Arquivo
Yeah Yeah Yeahs
Escrito por Abonico Sáb, 18 de Abril de 2009 22:28
Twittar este Artigo
Trio aposta na revolução e acerta ao substituir a predominância da guitarra pelos sintetizadores
Texto de Abonico R. Smith
Fotos de Divulgação
Garante o dito popular que sempre depois da tempestade vem a bonança. Para o Yeah Yeah Yeahs, o provérbio não só está corretíssimo como ainda chegou para levar o trio ao encontro da convergência entre a estabilidade emocional e a superação criativa. Depois de fazer dois álbuns tão explosivos quanto irretocáveis e quase implodir no processo do rito de passagem de um para o outro, eis que o tempo entrega de bandeja sua grande sabedoria. Com este eterno sábio veio junto a maturidade suficiente para que os músicos entendessem de vez que o conjunto supera o ego em qualquer disputa pela palavra-chave da linha evolutiva. Karen O, Nick Zinner e Brian Chase, enfim, puderam fazer justamente aquilo que (quase) nenhuma outra grande banda no mundo faz ao ultrapassar meia década de uma intensa trajetória vivida entre palcos, estúdios, entrevistas, aeroportos, estradas e quartos de hotel.
Se os nervos à flor da pele e o destempero emocional marcaram o difícil parto de Show Your Bones, há três anos, também serviram como uma dura lição para Nick e Karen se despojarem o suficiente para poderem se reinventar logo adiante. Agora há um outro sistema co-operacional, testado durante as sessões de gravação do novo disco. Ele tem como centro, claro, a relativamente inabalável calma de Brian, o elemento da trinca mais impassível diante de tensões e conflitos.
“Aprendemos a não levar mais nada para o lado pessoal quando alguém discorda de suas idéias”, confessou a vocalista em recente entrevista ao semanário britânico New Musical Express. “Acredito que é justamente por isso que a maioria das bandas se separa. Quando você faz parte de uma, tem de raciocionar uma maneira de trabalhar coletivamente. Dentro do estúdio é muito fácil se aninhar em seu próprio ego mas ainda assim é preciso lembrar que você pertence a um coletivo. Existe algo em nós três que é mágico. Nenhum de nós pode fazer sozinho o que fazemos juntos. Eu e Nick somos nervosos e obsessivos. Brian nos iguala, ele é a nossa rocha.”
Novos caminhos
Os três não só solidificaram a sobrevivência dos fortes laços de amizade e afeição entre eles – mesmo com o fato de Karen ter “abandonado” Nova York cinco anos atrás para morar em Los Angeles – como ainda deram aos fãs aquilo que andava parecendo improvável: um terceiro álbum tão bom quanto os dois anteriores. De cara, It´s Blitz (que chega agora ao Brasil mas teve seu lançamento no exterior antecipado em um mês por causa do vazamento na internet no começo deste ano) justifica o nome e a foto da capa. Pega os mais desavisados de surpresa, com a mesma rapidez de um relâmpago ou o esmagar de um ovo com a mão. O choque acaba sendo inevitável. “Sintetizadores? Cadê as guitarras maravilhosas de Zinner?”, muitos devem ter se perguntado ao ouvir as dez faixas que compõem o novo trabalho.
Não basta muito para que caia a ficha de um novo decreto: está formado um novo Yeah Yeah Yeahs. Agora com as guitarras em segundo plano – elas ainda estão lá, bem discretas nos arranjos, agora muito focados nos teclados. A mudança radical – proposta por Karen e pelo produtor Dave Sitek, que acompanha a banda desde as primeiras gravações da carreira, justamente em nome da abertura de novos caminhos – pegou todo mundo de surpresa, inclusive Nick. “Fui levado a isso”, confessou ao NME o músico de cabelos eternamente eriçados, considerado um dos melhores do mundo em seu instrumento. Ao contrário do que poderia parecer, entretanto, ele não parece muito desanimado, não. Pelo contrário: os novos caminhos sonoros levaram-no a um então desconhecido estado de excitação. “Fui muito encorajado a mudar e evoluir. É bom mostrar-se aberto a experimentar novidades, propor-se a ver o resultado que dará antes de se negar a fazer algo”.
Para dar uma atenção aos novos timbres feitos através do sintetizador (o que significa a introdução de um elemento até então bem pouco presente nos arranjos do YYY, as linhas de baixo), banda e Sitek convocaram a ajuda do engenheiro de som e também produtor Nick Launay. O veterano inglês – que tem em seu currículo trabalhos com ícones do pós-punk (Birthday Party, Killing Joke, PiL, Gang Of Four, Church), alt-rock de ontem (Posies, Silverchair, Girls Against Boys, Semisonic) e hoje (Maximo Park, Cribs, Arcade Fire, Mystery Jets) e adora meter a banda em uma mesma sala do estúdio tocando junta o maior tempo possível durante as gravações – mostrou-se uma peça adicionada em boa hora. Afinal, ajudou a captar toda a energia que trio sempre teve como ainda revelou-se fundamental na construção da nova sonoridade que iguala peso e groove em importância.
