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Rock de Inverno – Ao Vivo
Escrito por Abonico Seg, 03 de Agosto de 2009 02:41
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Leia a cobertura mais completa das geladas noites do tradicional festival do mês de julho em Curitiba
Cobertura por Bianca Sobieray, Fernando Souza e Getulio Guerra
Fotos de Marcelo Stammer
Dia 1 – 23.07 – TUC
A sétima edição do Rock de Inverno teve seu início fazendo jus ao nome: com muito frio e chuva. Os antigos paralelepípedos do Largo da Ordem, no Centro Histórico de Curitiba, refletiam fortemente as luzes amareladas dos casarões antigos da região. E a direção era o TUC, antigo teatro que já foi palco de shows memoráveis nas décadas de 70 e 80, e que recentemente foi reformado.
Lá foi dado o pontapé inicial do festival, com um bate-papo entre Getulio Guerra (PrasBandas), Vadeco (Festival de Música Étnica Contemporânea), Ivan Santos (Rock de Inverno), Marcelo Domingues (Demo Sul) e Vlad (Psycho Carnival). Desde o início, os participantes deixaram claro que o objetivo daquele debate era deixar a choradeira de lado e encontrar soluções para mudar e evoluir várias circunstâncias do mundo musical curitibano, paranaense e nacional. Marcelo chegou a levar um lenço, ilustrando muito bem essa necessidade de agir ao invés de choramingar. “Muito bom esse levante do Marcelo já de cara. Ajudou a elevar o nível do papo e ser um dos mais interessantes que o meio já teve”, segundo Ivan. Ninguém melhor do que aquele time para debater sobre isso, já que todos têm projetos singulares e muito bem sucedidos no meio. Cada um falou amplamente sobre suas experiências na organização de seus projetos.
Getulio abordou algumas burocracias em Leis de Incentivo e nos procedimentos para se fazer eventos em praças públicas, envolvendo alvarás, policiamento e autorizações para fechamento de rua até de igrejas do bairro Uberaba. Ele afirmou que o PrasBandas não nasceu para salvar a cena musical curitibana. “O que é sucesso para uma banda hoje em dia: entregar-se a um modelo que o mercado aponta? As bandas que se perguntem – antes de qualquer coisa – o que querem de suas vidas artísticas”.
Já Vadeco deu uma invertida em empresas de telefonia que chegam à cidade, fazem um evento legal em várias praças, mas ao mesmo tempo não pagam cachê, divulgam bem pouco os nomes das bandas – quando os mesmos não estão errados – e informam aos artistas que foram aprovados apenas com a impessoalidade de um e-mail, pedindo para que “estejam em determinado local meia hora antes do show começar”. Aliás, outros furos: Mordida tocou no evento e não tinha nos banners de divulgação o seu nome; e o Charme Chulo soube pelo próprio Getulio, poucos dias antes, que também iria tocar. Vadeco questionou, mas se negou a tocar. Já ao final do show do Charme Chulo, Leandro Delmonico agradecia no microfone pela força às boas bandas autorais da cidade quando Igor Filus emendou dizendo que dá próxima vez tomara que a Oi fique mais rica a ponto de pagar cachê pra todo mundo. O bom público que enchia as escadarias das Ruínas de São Francisco foi ao delírio e bateu palmas de pé concordando com a ironia. Ponto pros chulentos e que a companhia telefônica continue com o projeto, mas aperfeiçoe esse contato respeitoso com os artistas. Vadeco, por fim, também comentou que vive independente da música feita com Os Astronautas em seu novo Astrolábio Music – estúdio onde cria trilha sonora pra cinema, dá vários cursos, produz e grava bandas.
