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A noite em que os cariocas viram os três cavaleiros do apocalipse se transformarem em mil e agradarem a gregos, troianos, indies e headbangers.

Foto de Ricardo Nunes/Divulgação

Matt Bellamy

Texto de Liv Brandão

No dia 30 de julho, o Rio de Janeiro foi palco da primeira escala do trio inglês Muse no Brasil. Viajando na turnê de lançamento do CD e DVD H.A.A.R.P, extraído de dois shows que a banda fez no estádio londrino de Wembley em 2007, a banda, formada pelo guitarrista e vocalista Matt Bellamy, o baixista Christopher Wolstenholme e o baterista Dominic Howard aportou ainda em São Paulo (31/07) e Brasília (02/08). Mesmo com o show marcado para o meio da semana - uma quarta-feira, às 22h - e apesar da má fama da acústica do local, o público carioca compareceu em peso e encheu grande parte do Vivo Rio.

O que se via pela pista era a eclética mistura dos fãs da banda se espalhar e vibrar a cada alarme falso vindo do palco à espera da famigerada pontualidade britânica. Às 22h40, a introdução clássica de "Dance Of The Knights" - parte do balé Romeu e Julieta, do compositor russo Sergei Prokofiev - anunciou a entrada da banda, tão ovacionada que já tinha o show nas mãos antes mesmo de começar. Da dança dos cavaleiros à sua chegada à Cydonia foi um pulo. Single do último disco de estúdio, Black Holes and Revelations (lançado em 2006), "Knights of Cydonia" teve seu coro acompanhado pelo público que, apesar da pecha alternativa, não se intimidou pelo jeito metaleiro da canção. Aliás, camisas pretas não faltavam no Vivo Rio. Também, pudera: com influências que vão do clássico ao progressivo, passando pelo metal puro e simples, a música eletrônica e o indie rock, o Muse acaba mastigando tudo e entregando um som que agrada gregos e troianos, indies e headbangers.

Falando em som, como era de se esperar, o Vivo Rio deixou a desejar. O volume relativamente baixo e a falta dos telões laterais - que permaneceram desligados durante todo o show - esfriaram as reações do meio da pista, de onde não dava para se enxergar muita coisa. O suntuoso palco que a banda costuma montar em seus shows na Europa também fez falta. Nada que pudesse comprometer o andamento da apresentação, mas que causava estranhamento em quem já sabia do poder sonoro do trio, acostumado a botar arenas abaixo. Hits absolutos entre os fãs como "Hysteria", "Map Of The Problematique" e "Butterflies and Hurricanes" completaram a metade inicial do show, que já se anunciava mais ágil e mais curto do que no DVD de H.A.A.R.P.

Um dos momentos mais emocionantes da noite foi quando Matt Bellamy deixou a guitarra purpurinada de lado para sentar-se ao piano e puxar a versão de "Feeling Good", famosa na voz de Nina Simone. O público à beira do palco esqueceu a euforia por alguns instantes e contemplou a bela homenagem prestada por seus ídolos a uma das mais importantes cantoras de todos os tempos. A seqüência de baladas continuou com a otimista "Invincible" que, ao ter seu meloso refrão que diz "juntos nós somos invencíveis" executado com imagens de protesto, parecia destoar (e muito!) dos temas caóticos e apocalípticos que permeiam a carreira da banda (e em época de espírito olímpico latente, então...). Riffs certeiros, balões gigantescos, papel picado e fumaça de gelo seco ajudaram a dar o status de grande show de rock que o Muse angariou por suas turnês mundo afora. O circo armado também contribuiu para que o status de banda metal (mesmo que mezzo) fosse definitivamente pregado à banda.

A seriedade do show - assim como no DVD, Matt Bellamy mostrou-se um cara de poucas palavras - foi interrompida pelo clássico "muito obrigado", (esboçado com a língua enrolada dos estrangeiros agradecidos às platéias brasileiras) e com o rascunho do que seria uma bossa nova, seguida por "Time Is Running Out". O show foi encerrado com o primeiro hit da banda em terras tupiniquins: gritado a plenos pulmões pelos que lá estavam, o refrão de "Plug-In Baby" mostrou toda a força que merece ao vivo

No obrigatório bis, a banda voltou para entoar "Starlight". A música de levada quase Princesca (ou seja lá como o ex-queridinho do pop se chame agora) deu um refresco na barulheira distorcida do show, sendo seguida de "Stockholm Syndrome" e "Take a Bow". Naquela quarta-feira, os cariocas que já eram fãs da banda apenas pelos registros sonoros devem ter ficado mais fãs ainda. Como os DVDs da banda já faziam prever, ao vivo o trio cresce tanto - com a ajuda do tecladista Morgan Nichols e dos aparatos tecnológicos - que os três cavaleiros do apocalipse acabam se transformando em mil.


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