Rainha de Copas
“Zero”, single que abre o álbum, é matador e resume a quê veio o novo YYY. Embalado por teclados que substituem à altura o peso das guitarras, o hit nato apresenta ao mundo Karen O cada vez mais poderosa, agora envolta no couro preto e centenas de tachas prateadas da jaqueta apelidada de The Jacket. “Você é um zero/ Qual o seu nome?, ninguém irá perguntá-lo/ Melhor descobrir para onde querem que você vá”, sentencia, quase soberana, para embarcar na fantasia de Rainha de Copas logo adiante. “Heads Will Roll” transporta para as pistas de dança espasmos de loucura, agressividade e impulsividade, sem deixar o quadril parar de chacoalhar. A vocalista, expert em incorporar personas bizarras, agora se diverte dançando ao som do corte de cabeças sem dó nem piedade. Alice, eu, você e todo mundo, não há como não se jogar sem parar neste tão particular país das pistas de dança.
Já “Shame and Fortune” tenta sinalizar uma pequena e salutar escapada para o formato sonoro ao qual os fãs se acostumaram com o Yeah Yeah Yeahs. O “antigo” instrumento de Nick esboça uma reação detonando sobre um suave loop percussivo um forte ciclo de três notas, mas logo vêm o sintetizador para mostrar quem é que realmente está mandando hoje em dia. E se o YYYs está com a cabeça tão voltada assim para o eletrônico e o groove das pistas de dança, “Dragon Queen” confirma o quanto de Debbie Harry Karen O tem no sangue. A mais descarada faixa dance deste álbum soa como um Blondie circa 1983, com direito a guitarrinhas funky, vocais sussurrados (em contraste com os backings graves de Tunde Adebumpe, companheiro de Sitek no TV On The Radio) e a batida emprestada dos guetos do hip hop roots de Nova York.
Entretanto, a verdadeira beleza do novo Yeah Yeah Yeahs está reservada para aquela metade das faixas que seria uma espécie de lado B do álbum, mesmo não estando todas necessariamente ordenadas no final de It´s Blitz. Através de efeitos, linhas melódicas repetitivas (formadas por letras quase sempre de versos curtos, diretos e de aparente nonsense) e alguns estacatos de voz e piano, o trio revela o quão sublime pode ser nas novas baladas – não por acaso quatro delas ganharam uma releitura acústica (até com arranjo de cordas) para servirem de bônus à edição deluxe norte-americana. Entre os temas, coragem (“Soft Shock”, uma espécie de resumo estiloso da atual fase); amor (“Hysteric”, perfeita para quem ainda duvida que Karen encanta ao cantar); frustração (“Runaway”, idem); desejo (“Skeleton” e seus versos compostos quase todos no imperativo); e liberdade (“Little Shadow”, pela terceira vez um épico pop dando aquele final grandioso a um disco do trio).
It´s Blitz, por sua vez, também reflete claras mudanças no comportamento dos três músicos. Para um certo conforto de Nick, talvez, seus dois colegas também precisaram se conter – e também acabaram por fazer um excelente trabalho. Brian, exímio em suas quebradeiras free jazz, diminuiu a constância delas para se encaixar no perfil mais dançante traçado pelo conjunto das novas obras. Já Karen pela primeira vez apenas canta em um disco (o que torna seus vocais ainda mais belos e encantadores) e passa a brincar docemente com alguns novos maneirismos entre suas palavras fortes e frases aparentemente sem muito sentido. Nick, por sua vez, adaptou as seis cordas a papéis secundários nos arranjos, desenhando linhas que se sobrepõem às camadas de texturas sintetizadas.
É, reforçar os lados do ritmo e da melodia e revolucionar as hamronias definitivamente fizeram bem ao Yeah Yeah Yeahs.
- 03/05/2009 22:58 - Pearl Jam
- 03/05/2009 00:34 - Guizado
- 29/04/2009 00:07 - B-52´s - Ao vivo
- 20/04/2009 00:25 - Kiss - Ao vivo
- 19/04/2009 00:46 - Cérebro Eletrônico
- 10/04/2009 01:08 - Heavy Trash
- 07/04/2009 01:07 - Kurt Cobain
- 03/04/2009 02:07 - Jon Spencer

| < Anterior | Próximo > |
|---|