Marcelo Domingues, além de ir contra achoradeira generalizada do meio independente, exigiu criatividade dos produtores e músicos e ainda deu ótimas ideias para a organização de festivais – como fazer parceria com estacionamentos da região, que muitas vezes são mais caros que os próprios eventos, dar descontos para quem for antes aos shows, fazendo com que o público chegue no início das atividades e, assim, assista mais bandas, entre outras. Para Domingues, não vale a pena terceirizar o que pode ser administrado pela própria produção dos festivais, evitando assim abuso de valores e possibilidade dessas promoções visando mais visibilidade às atrações do festival.
Vlad, por sua vez, também discorreu sobre as Leis de Incentivo, além de falar sobre as políticas de parceria das casas de shows que, além de cobrarem porcentagem da entrada para os organizadores, ainda ficam com todo o bar (lucro na venda de bebidas) – e que ao mesmo tempo é bastante trabalhoso administrar tudo isso em um festival. Comentou também que teve problemas com o locatário do espaço para esta última edição do Psycho Carnival, tendo de relevar certas sacanagens pro evento não parar no meio. Só faltaram de brinde umas garrafas da Diabólica, a nova cerveja artesanal curitibana!
Todos os convidados concordaram na maioria dos assuntos debatidos, principalmente no fato de que as bandas precisam ter um foco e direcionar o seu perfil para os seus objetivos. Não adianta querer tocar no Faustão e não se adequar para que isso aconteça. Por isso, muitas podem ser felizes e ter o tão almejado “sucesso”, tocando apenas para as pessoas do seu bairro, por exemplo. O sucesso é relativo e vai até o ponto onde o grupo consegue e, principalmente, pode chegar. Nesses tempos bicudos, nos quais as grandes gravadoras exibem em holofotes e vendem como "rock" essa piazada com um discurso de corno (mais para o sertanejo) e uma postura de salão de beleza (mais para a afetação), a receptividade de um possível público pode ser mais qualitativa do que quantitativa.
Depois de algumas perguntas da plateia, Ivan Santos encerrou as atividades no TUC sorteando ingressos e chamando a todos para irem ao Era Só O Que Faltava, onde horas depois aconteceria a festa de lançamento do festival. Mas o clima de parceria e amizade permaneceu ainda por um tempo no local. A proximidade entre produtores, jornalistas, músicos e entusiastas da música independente fez o meio crescer mais um pouco naquela noite, principalmente pela troca de experiências que acabara de acontecer.
Fora do TUC, na fria Galeria Julio Moreira, o carismático Jair Marcos (integrante tanto do Fellini quanto do 3 Hombres) ainda emendou o papo sobre a falta de poesia nas canções de bandas hoje
Dia 1 – 23.07 – Era Só O Que Faltava
Depois do bate-papo no TUC, o reencontro se deu horas depois no Era Só O Que Faltava, onde foi realizada a festa de lançamento da sétima edição do Rock de Inverno. Três bandas de Curitiba ficaram a cargo dos shows.
Rosie & Me foi a primeira a subir ao palco, logo depois da meia noite. Com som indie folk cantado em inglês, chamou atenção pela utilização de vários instrumentos, criando timbres distintos para cada música. Isso, junto ao vocal doce de Rosanne Machado, formava harmonias inteligentes e tranqüilas. Mesmo com o set curto (apenas seis músicas) e dos vários problemas técnicos na apresentação da banda (aparecia sempre algum cabo de violão ou microfone com defeito), foi o suficiente para captar a essência do grupo que, capitaneado também por Alex Sousa (vocal e synth), mostra-se um dos grandes potenciais curitibanos para os próximos meses. Vários shows, para conseguir mais vivência de palco, farão muito bem à banda. Apresentações em teatros também seriam uma ótima opção, já que a música deles é muito mais para prestar atenção do que para ser dançada.
