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Kurt Cobain
Escrito por Abonico Ter, 07 de Abril de 2009 01:07
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Por que o mundo tornou-se um lugar muito mais legal graças ao músico que morria há quinze anos
Texto de Abonico R. Smith
No dia 5 de abril de 1994, Kurt Cobain, fugido de uma clínica de desintoxicação e escondido do mundo e de todos na estufa de sua própria casa em Seattle, escrevia com uma bala de espingarda o último capítulo de sua turbulenta e polêmica história de som e fúria, que mudou de forma, radical, contundente e irreversível o destino do rock´n´roll nos anos finais do século que o viu nascer. Somente três dias depois seu corpo seria descoberto, meio que por acaso, através de um eletricista chamado para fazer consertos em frente à residência do músico. Então, os dias que se seguiram viram um funeral planetário cercado de dor, tristeza e uma dúvida eterna do porquê de tudo ter acabado mesmo daquele jeito.
O suicídio que até hoje divide o planeta entre a saudade e as boas lembranças daquele garoto que mudou o mundo sem necessariamente ter desejado isto para a sua vida completou no último domingo uma década e meia. Para marcar esta semana especial, o Mondo Bacana diz seu “muito obrigado por tudo” ao vocalista do Nirvana relacionando quinze razões porque a vida nunca mais foi a mesma depois que Cobain formou a banda que encabeçou a maior revolução juvenil vinda dos porões e ruas chuvosas da cidade americana de Seattle.
15) MTV Unplugged In New York
Dizer que este foi o Acústico que mais saiu dos padrões deste formato de programa inventado pela MTV é chover no molhado. Afinal, qualquer um sabe que tudo foi gravado de primeira, sem qualquer “maquiagem de edição” de áudio e vídeo, e Kurt ainda se recusou a reler ao violão os maiores hits da banda (exceção feita a “Come As You Are”, “jogada” logo no início do set) e escolheu pérolas do repertório que até então não haviam sido tão descobertas pelo público. De quebra, resgatou canções obscuras alheias, como três dos amigos/ídolos do Meat Puppets (chamando os irmãos Kirkwood para juntar-se a ele no palco) e uma da dupla escocesa Vaselines. Para terminar, revelou a aproximação com o folk e o blues que poderia ter acontecido em sua carreira – dentro ou fora do Nirvana – caso na tivesse se matado. Mas o que mais impressiona é o fato do próprio Cobain ter organizado o palco com muitas flores e velas acesas, como se fosse uma antecipação de seu próprio funeral. Isso apenas três meses antes de sua morte.
14) Vaselines
Eugene Kelly trocava correspondências com Kurt Cobain e mandava a ele as gravações toscas que comandava na cidade de Glasgow, ao lado da parceira Frances McGee. A banda fazia um blend tão perfeito de psicodelia garageira e pop naïve que não tardou a cair no gosto de Cobain. Tamanha era a predileção do guitarrista pelos escoceses que o Nirvana lançou em seus compactos para a Sub Pop duas músicas deles, “Molly´s Lips” e “Son Of A Gun”. O sucesso comercial do Nirvana levou à inclusão destas gravações na coletânea de raridades Incesticide e ao lançamento oficial do primeiro e único álbum dos Vaselines, a compilação de singles e EPs The Way Of Vaselines: A Complete History.
13) Novos heróis do underground
E essa história não se resume aos Vaselines. Afinal, o que seria de bandas como Melvins, Meat Puppets ou Shonen Knife não fosse a adoração pública de Cobain por estas bandas então conhecidas por apenas alguns gatos-pingados frequentadores do underground. Eis que o mundo, através dos ouvidos e do coração do líder do Nirvana, começou a perceber que o rock alternativo era muito mais rico e interessante do que qualquer incauto poderia imaginar. Detalhe: todo esse oba-oba em torno dos brasileiros Mutantes no exterior também começou graças ao culto silencioso de Kurt.
