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Pearl Jam

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Álbum sobre as dores e cicatrizes da saída da adolescência, Ten completa 18 anos com reedição de luxo

O Pearl Jam cabeludo e grunge de 1991Texto de Carlos Eduardo Lima

Fotos: Reprodução

 

Há um momentum na história do rock que marca o aparecimento do segundo disco do Nirvana, Nevermind, em 1991. Talvez este seja um dos últimos acontecimentos do rock como ele costumava ser, movimentando mídia, gerando tendências, questionando, mudando o mundo. Por mais ingênuo que isso possa parecer, a chegada do Nirvana às paradas foi o último caso de gente absolutamente desavisada e despreocupada com a fama e a grana subindo ao degrau mais alto do podium, para ganhar... fama e grana. O despreparo era tanto que Kurt Cobain não suportou o status de rockstar e estourou seus miolos em 1994.

 

Talvez ele não precisasse ir ao extremo definitivo. A resposta para essa questão estava lá, no mesmo ano de 1991, quando o Nirvana apareceu para o mundo via MTV. Bem, não só ele, mas os chamados "quatro grandes" de Seattle, os arquitetos do que se chamou grunge: Alice In Chains, Soundgarden, o já citado Nirvana e o Pearl Jam. De todas essas formações, por motivos distintos, o PJ é a única ainda em atividade, talvez pela tal habilidade que Cobain não teve: sobreviver à fama e a superexposição do estrelato rock.

 

E o Pearl Jam tinha princípios, não aceitou fazer clipes – além do único single do disco, "Jeremy" e de "Oceans" – não topou os caminhos fáceis da MTV, além, claro, do protocolar Unplugged (que nunca foi lançado como CD ou DVD pela banda até 2009) e procurou se preservar das capas de revistas de celebridades. Era meio complicado, porque seu primeiro disco, Ten (1991), foi um dos mais bem sucedidos álbuns de estréia da história do rock, facilmente um dos melhores trabalhos da década de 1990 e responsável por permitir que o tal grunge fosse, hum, popularizado. Fácil de entender: o Nirvana era um trio punk de gente estranha; o Alice In Chains era depressivo e metálico demais; o Soundgarden era uma banda com pouquissíma habilidade em compor canções com o tal acento pop, ainda que preservassem o peso.

 

Ten trazia o acento pop sem perder o pesoO Pearl Jam estava mais próximo do hard rock setentista, do classic rock, além de ter em suas fileiras músicos bastante competentes, principalmente os guitarristas Mike McCready e Stone Gossard, os arquitetos da sonoridade nova que chegava às paradas. Sim, o Pearl Jam frequentou as paradas de sucesso assiduamente entre 1991 e 1997 e sua permanência ali não se devia apenas ao entrosamento Coutinho/Pelé de McCready/Gossard. Eddie Vedder, o vocalista, compositor e ex-frentista que emprestou o rosto e a voz para a banda era a pessoa certa na hora certa. Dono de um estilo originalíssimo – e muito imitado a partir daí – Vedder dava credibilidade ao que cantava e tornava o Pearl Jam quase acima de qualquer suspeita.

 

A chegada de Ten aos braços do povo só se deu após o estouro de Nevermind, ainda que seja extremamente superior. Ten possui canções elaboradíssimas, composições sinceramente torturadas, que abordam temas barra-pesada, desde suicídio infantil e uso indiscriminado de armas, passando por solidão, incapacidade de comunicação com o resto do mundo e questionamentos mil. Vedder cantava tudo isso com a sinceridade exigida, o pesar e as cicatrizes necessárias. A sobrevida da banda só fez tornar a experiência mais real, como as pessoas que sofrem os infortúnios do dia-a-dia e seguem vivendo, menos risonhas, alienadas ou otimistas.