Em seguida, quem ocupava o palco era o Delta Cockers, formado por Marcell Eduardo (vocal e violão) e Rafael Panke (vocal, programação e synth). A dupla também sofreu com alguns problemas técnicos, mas o som eletrônico, unido a violão e vocais em português, logo se estabilizou e a apresentação correu normalmente. Se é que podem ser chamados de normais esses dois, principalmente pelas letras muitas vezes sem muito sentido e pela definição de influências que eles mesmos apresentam (“postes, telhados, dg/gd e salas cirúrgicas”). Outra banda ideal para parar em frente ao palco e prestar atenção nos detalhes de letras, sequências rítmicas e de harmonia, e que, graças às batidas eletrônicas, pode ser dançante também.
A última atração da noite, Folhetim Urbano, surpreendeu a todos. Para esta noite, os experientes músicos Carlos Zubek (guitarra e voz), Renato Zubek (baixo e voz) e Marcelo Chytchy (bateria) contaram com a participação do ex-Terminal Guadalupe Allan Yokohama na guitarra. O som é um rock básico, mas muito bem feito, com pitadas de funk. As letras falam do dia-a-dia e da rotina das vidas modernas, com um clima profundamente curitibano. Tanto nos registros de estúdio quanto nas músicas executadas ao vivo, os músicos deixam transparecer amizade e parceria. A banda tem um álbum lançado (Cativeiro) e está em fase de finalização de um novo CD (D’Aurorà Tormenta), gravado entre 2008 e 2009 e com previsão de lançamento para o final deste ano. Bandaça!
Assim encerrou-se a prévia da sétima edição do Rock de Inverno, mostrando que aquela festa de lançamento seria apenas um aperitivo do que ainda estava por vir para as duas noites (de temperaturas muito baixas, diga-se de passagem) marcadas para outo palco, o do John Bull.
Dia 2 – 24.07 – John Bull Music Hall
Neste ano, o Rock de Inverno e o próprio inverno andaram muito próximos, o tempo todo. Na segunda noite do evento (na verdade, a primeira dos shows ditos “oficiais”), o frio e a chuva também não arredaram pé da cinzenta Curitiba. Chegando perto do horário marcado para o início das atividades no John Bull Music Hall o público ainda era tímido e escasso. Então Ivan Santos, curador do festival ao lado de Adriane Perin, subia ao palco, agradecia os patrocinadores e apoiadores e decretava o início das apresentações daquela noite.
A primeira atração, Liquespace, conta com excelentes músicos da atual cena curitibana: Marcelo “Lique” Franca (voz e guitarra), Alonso Figueroa (acordeon, synth e programações), Denis Nunes (baixo), Fernando Rischbieter (guitarra) e Júlio Epifany (bateria). O som é muito bem elaborado e a qualidade técnica dos músicos deixa as canções em perfeita sintonia. A sonoridade circula entre MPB e rock, mas não é um e nem outro. O baixo dá um ar groovy e o acordeon, pontual, muitas vezes remete a um naipe de metais – o que também cairia muito bem para a banda.
O público, aos poucos, começava a chegar e a encher a casa. Vinha então ao palco uma representante da nova geração de músicos curitibanos. Composto por Gabriel Fausto (voz e guitarra), Joel Rocha (guitarra, violão e baixo), Leonardo B. (guitarra, bandolin e baixo), Rennan Fróis (bateria e gaita) e Bruno Fróis (baixo e voz), o Pão de Hambúrguer faz um som calcado na força das guitarras – são três em cima do palco – e com diversos riffs e solos, dando um peso que remete aos clássicos do rock’n’roll. E o grupo foi um dos destaques do festival pela excelente criatividade nas composições de suas músicas, que, por exemplo, nunca começam e terminam da mesma forma. Cada canção tem uma atmosfera diferente e são muitas as variações. Algumas parecem ser três em apenas uma. Tudo sem frescura, sem modismo, com belas letras, sem pose...
