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50 anos de bossa nova

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Exposição multimídia e shows antológicos celebram o meio século de revolução na MPB

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Bossa (ainda) nova

Exposição multimídia e shows antológicos de João Gilberto, Caetano Veloso e Roberto Carlos comemoram os cinqüenta anos do movimento que revolucionou a música e a cultura do Brasil

Textos de Rodrigo Browne
Fotos de Bárbara Magalhães

Há 50 anos, em agosto de 1958. chegava na Lojas Assunção em São Paulo um disco emblemático: "Chega de Saudade", de um quase desconhecido baiano chamado João Gilberto. Depois de ouvir a faixa-título de um lado e o baião "Bim-Bom" do outro, o gerente da loja, Álvaro Ramos, não resistiu. Quebrou o disco compacto, indignado com a "porcaria" que os cariocas tinham lhe enviado exclamando: "Por que gravam cantores resfriados?".

Essa história - lembrada pelo escritor Ruy Castro no livro Chega de Saudade - revela uma reação natural a quem estava acostumado com um estilo de cantores brasileiros e que de - de repente - fica sem chão quando se depara com algo absolutamente diferente, uma bossa nova que estava surgindo para revolucionar a música brasileira e que, posteriormente, viria a influenciar uma enorme geração de músicos do Brasil e do exterior.

O Brasil vivia então um período de crescimento econômico fabuloso com a Era JK, a seleção brasileira conquistava na Suécia sua primeira Copa do Mundo de Futebol e com tantas novidades esse estilo musical tornou mais democrático a possibilidade de novos artistas cantarem sem a necessidade da impostação de voz tão comum nos grandes artistas da época de ouro da rádio brasileira.
O baiano João Gilberto mostrava que era possível fazer boa música cantando baixinho, suave e acompanhado apenas de um banquinho e um violão. Somava-se a esse quadro o início de carreira de grandes nomes da música brasileira como Tom Jobim e do diplomata e poeta Vinicius de Moraes - que serviram como régua e compasso para a novidade musical que, sem eles imaginarem, estava começando a conquistar o mundo.

De lá para cá são cinco décadas que consolidaram a moderna batida da MPB. Além dos músicos já citados, no primeiro momento a bossa nova tem nomes fundamentais como Elizeth Cardoso (que gravou "Chega de Saudade" em 58 poucos meses antes mas sem a batida joãogilbertiana), Carlos Lyra, Marcos Valle, Johnny Alf, João Donato, Nara Leão, Roberto Menescal, Zimbo Trio, Oscar Casto Neves, Baden Powell, Newton Mendonça, Silvia Teles, Os Cariocas, Dick Farney entre outros medalhões do movimento.
Posteriormente, na década de 60, uma outra legião de grandes músicos foi influenciada por eles com destaque para Chico Buarque, Joyce, Caetano Veloso, Miúcha, Toquinho, Leny Andrade, Gilberto Gil e Elis Regina, entre muitos artistas que começaram sua carreira musical com os acordes da bossa nova.

DivulgaçãoBodas de Ouro
No cinqüentenário da bossa nova, inúmeras homenagens estão sendo realizadas pelo Brasil. Uma delas se destaca, a exposição Bossa na Oca (Av. Pedro Álvares Cabral, s/ nº, Parque Ibirapuera, São Paulo - SP). O espaço das salas de exposições da Oca preparou uma enorme retrospectiva multimídia do movimento. Com direção de Marcello Dantas, artista responsável pelo Museu da Língua Portuguesa, e do premiado videomaker Carlos Nader, a exposição conta a história da bossa nova e apresentar ao visitante o contexto em que o gênero musical foi criado. Logo na entrada, no térreo, há uma bancada com um desenho que lembra o calçadão de Copacabana que traz uma linha do tempo que imprime todo o retrospecto da bossa.

Nos três andares o público interage com muitos dos recursos tecnológicos de última geração, como jukeboxes com canções da época movidas a sensores e até uma câmara anecóica (sem eco), construída no centro do museu, em que se ouve o próprio coração. "É uma experiência muito interessante sobre o silêncio, tão importante na obra de João Gilberto", diz Zuza Homem de Mello, um dos curadores do projeto.

