com direito a acordeom, triângulo e zabumba, mas eles misturam outros ritmos como coco, tecnobrega e afins. A performance é muito engraçada, para não dizer escrachada, com direito até a coreografias desajeitadas dos vocalistas, que não têm lá “aquele corpinho escultural”... E isso ajudou a conquistar o público. Ao final realizaram uma grande roda. Em uma das músicas, chegaram a colocar um trecho de Santana em ritmo caribenho. Silvério Pessoa voltou ao palco para mais uma participação especial, com a sua performance muito cativante.

O rock, enfim, estava de volta. E a banda MILOCOVIK foi a primeira a cantar em inglês. O som deles navega no rock inglês moderno, o suficiente para que a rapaziada do rock que ali se concentrava começar a balançar suas cabeças. Serviu para esquentar para os próximos shows que viriam.

Já com o público já em bom número, JÚPITER MAÇÃ conseguiu chamar a atenção mesmo de quem nunca tinha ouvido falar nele, com direito a provocações do tipo “vocês me conhecem?”, suas coreografias peculiares (incrível requebrado!) e performance que é garantia de muita energia e diversão. O curioso é que mesmo sendo uma personalidade do circuito alternativo, Júpiter tem um público grande em Recife, que em diversos momentos cantou junto com o músico. Foi uma ótima apresentação com muita vontade de um bis. Mas não rolou, infelizmente.

Na mesma linha de estranhice, ANDRÉ ABUJAMRA começou seu set com “O Mundo”, gravada com uma de suas bandas, o Karnak, que foi mesclada em todo o repertório que apresentou. Para interagir com o público (boa parte não o conhecia), organizou para que se dividisse em dois blocos e passou a reger, criando efeitos sonoros interessantes. Em “Juvenar”, fez com que cantassem o refrão e Abu conquistou definitivamente todos ali. Fechou a apresentação com “Alma Não Tem Cor”, dedicada a Pena Schimidt, um dos curadores do evento e também descobridor de Abu, na época d’Os Mulheres Negras.

O MACACO BONG veio em seguida com seu rock instrumental. Não pense você que, por ser instrumental, teriam de fazer algo mais na linha progressiva e tal. Os cuiabanos mandam ver no rock pesado mesmo, que fez com que as pessoas ficassem ali, paradas, impressionadas com o que estava se passando. Uma pena que poucas pessoas curtem som só instrumental, mas se elas ouvissem essa banda poderiam mudar de ideia. Na performance, os músicos demonstram um sentimento tão forte com a música que chega a arrepiar, ainda mais com o final do set, quando o guitarrista fica no chão para realizar os vários efeitos em seu instrumento. Memorável.

Dono da casa, o MUNDO LIVRE S/A botou o pessoal para sambar no seu som característico. Serviu para dar uma relaxada em meio de shows de bandas bem mais pesadas. Foram mostradas músicas de várias fases banda e Fred Zero Quatro fazia questão de falar a idade de cada uma. Também teve um novo som, que deve entrar em uma futura coletânea. Foi uma apresentação suave e que abriu a oportunidade para o público suavizar e dançar.

O SEPULTURA era o que os “camisas-pretas” mais aguardavam naquela noite, gritando o nome da banda e se espremendo na grade. Nesse momento, a polícia foi chamada para reforçar a segurança, pois talvez o pessoal do apoio tenha ficado com medo das caras de maus dos rapazes. Quando a banda apareceu em cena, Recife endoideceu com a massa pulando, batendo cabeça e formando os círculos para a galera agitar. Som e luz começaram meio estranhos, mas aos poucos foram se acertando. Andréas, que mais uma vez insistiu em seu meião do São Paulo, manteve toda a energia e força de suas apresentações, que também se estende ao restante da banda. Eles tocaram diversos clássicos como “Dead Embryonic Cells”, “Arise” e “Troops Of Doom”, mas o público não se conteve até que tocassem “Roots”. A música foi cantada em uníssono e era possível notar a massa pulando, chegando parecer uma onda gigante. Ao final do show, havia muitas pessoas descansando no chão, porém, absolutamente realizadas.

A quinta foi um bom dia de shows. Mostrou grande diversidade de artistas e estilos, que se misturaram de forma muito harmoniosa, deixando claro que Recife está aberta para diversas manifestações artísticas.

