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Tulipa Ruiz
Escrito por Abonico Qui, 02 de Agosto de 2012 23:13
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Cantora rompe com persona de boa moça no segundo álbum Tudo Tanto e prova que não é efêmera
Texto por Cleber Facchi (originalmente publicado em Miojo Indie)
Foto: Divulgação
Contrariando a pluralidade de frases memoráveis que preenchem o mais novo disco de Tulipa Ruiz, Tudo Tanto (2012, YB/Natura), o trecho que melhor represente a atual fase da “paulistana” se esconde no interior de “Expectativa”. Oitava composição do novo disco, a música traz na passagem “Na expectativa de que o inesquecível aconteça/ Na confiança de que o imprevisível permaneça” um reflexo óbvio da constante pressão que a cantora teve de enfrentar ao longo dos últimos dois anos. Ao transformar Efêmera (2010) em um clássico imediato da nova (e velha) MPB, tornava-se explícito o esforço que a artista teria de aplicar para dar continuidade a essa obra, resultado que ela entrega agora, contrariando, cumprindo e até surpreendendo incontáveis expectativas.
Naturalmente contrário ao primeiro álbum da cantora, em Tudo Tanto a constante primordial é a evolução e a necessidade de provar novas tendências. Enquanto as guitarras do pai Luiz Chagas se desprendem da timidez de outrora, embarcando em uma estrutura mezzo experimental mezzo pop-tropicalista, a voz de Tulipa ganha um espaço ainda mais amplo do que o arranjado no disco passado. Dentro desse constante embate entre a voz e os acordes, a aproximação da dupla resulta em uma variedade de novos clássicos imediatos. Faixas como a esquizofrênica “Like This” e “Quando Eu Achar” em que o encontro familiar – completo com a presença do irmão e produtor Gustavo Ruiz – mais uma vez deixa transbordar o colorido do trabalho de Tulipa, agora acompanhado de pequenos tons de cinza.
Quem esperava por um registro que reproduzisse o mesmo “pop florestal” do disco anterior talvez se impressione com a descontrolada massa de ruídos que proliferam ao executar da obra. Distante dos realces melancólicos que definiram músicas como “A ordem das Árvores” ou “Só Sei Dançar Com Você”, no novo projeto as guitarras e a natural aproximação com o rock da década de 1970 modificam consideravelmente os rumos da cantora. Tulipa agora se entrega à agressividade. Transitando intensa entre a fase áurea dos Novos Baianos (pela instrumentação) e Gal Costa em suas melhores interpretações da obra de Caetano Veloso (pelos vocais e letras), Ruiz rompe com a persona de boa moça, rasgando vozes, versos e tornando públicos diversas desilusões particulares que agora entusiasmam de forma homogênea todo o projeto.
Por vezes, o sentimentalismo romântico que temperava as delicadas “Efêmera” e “Às Vezes” dá lugar ao tom rancoroso, temática que bem pontua parte fundamental da nova obra. Em “Víbora”, por exemplo, faixa que divide os versos com o rapper Criolo, Ruiz deixa fluir a criação mais intensa de sua curta carreira, algo que a letra crua e os vocais épicos traduzem de maneira seca e vingativa, quase como um escarro. “Metade homem, metade omisso/ Uma parte morta, outra parte lixo” derrama em tom jazzístico e desesperado enquanto os sussuros do colaborador fluem tensos ao fundo. Até ao se aproximar de um resultado mais pop e comercial, como em “Quando Eu Achar” e “Bom”, a amargura está presente, como um referencial secreto que antes se ocultava em meio os acertos coloridos do disco passado.
Ao mesmo tempo em que se constrói como um trabalho de temas fortes e instrumentação densa, não são poucos os momentos em que a sutileza típica do primeiro disco predomina. Todavia, contrariando o ar ensolarado do début, Tudo Tanto revela a formação de uma artista menos óbvia, figura que engata composições pop sem passar pelos exageros de novos adultos ou o romantismo clichê das novas musas da cena nacional. Dentro dessa proposta de renovação não é difícil se encantar por composições banhadas por líricas mais subjetivas, como na metafórica “Script” (com ares de Baby Consuelo) ou mesmo criações que se acomodam nos ouvidos, vide o tom adorável de “Desinibida”. Todas composições que crescem visivelmente pela presença dos ricos arranjos de cordas, mínimos acertos que perfumam o trabalho de uma ponta a outra – um elemento de contraste para as guitarras sujas que também se revelam por lá.
Ao longo dos meses, enquanto apresentava faixas doces e naturalmente comerciais (“É”, “Dois Cafés”, “OK”), a cantora botava em dúvida a força do novo álbum. Afinal, teria a artista gastado todo seu arsenal logo de cara em um pequeno conjunto de vendáveis canções? Basta uma rápida passagem pelo emaranhado de onze faixas para perceber que não. A cada curva a cantora reserva incontáveis surpresas e composições ainda mais ricas que as anteriores, fazendo com que o disco cresça de forma uniforme, com todos os espaços ocupados, o que logicamente não acontece no álbum de 2010. Dentro desse resultado, Tulipa Ruiz se mantém oposta a todas as expectativas pessimistas de alguns ouvintes contrariados, não apenas acertando mais uma vez, como elaborando material suficiente para mostrar que sua obra está longe de parecer efêmera.- 23/08/2012 00:36 - Alanis Morissette
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