A escalação continuou com o Hotel Avenida, recém-formado por Giancarlo Rufatto (voz e violões), Ivan Santos (voz, percussão e teclado), Carlos Zubek (guitarra), Eduardo Patrício (bateria e teclado), Rubens K (baixo) – com as participações, neste show, de Allan Yokohama na bateria e teclados e Igor Ribeiro no flugelhorn. O projeto é filho do universo virtual, concebido a quilômetros de distância (a partir de um EP produzido a quatro mãos por Giancarlo Rufatto,
Repetindo a performance de março no festival Curitiba Calling, Nevilton chegou logo depois para roubar a cena, mostrando, mais uma vez, ser atualmente a principal promessa do rock. Nevilton Alencar (guitarra e voz), Tiago Inforzato (baixo) e Fernando Livoni (bateria) formam um power trio altamente enérgico, com um show inesquecível. A força em cima dos palcos é proporcional ao que a banda oriunda das cidade paranaense de Umuarama apresenta fora deles, sendo um dos grupos mais ativos e agilizados hoje em todo o Brasil. Não é a toa que seu nome é citado como destaque por diversos veículos da imprensa nacional (independente ou não) e a agenda traz muitos shows marcados em vários estados. Um dos pontos fortes da sonoridade do Nevilton é a miscelânea de estilos nas canções, que não deixam o público ficar parado. Fosse nos anos 80, alguma major já teria contratado os caras e os colocariam no alto escalão do rock nacional. Mas afinal, mesmo nos anos 2000, o sucesso para o trio também não está longe...
Marlene Dietrich – atriz alemã que virou cantora nos fronts militares na Segunda Guerra – inspirou o trocadilho que deu nome a Diedrich e os Marlenes. Oneide Diedrich, que adora chamar todo mundo de Getulio, é diversão na certa como frontman. Somado a André Tatos (bateria) e a seriedade punk dos outros 50% vindos do histórico BeijoAA Força, Luiz Ferreira (guitarra) e Renato Quege (baixo), o quarteto mais popular da noite fez muita gente dançar feito peão de boiadeiro. Oneide canta filosofando sobre o amor de forma debochada, dança, finge que toca e no fim da história ainda é chamado – como sempre – de “viado” por seu povo. Uma zona só. “Beber-te” e “Dos Amores Mais Vendidos” estavam na boca da galera e são geniais.
Os baladeiros dos 3 Hombres vieram de Sampa e aterrisaram na fria e pacata capital paranaense, pra principalmente esquentar os corações dos velhos rockers. Daniel Benevides (voz e gaita; remanescente da formação original), Jair Marcos (guitarra e vocais, também da formação original e do Fellini), Ronaldo Passos (guitarra e vocais, também integrante dos Inocentes), Carlinhos Vieira (baixo e vocais, ex-Ness e C.i.a. Brazil) e Fábio Barbosa (bateria, também dos Gasolines) formam hoje a banda criada pelo guitarrista Minho K, alter-ego do saudoso e eterno jornalista Celso Pucci.
Beto Só – acompanhado nas guitarras por Ju e Fernando Brasil (ambos do Phonopop), no baixo por Rinaldo Costa (ex-Superquadra e Disco Alto e atual Cine Hits) e na bateria Txotxa (atual Plebe Rude) – fisicamente já lembrava Nei Lisboa. E o cabra tem uma emoção que vibra na gente mesmo. Como a banda não tinha ensaiado "Abre a Janela" Beto até arriscou tocá-la sozinha no violão. Momento especial! Nevilton, que dançava e cantava as canções durante a apresentação dos brasilienses, recebeu um belo presente entre as palmas ao final do show do Beto Só. "Quando eu subi aqui fiquei pensando se eu conseguiria fazer um show tão bom quanto o Nevilton", disse o músico vindo do Planalto Central. Pô!