A praia de Copacabana, onde tudo começou, está reproduzida no subsolo da Oca e se modifica ao longo do dia com efeitos de iluminação. Ao final do percurso, artistas fundamentais do movimento, como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Nara Leão, entre outros, são vistos em uma apresentação virtual feita com ajuda de uma tecnologia conhecida como Eyeliner, semelhante à utilizada pela banda Gorillaz. O grande destaque fica, porém, para uma imensa projeção do mar no teto do museu, que o público pode contemplar deitado em um sofá, ouvindo clássicos da bossa.

Encontro antológico
Entre tantas comemorações para os cinqüenta anos da Bossa Nova, dois shows antológicos, promovidos pelo projeto Itaú Brasil, foram realizados no berço do gênero musical: o Rio de Janeiro, mais precisamente no suntuoso Theatro Municipal.
O primeiro foi realizado na sexta-feira retrasada (22 de agosto), quando Caetano Veloso e Roberto Carlos dividiram o palco para homenagear o maestro Tom Jobim. Os dois artistas de carreiras mais do que consagradas fizeram um show inesquecível alternando composições do maestro em momentos solo (cada um com sua banda) e, ainda, cantando juntos.
O encontro memorável - que vai virar um especial de tevê - começou com um dueto em "Garota de Ipanema" e "Wave". Antes do momento solo de Caetano, o neto do Maestro, Daniel Jobim, cantou a clássica "Águas de Março". Depois, o baiano apresentou pérolas de Tom Jobim: "Por Toda Minha Vida", "Ela É Carioca", "Inútil Paisagem", "Meditação", "Caminho de Pedra" e "O que Tinha de Ser".

Chegou a vez do Rei, que abriu sua parte no show com uma versão em espanhol de "Insensatez". A seqüência foi arrebatadora: "Por Causa de Você", e, depois de uma projeção dele com o maestro cantando "Lígia" (feita para um especial de fim de ano de Roberto na Globo), ele continuou a música de forma emocionante. Seguiram os clássicos "Corcovado" e "Samba do Avião" e o final com "Eu Sei que Vou Te Amar" - com direito no final ao "Soneto de Fidelidade", de Vinicius de Moraes, recitado entre lágrimas.
Caetano voltou para os duetos finais que incluíram a divertida "Tereza da Praia" (originalmente cantada por Dick Farney e Lúcio Alves), "A Felicidade" e "Chega de Saudade". No bis, "Se Todos Fossem Iguais a Você" e, mais uma vez, "Chega de Saudade". O registro do show vai ficar para a posteridade.

Fino da bossa
Se a apresentação de Caetano e Roberto foi excelente, a noite de João Gilberto foi histórica. Irrepreensível do início ao fim, o papa da bossa nova abençoou o público presente no domingo passado, dia 24, com um show perfeito e emocionante, que certamente será lembrado para sempre na história da música brasileira.
Logo no início - com seu protocolar atraso (55 minutos), para o qual ninguém deu bola - João Gilberto começou com uma homenagem ao conterrâneo Dorival Caymmi, recém-falecido, emplacando os sambas "Você Já Foi à Bahia?" "Doralice" e "Rosa Morena". Seu jeito macio de cantar baixinho aos poucos foi invadindo cada canto do teatro silencioso. O respeito obsequioso da platéia agradou o músico que - para surpresa de muitos - estava em um daqueles dias inspirado e, melhor ainda, com muito bom humor.

E o show foi acontecendo. Generoso, ele foi interpretando no melhor estilo voz & violão (que no caso de João fundem-se harmoniosamente de forma indissociável, como se fosse um único instrumento) um vasto repertório que incluía clássicos da bossa ao lado de sambas não tão conhecidos como o ótimo "13 de Ouro" (de Marino Pinto e Herivelto Martins) ou as canções da Sinfonia do Rio de Janeiro "Hino ao Sol"/"O Mar", compostas por Tom Jobim e Billy Blanco. A cada música, um arranjo surpreendente, uma reinvenção de acordes. Como em "Lígia", "Samba do Avião" ou na belíssima "Retrato em Branco e Preto".