12) Sem gênero
Todas as barreiras e preconceitos relacionados ao gênero foram demolidas por Kurt Cobain, que se orgulhava de ter uma irmã lésbica, adorava se vestir de mulher (tome como exemplo um dos clipes de “In Bloom” e os históricos shows feitos no Brasil em janeiro de 1993) e espalhava aos quatro ventos ter alma completamente feminina. Ele provou que intensidade e contundência no mundo do rock´n´roll nada tem a ver com o elevado nível de testosterona nos corpos masculinos e que sensibilidade à flor da pele não possui qualquer interdependência com identidade ou orientação sexual.
11) Bleach
Tudo custou 606,13 dólares para o pequeno selo/loja de Seattle de nome Sub Pop – e exatamente por causa disso este deve ter sido o álbum de estréia de um artista mais rentável em toda a história do rock. Concebido no estúdio caseiro de Jack Endino em poucos dias, o disco revelou que por trás de todo o jorro de barulho do Nirvana havia uma bela alma musical pulsando. Afinal, entre petardos de influência dividida entre o punk e o metal (como “Blew”, “Downer” e “Negative Creep”) estava lá também uma melódica balada de amor feita em tom menor (!!!) como “About A Girl”. Foi o que bastou para que uma grande gravadora como a Geffen contratar o trio, que embora ainda desconhecido no resto dos Estados Unidos, começava a gerar burburinho no circuito musical de Seattle e cidades vizinhas como Olympia e Aberdeen. Com a venda do passe do trio, a Sub Pop embolsou uma indenização de 75 mil dólares e ainda uma pequena porcentagem na venda dos dois álbuns já feitos pela nova gravadora (a saber: Nevermind e In Utero).
10) Sub Pop
Gravadora/loja independente de Seattle que completa vinte anos de existência em 2009. Tudo começou quando o zineiro Bruce Pavitt fundou uma micropublicação chamada Subterranean Pop, dedicada a resenhas e entrevistas de bandas de rock alternativo e que também lançava cassetes e compatcos em vinil com as obras dos mesmos artistas. Em 1987, Pavitt juntou-se a Jonathan Ponemann e a dupla expandiu os negócios, passando a contratar os principais ícones do underground de Seattle e arredores. Foi assim que bandas como Green River (embrião do Mudhoney e do Pearl Jam), Soundgarden, Nirvana começaram a ganhar destaque na imprensa especializada até a bola de neve crescer e o logo em preto e branco do selo virar sinônimo de um certo “som de Seattle” logo rebatizado de grunge. Nestas duas décadas de trajetória, a grife Sub Pop projetou em todo o planeta nomes como Sebadoh, Afghan Whigs, Seaweed, Reverend Horton Heat, Postal Service, Sunny Day Real Estate, L7, Velocity Girl, Tad, Hellacopters, Supersuckers, Low, Hot Hot Heat, Shins, Wolf Parade, Flee Foxes e até os brasileiros Cansei de Ser Sexy.
9) Dave Grohl
Convocado às pressas para ocupar o posto de baterista que volta e meia ficava vago no Nirvana, este ex-músico de hardcore era a peça que faltava para completar o Nirvana logo antes das gravações que deram origem ao álbum Nevermind. Então, o trio não só passou a contar com um instrumentista habilidoso e multifacetado (que ainda fazia vocais de apoio e se dividia entre o baixo e a guitarra quando necessário) como Kurt ganhou mais um amigo do peito e o terceiro vértice de sua relação com o baixista Krist Novoselic. Com a morte do guitarrista, Grohl herdou todo o séquito de fãs ao formar o Foo Fighters.
8) O melhor dos discos do Hole
Courtney Love nunca vai admitir oficialmente, mas Live Through This, álbum lançado meses depois da morte de Kurt Cobain, deve muito ao seu marido. Reza a lenda que Courtney teria usurpado várias canções de Kurt para trabalhá-las sob seu nome e à frente de sua então banda, o Hole. A principal das evidências é uma faixa perdida do Nirvana chamada “Asking For It”, lançada cinco anos atrás no box-set With The Lights Out. Love, em contrapartida, sempre se defendeu destas acusações contando que o próprio Cobain recusara seu pedido autorização para “ficar” com “Heart-Shaped Box” quando ainda estava compondo a música trancado no closet do casal.