Depois de tudo acabado, missão cumprida e tal, Beto ainda chamou os organizadores Adriane e Ivan mais outros músicos daquela mesma noite para cantar com ele o hino “Gloria”, composto há 45 anos pelo irlandês Van Morrison. No meio da bagunça, Oneide mandou junto daquele jeito: "Quando ela disse, "cai fora"/ A lua inteira soube, na hora/ Eu era só um pobre, astronauta/ Trabalhando numa armadura de lata/ Meu chefe era um robô desalmado/ Ele disse aqui na lua isso é bem normal/ Mulher é coisa rara, brinquedo mimado/ Primeiro bota em órbita e depois trata mal". A citação: “Astronauta”, clássico dos gaúchos punks Replicantes.
Ver Adri e Ivan, os criadores do Rock de Inverno, cantando e dançando durante esses dois últimos shows da primeira noite deve ser entendido como o comprometimento artístico que Vadeco disse ter faltado no Oi Expressões. Havia uma celebração no ar! Uma colher de chá para os antigos e uma canja para os novatos que não entendiam muito bem daquela comoção toda que tava no ar, mas sabiamente se alimentam desse clima observando tudo... "Cara, ver aquela galera todo no sábado, alguns amigos de olhos marejados, foi muito bonito. Dos shows, 3 Hombres e Beto Só foram foda, porque Beto a gente queria trazer havia três anos e ele matou a pau. Ver os 3 Hombres, uma das bandas de que mais gosto na vida, tocando no meu festival, ainda mais inacreditável”, mandou Adriane Perin, sobre este final de noite.
Dia 3 – 25.07 –
A equipe do Mondo Bacana não conseguiu assistir a Heitor e Banda Gentileza de cabo a rabo. Mas o pouco que foi visto comprovou de fato todo o potencial que vem aí no primeiro álbum do sexteto, que faz um pop inteligente, com sotaque nacional, passeio entre ritmos e suingue irresistível.
O Je Rêve de Toi foi o segundo grupo a subir ao palco naquele sábado, com a proposta de mesclar acordes de guitarra a intervenções eletrônicas e, em alguns momentos, violino. Quando Edgard Scandurra lá atrás, no fim dos anos 80 e depois com o projeto Benzina, começou a sintetizar e a guitarrar no mesmo tempo/espaço, dava para sacar que ele vislumbrava o futuro... Mas ainda se sente falta de uma cozinha visceral de verdade neste formato “econômico”. Em seguida, veio o sexteto instrumental ruído/mm com as quatro guitarriscas e seus vários pedais, em uma apresentação que deixou bastante a desejar. Talvez pela falta de retorno no palco, reivindicada durante todo o show pelos integrantes. O que se ouviu foi algo bagunçado, com sons que se misturavam a todo instante.
Após alguns minutos para a troca de palco começou a apresentação de Koti e os Penitentes, inegavelmente um dos melhores shows da noite – pecando apenas pelo megafone, usado no vocal em todas as músicas. No início, o “instrumento” é um diferencial marcante, mas no decorrer acaba cansando. Para quem é mais atento ao texto, fica difícil entender o que Koti canta, mas o efeito se torna algo interessante a quem já conhece as canções.
A quinta atração era, muito provavelmente, a mais aguardada de todo o evento: o lendário grupo paulistano Fellini. O show foi uma verdadeira celebração tanto para banda, que comemora 25 anos de “existência” e demonstrou se divertir muito com aquilo tudo, quanto para o público, que pode testemunhar um reencontro histórico. Os veteranos empolgaram, dos mais jovens, que talvez nem soubessem direito quem eram aqueles, até quem foi só para vê-los.
Pós. Punk. Samba. Poético. Nonsense. Experimental. "Não tem problema do Fellini ser uma banda que só faça sentido para a sua época. É que nem Birds! Hoje é legal, mas na época devia ser mais legal", derreteu-se Allan Yokohama durante mais uma das breves ressurreições do grupo.