Depois de vinte canções, João saiu de cena. Atendendo aos pedidos de bis, ele voltou. E, para surpresa geral, estendeu sua apresentação por mais meia hora. Foi nessa parte que aconteceu um fato fabuloso: João iniciou o clássico "Chega de Saudade". O público começou a acompanhar baixinho a canção, no mesmo tom do cantor (que normalmente é arisco a essas "intromissões"). Mas, ao contrário do que poderia se esperar, ele a-do-rou! Tanto que, após mais duas músicas, ele se virou para a platéia e a convidou a cantar "Chega de Saudade" novamente, com ele tocando e fazendo o contracanto. A sensação foi de um transe coletivo, como em um mantra, que transformou o Theatro Municipal numa espécie de templo da música brasileira.
Sorridente e feliz da vida, ele disparou: "o problema é que agora eu não quero ir embora". Mas foi. Após mais três músicas, João se retirou. O público o aplaudiu de pé durante cinco minutos. Na volta, a caminho de Ipanema, da janela do táxi, eu vi o Redentor... Que lindo!

Set list - João Gilberto
"Você Já Foi à Bahia?" (Dorival Caymmi)
"Doralice" (Dorival Caymmi)
"Rosa Morena" (Dorival Caymmi)
"13 de Ouro" (Marino Pinto / Herivelto Martins)
"Meditação" (Tom Jobim / Newton Mendonça)
"Preconceito" (Wilson Batista / Marino Pinto)
"Samba do Avião" (Tom Jobim)
"Hino ao Sol" (Tom Jobim/Billy Blanco)
"O Mar" (Tom Jobim/Billy Blanco)
"Ligia" (Tom Jobim)
"Caminhos Cruzados" (Tom Jobim / Newton Mendonça)
"Não Vou Pra Casa" (Antonio Almeida / Roberto Roberti)
"Disse alguém" (Seymour Simons / Gerald Marks / Haroldo Barbosa)
"Corcovado" (Tom Jobim)
"Chove Lá Fora" (Tito Madi)
"Nosso Olhar" (Sérgio Ricardo)
"Wave" (Tom Jobim)
"De Conversa em Conversa" (Lucio Alves/Haroldo Barbosa)
"Desafinado" (Tom Jobim / Newton Mendonça)
"Estate" (Bruno Martino e Bruno Brighetti)
"Isto Aqui o Que é?" (Ary Barroso)
(Bis)
"Aos Pés da Cruz" (Marino Pinto / Zé da Zilda)
"Da Cor do Pecado (Bororó)
"Retrato em Branco e Preto (Tom Jobim / Chico Buarque)
"Você Não Sabe Amar" (Dorival Caymmi)
"Tim Tim por Tim Tim" (Haroldo Barbosa/ Geraldo Jacques)
"Chega de Saudade" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
"Garota de Ipanema" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
"O Pato" (Jayme Silva / Neusa Teixeira)

Ícones da bossa
Camara fotográfica Rolleyflex:
A canção "Desafinado" faz o maior merchandising do produto (sem que os autores tenham recebido nado por isso) nos versos "Fotografei você na minha Rolleyflex/ Revelou-se a sua enorme gratidão".

Banquinho, violão e... os joelhos de Nara: A forma de cantar consagrou o estilo "um banquinho, um violão, um amor , uma canção". Ainda mais quando essa música ("Corcovado") foi cantada pela musa da bossa, a cantora Nara Leão, com suas saias curtas que deixavam à mostra seus belos joelhos.

O calçadão de Copacabana: Um dos símbolos do Rio de Janeiro, berço do movimento musical (para desespero eterno dos paulistas). De lá dá para ver o "barquinho" em uma manhã de sol.

Helô Pinheiro: Hoje ela tem 63 anos de idade, mas continua a eterna Garota de Ipanema cantada por Tom Jobim e Vinicius de Moraes em uma das canções mais gravadas de todos os tempos, em todo o mundo.

Cristo Redentor: De braços abertos sobre a antiga Guanabara, ele foi o "muso inspirador" de três clássicos da bossa: "Samba do Avião", Corcovado" e "Carta ao Tom 74".


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Comentarios (1)Add Comment
122
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escrito por Camila Nicolellis, 02 de setembro de 2008
É mais fácil ver o Roberto Carlos vestido de punk do que o João Gilberto bem humorado... Inédito!

Esses shows devem ter sido maravilhosos, mas acho que tem artistas que representariam mais a bossa nova do que Roberto Carlos...

Enfim... Viva a Bossa-sa-sa!!!

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