 

Pitty foi o nome mais esperado da sextaSexta – 11.12

O terceiro dia de shows na Feira de Música Brasil foi marcado pelo perfil mais pop, com estilos que passearam pelo jazz, chorinho, MPB, samba, frevo, rap e também rock – porque ninguém é de ferro...

Para receber os poucos que chegaram ao Marco Zero, o paulista radicado em Curitiba DANIEL MAGLIAVACCA e seu grupo mostraram para os pernambucanos um chorinho muito bem executado. O músico toca com maestria seu bandolim, exibindo os clássicos do estilo. Chegou fazer uma homenagem ao bandolinista recifense Lupércio Miranda e encerrou sua apresentação da música mais conhecida do gênero: “Tico-Tico no Fubá”.

Nesse momento, os fãs de Pitty já estavam chegando em um bom número e a presença de FABIANA COZZA com seu samba no palco teria tudo para ser um desastre. Mas essa expectativa foi por água abaixo assim que se abriram as cortinas para a apresentação da cantora paulista: ela estava posicionada no palco com uma pose de diva que arrancou elogios dos jovens roqueiros e, assim, ganhou o público. Fabiana mostrou muita graça no palco, com suas danças, voz poderosa e uma banda muito bem afinada. Além de outras músicas, cantou uma versão muito bacana de “Samba de Ossanha” de Baden Powell. Fechou o set aplaudidíssima com a já manjada “Samba Pras Moças”.

O violonista MURILLO DA RÓS veio de Curitiba. Trouxe sua música flamenca e botou o pessoal para sacudir. Dentro da música que propõe tocar, não trouxe muitas novidade, porém da Rós sabe usar bem seu instrumento, sendo o fio condutor de todo o instrumental da banda.

A carioca PAULA MORELENBAUM trouxe de volta para o palco o seu MPB, com toques de samba e bossa nova. Muito bem afinada e acompanhada por ótimos músicos e com a participação do violoncelista Jacques Morelenbaum. Paula mostrou muito carisma e segurança adquirida por alguém que já tocou com o mestre Tom Jobim. Coincidentemente, também fez uma versão para “Samba de Ossanha”.

Na sequência, um dos produtores mais importantes da atualidade subiu ao palco com a sua banda. KASSIN faz um rock com pegada eletrônica bem suave, com letras muito bem elaboradas, além da performance quase na linha João Gilberto, com pouca movimentação mas muito bacana. Com estilo. Banda promissora e que merece uma audição...

Com toda e experiência adquirida nos seus tantos anos com sua música junto a diversos artistas consagrados, WILSON DAS NEVES trouxe ao palco o chamado “samba de raiz”, lembrando os tradicionais bailes de gafieira. O mestre exibiu uma pequena parte de seu repertório de incontáveis composições. Mostrou seu tradicional carisma, sempre acompanhado de sua toalhinha de mão, contando para os presentes fragmentos de sua história. Uma apresentação clássica e digna de respeito.

Para manter a linha clássica da música brasileira, a ORQUESTRA CONTEMPORÂNEA DE OLINDA botou todos para dançar com sua mistura de ritmos que junta o tradicional ritmo pernambucano com o mais atual, com um naipe de metais, percussão, guitarra, bateria e baixo. A banda de Maciel Salú tem muita energia e peso, de uma forma que ninguém fica parado em suas apresentações. Tocou músicas do disco de estreia, incluindo “Ladeira”, que está com clipe circulando. Ao final de seu set, fizeram uma seleção de frevos que botou todo o Marco Zero pra pular. Não tinha como ficar indiferente diante daquilo tudo...

CIDADÃO INSTIGADO com seu som sem rótulos (isso não é só expressão da palavra) veio de Fortaleza/São Paulo para comemorar seus 10 anos de estrada e encontrou em Recife um público bastante fiel à banda. Eles realmente fazem um som muito diferente, com algumas levadas de bolero, rock, black, salsa, e isso tudo misturado. A voz de Catatau está no meio-termo de Tom Zé e Raul Seixas, o que soa muito interessante. Fizeram uma apresentação muito bacana.