Sim, Japa, havia o peso da época e seus paradigmas. Lá eram nonsenses doidões que musicavam sem virtuosimo alguns belos poemas na sala de estar. E, naquela noite de inverno, entre os nossos, ouvimos o Cadão se apresentar como Paulo Ricardo! (em Sampa, três dias antes, o mesmo se definiu como Dinho Ouro Preto). “Vanguarda demais assusta”, diz o outro... Essa ironia, aliás era muito calculada nos discursos dos anos 80, mas nas composições e posturas das bandas via-se a hipocrisia. Mas com o Fellini, não! Apesar de não vender bosta nenhuma de seus LPs e quase não fazer shows fora de SP, eles se divertiam gravando em estúdios caseiros, cantando em inglês e alemão poesias ora belas ora esquisitas. Fizeram escolas... Ninguém menos do que Chico Science era fã e confessava tê-los como influência máxima. Calcule!
"Acho que fizemos um trabalho decente e ferrenhamente independente. Isso foi salutar do ponto de vista moral, mas não financeiro. Viver de música no Brasil é quase impossível. E, se há sucesso e gravadora, a decadência é irremediável”, declarou Cadão dias antes, em entrevista para o jornal local Gazeta do Povo.
Voltando à noite no John Bull... E lá veio a sequência de hits do underground nacional: “Massacres da Coletivização”, “Nada”, “Pai” ("Pretendo ter dois lindos filhos/ Uma menina e um robusto menino/ Botar eles na escola desde o princípio.../ E assim nós vamos indo/ Minha pequena mulher vai dirigindo/ E assim nós vamos indo/ Meu filho segue torcendo comigo/ E assim nós vamos indo"), “Rock Europeu”, “Ambos Mundos”, “Clepsidra”, “Zum Zum Zum Zazoeira”, “Teu Inglês”, “LSD”, “Chico Buarque Song”, “Funziona Senza Vapore” ("Ninguém é perfeito / Eu quis ser socialista!/ ...Um ex-skinhead falava da sua namorada/ Como gostava dela ser tapada"), “Tudo Sobre Você” ("Você é tão simples e eu chorei/ Você é tão só e eu vivo me escondendo/ Você pisa em fogo e eu jogo água nas pessoas/ Você vai embora e eu nunca te esquecerei"). No bis, teve “Amor Louco”.
A penúltima banda a se apresentar neste sétimo Rock de Inverno foi o Mordida. Com algumas novidades na formação – como a dupla de metais que incrementou o show e a participação do músico Rodrigo Lemos (ex-Poléxia e ex-Sabonetes) nos teclados e efeitos eletrônicos – Paulo de Nadal e Ivan Rodrigues levantaram a platéia quando o relógio já marcava mais de 2h30 da manhã. É contagiante o tesão com que o Mordida sempre toca. O duo tem a manha de chamar caras bacanas pra fazer um som. Paulo ainda agradeceu um amigo que há muito tempo atrás deu uma fita cassete com canções do Fellini pra ele e o mandou escutar. Por essas e outras que ele estava ali com sua banda...
Lestics fechou o festival. Nesse caso, a pegada mais calma das músicas e o horário avançado foram vilões, fazendo com que a maioria do público que ficou até o fim assistisse o show da fila para pagar a comanda e ir embora. Mesmo assim, a banda não teve dificuldades para figurar entre os destaques da última noite. Com Marcelo Fu (baixo e violão), Olavo Rocha (vocais e composições), Felipe Duarte (bateria), Felipe Duarte Lirinha (violão e guitarra) e Humberto Serpieti (backing, violão, guitarra, teclados e gaita), o Lestics lembrou o Nenhum de Nós na voz de Olavo. A voz, porque o conteúdo mesmo com um som limpo em formato acústico (que também remeteu a um dos últimos trabalhos da banda gaúcha) tem letras interessantes. E também porque Olavo é parcimônico e elegante, não age como o gaúcho Thedy, que não pára de falar o tempo todo entre as canções. Os paulistas sentadinhos tocando e Ivan dava uns goles de uisque pros amigos, pedindo pra tocarem em pé “um rock'n'roll com guitarras”...
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