 

Ten não era um disco otimista ou ufanista, era uma inevitável porrada na falta de expectativa da geração que chegava aos 20 anos no início dos anos 90, entrando na maturidade em um mundo que era diferente de tudo que havia sido previsto ou lido nos livros de história. Nada de suicídio ou alienação. Como dizia Belchior, "a alucinação maior era suportar o dia-a-dia" e tudo que estava contido em Ten dava conta disso. Além de "Jeremy", vieram "Alive", "Black", "Even Flow", todas transformadas em sucesso nas rádios ou MTV. E belas canções como "Why Go" ou "Porch" permaneceram como favoritas pessoais, queridas apenas dos chamados die-hard fans da banda.

 

Capa da reedição do álbum de estréiaRevisão da carreira

Hoje, 18 anos após tudo isso, o Pearl Jam inicia os preparativos para comemorar seus 20 anos de carreira, em 2011. Estão previstos os relançamentos de todos os trabalhos da banda, de Ten (1991) a Pearl Jam (2006), em versões ampliadas, remasterizadas e, talvez, com faixas-bônus. O "talvez" se deve ao fato do Pearl Jam ter lançado em 2004 a compilação dupla Lost Dogs, na qual concentrou praticamente todas as canções que nunca apareceram em seus discos.

 

Se esses relançamentos mantiverem a qualidade das edições múltiplas que Ten ganhou por conta da ocasião especial, os cofres dos fãs precisarão de reforço. O primeiro disco da banda aparece em três formatos, todos irresistíveis à sua maneira.

 

A versão Legacy Edition traz Ten remasterizado e um disco-bônus com remixes assinados por Brendan O'Brien. Explica-se: O'Brien produziu todos os trabalhos do Pearl Jam, exceto Ten, e não é absurdo pensar o que ele poderia ter feito com as canções do disco, principalmente se levarmos em conta que a produção original, a cargo de Rick Parashar, é bem sem sal. Cinco faixas-bônus completam o tracklist, com destaque para a demo de "State Of Love And Trust", quase uma faixa honorária de Ten, gravada para a trilha sonora do filme Singles – Vida de Solteiro, de Cameron Crowe.

 

A versão DeLuxe Edition acrescenta um DVD ao pacote, contendo a íntegra do famoso (e altamente pirateado) MTV Unplugged, gravado em 1992, com aúdio 5.1 e a inclusão de "Oceans", que não foi ao ar pela emissora americana.

A versão Collector's Edition, senhoras e senhores, abre um precedente gravíssimo para os pobres fãs. Nunca um disco foi tão esmiuçado e o tal momentum a que me refiro no primeiro parágrafo deste texto foi tão celebrado. A nostalgia palpável, daquelas coisas que se ouviu ou viu falará mais alto aqui. Além do DVD e dos dois CDs, a caixa traz os conteúdos destes em quatro LPs, incluindo aí o inédito show Drop In The Park, gravado no Magnusson Park em Seattle, em 20 de setembro de 1992, com nove canções de Ten e mais "State Of Love And Trust", todas remasterizadas pelo mesmo Brendan O'Brien.

 

Além disso, como se não fosse o bastante, temos a réplica da famosa Momma-Son, a fita cassete que trazia os rascunhos instrumentais de "Alive", "Once" e "Footsteps" e que foi dada a Eddie Vedder pelo então baterista Jack Irons. Esta fita foi a responsável pelo ingresso de Vedder na banda, pela mudança do nome de Mookie Blaylock (um armador da NBA da época) para Pearl Jam. Temos também um caderno de letras estilizado, contendo os primeiros rabiscos de Vedder à frente do quinteto e ainda um flyer do tal concerto Drop In The Park. Nem mesmo a bagatela de 150 dólares deverá espantar os fãs fiéis da banda nesta empreitada.

 

Com o afago do tempo, Ten permanece impávido colosso e símbolo augusto de um tempo ido no rock. Sua sinceridade e ingenuidade permanecem cativantes, em forma de canções que se tornaram hinos em estádios, quartos e mentes de milhões de pessoas ao redor do mundo. Tudo isso foi desnudado nessas edições comemorativas e nada parece extravagante ou desnecessário nelas. Pelo contrário, o prazer proporcionado por reencontrar momentos perdidos nessas músicas e imagens é mais forte que a grana e a fama que a própria banda deixou em segundo plano.

 

>> Resenha gentilmente cedida pelo Portal RockPress


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