Depois de se concentrarem por horas a fio à espera de PITTY, os fãs da roqueira baiana enfim iriam ver sua musa. Antes de começar o show, foi colocado um trecho de “Smells Like Teen Spirit”. do Nirvana, talvez para testar a segurança do local. Pela movimentação do público, que pulava incessantemente, dava pra perceber que iriam fazer jus ao tempo esperado. Assim que Pitty entrou em palco, o público entrou em transe e acompanhou exatamente todas as músicas cantadas pela cantora. Parecia que era o último dia de todos ali, que se entregavam ao show das formas mais diversas. A banda fez uma apresentação muito forte, cheia de energia – a propósito, a cantora tem uma das performances mais bacanas. A parte alta do set foi quando foi tocada “Me Adora”, o primeiro hit do mais recente disco. A rapaziada presente saiu dali muito feliz, isso dava pra ver na cara de cada um.

Quem (assim como eu) pensava que depois de um ótimo show como esse pouca gente ficaria para ver MARCELO D2 se enganou, pois a maioria permaneceu no local para acompanhar a “batida” do rapper carioca. Sempre acompanhado pelo seu machine man Fernandinho Beat Box, D2 não perdeu tempo e foi logo mandando sua mensagem que em Recife estava com uma pegada mais rock. Cantou clássicos de sua carreira solo e também algumas do Planet Hemp. De uma hora pra outra, D2 pediu para o público saudarem Jorge. A impressão era de que se tratava de São Jorge, porém entrou no palco Seu Jorge, o músico. A platéia, que já estava extasiada, quase veio abaixo com a participação especial.

No final da noite, fazendo o balanço do dia, foi engraçado ver roqueiros em uma apresentação de samba e vice-versa. Mas isso foi, com certeza, uma oportunidade de conhecer variados estilos e ritmos musicais, principalmente por isso ocorrer na noite mais cheia do evento.

 

Silvia Machete: aventuras no trapézioSábado – 12.12

Mais uma maratona de dez shows prometia encher o Marco Zero. Primeiro por ser no sábado e também pelo fato de que a atração principal seria o Fresno. Por conta disso, vários fãs da banda começaram a chegar cedo ao local para garantir espaço no gargarejo.

Quem iria abrir os trabalhos do dia, seria a tocadora de pífano ZABÉ DA LOCA que não pode comparecer ao evento por problemas de saúde por conta de sua idade avançada. Para substituí-la, a produção cuidou de convidar CHINA, que, além de ser um artista local, é novinho e corre menos riscos de problemas de saúde.

China, assim que teve a oportunidade de falar, disse que havia entrado pela janela da Feira e que estava “emocionado” com aquele momento. Agora não sei se esse “emocionado” era no sentido exato da palavra ou se estava fazendo referência aos emos que se concentravam perto do palco... Com sua performance à la Mick Jagger conquistou as pessoas que estavam chegando. Sua banda foi batizada de H. Stern por conta das “pedras preciosas” e ainda teve a participação de Chiquinho do Mombojó nos efeitos especiais. Foi uma apresentação simples, mas bacana.

Da cidade vizinha, Olinda, DONA AURINHA DO COCO trouxe toda sua graça e simpatia. Com sua melodia simples mas muito contagiante, não deixou ninguém quieto – estava todo mundo se mexendo à batida da alfaia e repetindo os versos junto com as backing vocals de roupas coloridíssimas. Ao final da apresentação, o que ficava na cabeça era um dos versos de suas canções: “ai, Aurinha, que saudade de você, sem seu coco, como é que vou fazer?” Uma graça!

Os artistas pernambucanos estavam em alta nesse dia, porém os estilos foram bem diferentes um dos outros. Dessa vez o forró é que tomou conta do público e quem coordenou essa parte da festa foi JOSILDO SÁ, uma figura muito carismática e engraçada. É uma mistura de Antonio Nóbrega (na aparência) e Genival Lacerda (no visual) e tem um remelexo que é só dele. Com essa energia, não foi possível ficar parado.

Vindo da capital paulista, o grupo SAMBA DE RAINHA é formado por mulheres que tocam, cantam e dançam os grandes clássicos do samba. Mas não pense que é aquele pagodinho de festa ou de excursão para a praia. O negócio é de gente grande. Fazem arranjos diferenciados, colocam elementos como rock e techno em algumas versões e mandam ver no sambão mais tradicional. Começaram com a famosa frase imortalizada por Alcione “Não deixe o samba morrer”, arrancando algumas reclamações dos fãs de Fresno, mas assim que emendaram umas batidas eletrônicas ganharam automaticamente o público. Destilaram clássicos de Zeca Pagodinho, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra, Lecy Brandão, Bee Gees... Mas o destaque mesmo foi a versão de “Satisfaction” com uma pegada de samba que poderia deixar os Stones sorrindo à toa. Coisa fina, de rainha. Fecharam com “Chora” de Beth Carvalho, e saíram aplaudidíssimas.

