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Depois de ver a banda rachar e ficar à deriva, Dary Jr resiste e recomeça com pequenos passos

 

Dary: só ensaios e gravações ao vivoTexto por Abonico R. Smith e Felipe Gollnick

Fotos de Douglas Fróis/Divulgação

 

Dary Jr é um herói da resistência. Faz questão de nortear tanto a música quanto a profissão de jornalista de acordo com seus ideais. Compra briga com peixes grandes, contou com diversos músicos (temporários ou não) na formação de suas bandas, dá declarações sem muitas papas na língua. Se por um lado suas atitudes acabam imputando a ele uma pecha de badboy do rock alternativo nacional, também garante ao seu Terminal Guadalupe uma independência sem par dentro até mesmo do cenário independente. E garante também uma certa atitude rock’n’roll com bandeiras que o mesmo já parece ter perdido há tempos: a de questionar o estabelishment e a de quebrar barreiras e romper dogmas.

 

Dary também resistiu ao ver seu TG se esfacelar exatamente um ano atrás. Reergueu–o das cinzas diante de uma situação que parecia impossível de ser revertida. Afinal, ao mesmo tempo em que recebia o convite para integrar a escalação do festival Curitiba Calling (realizado no último final de semana de março, composto por 40 shows e que o Mondo Bacana transmitiu na íntegra ao vivo), ele ficava sozinho no barco, com o “abandono” simultâneo de seus quatro companheiros de banda – inclusive o parceiro e guitarrista Allan Yokohama, com quem dividia o comando artístico e executivo. Tal fato, além de ter caído como uma bomba durante o festival, ainda suscitou sonoras comemorações por parte de muita gente na platéia espalhada pelo 92 Graus.

 

Mas tão na surdina quanto o seu fim repentino veio a ressurreição do Terminal Guadalupe. Meses depois, Dary já acertava ensaios com uma trupe de jovens músicos de outras bandas de Curitiba e São Bento do Sul (SC). Até que em novembro, a banda celebrou a volta aos palcos e às atividades musicais com nova formação e um show no Guairinha, na capital paranaense. Este concerto foi gravado e dele saíram quatro faixas que compõem o mais novo EP da banda. Chamado O Explorador de Telhados, o disco dá seqüência à série de lançamentos apenas virtuais do TG. Acabou de ser disponibilizado no último mês de março, com um show de lançamento no Rio de Janeiro e a apresentação do quinteto no projeto Mondo Bacana Apresenta, realizado mensalmente na FNAC Curitiba.

 

São quatro faixas ao vivo, todas extraídas daquela noite no Guairinha. “Chamar de EP é uma licença poética. Na verdade, diria que é um single. Afinal, só ‘O Gongo’ é inédita”, explica Dary. “ ‘O Gongo’ é sobre lidar com perdas, amadurecer e seguir em frente. Não importa se você foi demitido ou levou um fora, há sempre  contas a pagar.”. Para o vocalista, a letra dialoga com “Chico Balboa”, música da última safra da formação antiga, na perspectiva da resistência. “Tema, aliás, recorrente no Terminal Guadalupe. Em ‘Tambores’, faixa do segundo álbum, eu já dizia que ‘sobreviver é insistir’.”

 

Já “Sal de Fruta” é uma versão do clássico da Poléxia, banda que, por sinal, foi a primeira a acompanhar Dary quando este montou o TG. “Ela foi gravada porque o Dudu, autor da música, achava a nossa releitura definitiva. Misturamos punk, heavy metal e conseguimos um resultado pop.”

 

Outro destaque “antigo” do disco é “Burocracia Romântica”, música resgatada da fase inicial do TG. “É um bônus. Entrou porque foi eleita uma das três melhores canções do rock curitibano da década. A introdução é nova e também há trechos da letra de ‘Ok Ok’, do Violins, banda goiana da qual sou fã.”

 

A atual formação do TGOutras prioridades

No entanto, este retorno do Terminal Guadalupe – aguardado para muitos, surpreendente para outros tantos – está sendo feito de forma mais lenta. Com o nascimento de seu primeiro filho e o inevitável avançar da idade, o vocalista já não prioriza mais o way of life natural de uma banda de rock. Impasse este, aliás, que gerou a ruptura do TG em março do ano passado. “Eu queria mais tempo para passar com o Francisco. Os outros integrantes queriam mais tempo para a banda. Aí, rachou... Mas com o passar do tempo, encontrei quem compreendia a minha realidade de pai de família assalariado e pude retomar a banda.”

 

Por enquanto Dary só voltou ao estúdio para ensaiar. “Os próximos trabalhos devem ser lançados assim, com gravações ao vivo, por questões práticas, especialmente financeiras. Como estou com ótimos músicos, me sinto seguro para gravar nos próprios shows. Faço minhas canções por necessidade e porque acredito ter algo a dizer.

 

Mas será que foi difícil reestruturar o Terminal e criar uma nova unidade? “Tive certo receio porque os novos integrantes são bem mais jovens. Mas eles já conheciam a banda e se sentiram prestigiados. Fica mais fácil trabalhar com quem gosta do que faz e valoriza as oportunidades”, garante ele sobre os novos escudeiros. O guitarrista Cláudio Farinhaque, com quem já tocara por um curto espaço de tempo doze anos atrás, foi o primeiro a entrar – por indicação de Bruno Sguissardi, homem das cordas do Anacrônica. “O Cláudio conversou comigo, sacou o perfil e logo trouxe os novos integrantes: seu irmão Phill (bateria), Diogo Roeser (baixo) e Dartagnan Filho (teclados)”. Vale lembrar ainda que guitarra, baixo e bateria já tocavam juntos em São Bento sob o nome de Monólito – aliás, um power trio bastante ardido e pesado, que também prepara repertório para seu primeiro disco.

 

Turnês pelo país estão fora de cogitação para Dary. “Isso é algo fora da minha realidade. Tenho filho pequeno e mãe doente para cuidar. Como ninguém paga as minhas contas a não ser eu mesmo, preciso eleger prioridades. Pagar para tocar não é uma delas. A novidade é que pelo menos voltamos a percorrer outras cidades de vez em quando. Estivemos em março no Cinemathèque, no Rio de Janeiro, neste mês, e vamos regressar a São Paulo, onde já temos shows e gravações de programas agendados. Belo Horizonte também está na mira, assim como o interior do Paraná. Mas tudo será feito com calma, uma que estamos marcando bem poucos shows na agenda da banda”. No máximo, garante Dary, será uma viagem por mês, “sem ameaçar empregos e orçamentos domésticos. Estou mais leve, livre daquela pressão de ser ‘a banda que vai estourar’. Isso, agora, é com a Anacrônica. E eu boto fé neles.”

 

Contudo, há quem ainda pense que o Terminal Guadalupe acabou. “É só um recomeço”, finaliza o herói da resistência.

 


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