A carioca ANNA RATTO deu uma amansada na série de ritmos dançantes, com seu pop com pezinho no rock. Apesar de não seguir uma linha tão roots dos anteriores, faz um som bacana, tem um visual muito interessante e até conseguiu carregar um fã-clube que, aliás, trouxe uma faixa saudando a cantora. Além de composições próprias, cantou obras de Gilberto Gil, Novos Baianos e Baby Consuelo & Pepeu Gomes, mas a música que o pessoal cantou em coro foi “Socorro”, de Arnaldo Antunes. Boa apresentação de um nome a ser anotado.

Partindo para a linha black e passeando também pelo funk, soul e samba-rock, o FINO COLETIVO apresentou o suingue carioca, que botou as pessoas para balançar assim como a Black Rio fez no primeiro dia. Depois da metade de sua apresentação, porém, o ritmo estava um tanto repetitivo e a platéia já apresentava certo cansaço. É uma banda interessante, mas talvez já tenham feito apresentações melhores.

Conterrânea da atração anterior, SILVIA MACHETE trouxe toda a sua irreverência e sarcasmo para Recife, que a recebeu muito bem. Mas isso não foi muito difícil, pois ela conseguiu conquistar o público logo de cara, por seu visual estilo artista de cabaré: vestido decotadíssimo com estampa de onça, cílios cor-de-rosa e o indefectível enfeite de pomba branca na cabeça. Isso sem falar na banda que seguia na mesma linha quase brega de seu som. Silvia, além de cantora, é ótima performer. Realizou um número no trapézio (antecedido, claro, de um striptease parcial) e deu um verdadeiro show com bambolês. Antes de mostrar seus dotes com o equipamento, emendou:  “duvido que o Fresno faz isso!”. E depois do que ela fez, duvido mesmo... Enquanto rodava o bambolê, apertou um cigarro de orégano (em todas suas etapas e retirando as peças dos locais mais inusitados de seu corpo) e fez bolas de sabão com a boca! Sensacional! O público ficou extasiado com a função multimídia de Machete, que saiu ovacionada do local.

Então mais um artista local entrou em cena. DJ DOLORES, com a sua música eletrônica que mistura ritmos regionais, botou a galera para dançar, como se fosse uma grande discoteca ao ar livre. O grupo é metade banda e metade DJ. Ah, como os shows de Dolores são para dançar, não tem muito o que falar!

E foram abertas as portas para a juventude que esperava os shows mais pop da noite. O primeiro foi o STRIKE, que, a partir do momento em que subiu no palco, não parou de pular um segundo e tornou-se um verdadeiro desafio para os fotógrafos! A multidão foi ao delírio, ainda mais com as provocações do vocalista Marcelo para que o público participasse do show cantando ou com coreografias. Além de canções próprias, eles também mandaram músicas de Raimundos, Green Day, Charlie Brown, Natirus e também uma homenagem a Chico Science: a versão eletrônica de “Manguetown” emendada com uma palhinha de “A cidade”. Quase ao final do show, para desespero da segurança do local, Marcelo convidou dez meninas para subirem ao palco e cantar (novamente) “Paraíso Proibido”. Foi um set com bastante energia e que deixou a molecada aquecida para o próximo show.

Enfim, a banda mais aguardada da noite chegou para sossegar (ou acelerar) os milhares de fãs que chegaram cedinho ao Marco Zero. O FRESNO foi recebido com muitos gritos e acompanhado em coro em todas as músicas. A multidão, formada em sua maioria por meninas e emos, gritava a qualquer movimento do vocalista Lucas e do baixista Tavares (que, aliás, foi homenageado com uma faixa escrita “Tavares, me chupa!” – é sério!). E foi assim até o final do show. No meio do repertório, uma versão para “We Will Rock You”, do Queen, estremeceu tudo.

Essa noite conseguiu vencer a anterior com muito mais misturas de ritmos e estilos e, mais uma vez, não houve conflito entre os diferentes. Também foi a noite mais dançante da Feira, que abusou dos ritmos regionais e fizeram com que os novos roqueiros tivessem contato com a riqueza proporcionada pela música regional brasileira.


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