7) Temas polêmicos
Aborto nos versos de “Pennyroal Tea”. Estupro na nem tão explícita assim “Rape Me”. Síndrome de Tourette (desordem neurológica caracterizada por movimentos repentinos e tiques involuntários) em “tourette´s”. Só Kurt Cobain para ter coragem de cutucar feridas profundas da sociedade justamente no álbum sucessor do multiplatinado Nevermind. Qualquer outro popstar que tivesse passado por toda aquela mesma ascensão meteórica poderia se sentir intimidado em abordar temas tão pesados como estes. A conservadora sociedade norte-americana, lógico, mostrou suas garras, protestou e boicotou o disco In Utero.
6) In Utero
Só pelas canções descritas acima In Utero já garantiria sua entrada na galeria dos maiores discos dos anos 90. Contudo, a trinca – aproveitando a produção de Steve Albini e as apresentações com mais um guitarrista, o ex-Germs Pat Smear – foi além e fez um disco tão impactante quanto os anteriores. Aqui, a crueza cedeu um pouco mais de espaço à elaboração. Guitarras dedilhadas, vocais mais trabalhados e letras tão poéticas quanto as “Heart-Shaped Box” e “Serve The Servants” indicavam que o Nirvana era algo muito muito muito além do que aqueles monolitos de metal e punk que devastaram o mundo sob os nomes de Bleach e Nevermind. Pena que até a gravadora dos caras se chocou com a versão original e, em nome da garantia da permanência das altas vendagens, fê-los dar aquela suavizada no resultado final. Depois não houve mais tempo para o mundo conhecer o verdadeiro estágio da banda.
5) “Lithium”
Metal alcalino ao qual milhões de pessoas passaram a decorrer durante o século 20 para tratar a depressão e o transtorno bipolar e ainda controlar impulsividade e agressividade exageradas. Só mesmo Kurt para compor um hino em homenagem ao estabilizador de humor mais usado na psiquiatria e transforma-lo em tema principal de um clássico contemporâneo do rock´n´roll.
4) Barulho e melodia
Fã de Beatles desde os primeiros anos de vida, Cobain sempre perseguiu uma alquimia sonora que pudesse conservar a beleza melódica apreendida de seus primeiros heróis da música com toda a combustão de fúria e revolta acumulada durante os anos de sua infância e adolescência mergulhada no gosto pelo punk e no circuito da música underground. Não tardou muito para conseguir o ponto de fusão exato aprimorando a receita inventada pelos Pixies anos antes: a sucessão entre estrofes de calmaria melódica e refrões de pura explosão.
3) Nevermind
Se Bleach foi apenas um ensaio para a fama, Nevermind foi a grande mola propulsora para o mega-estrelato. Na surdina, no já longínquo ano de 1991, o Nirvana chegou em questão de semanas aos mais altos degraus da parada mundial. O Zé Ninguém acabou desbeancando nas vendagens todos os principais astros da música pop época, entre eles U2, Michael Jackson e Guns N´Roses. O disco gerou hit atrás de hit e até mesmo faixas ignoradas pelo hit parade da época transformaram-se
2) “Come As You Are”
Aqui o significado do título vale mais do que a própria canção – por sinal um dos grandes clássicos do Nirvana, mesmo tendo as linhas de baixo e guitarra escandalosamente chupadas de uma música do Killing Joke. Afinal, a despeito de todas as (falsas) acusações sofridas por parte da grande mídia, Kurt Cobain nunca deixou de ser ele mesmo durante todo o tempo em que esteve à frente do Nirvana – inclusive dando-se ao luxo de tocar o que quiser nos shows e ainda promover um intenso quebra-quebra de instrumentos e aparelhagens ao final de cada apresentação. De fato, milhões de dólares, bajulações forjadas e toda a paparicação vinda com o estrelato não foram suficientes para mudar o jeito simples e moleque daquele garoto criado no noroeste americano, sem luxo, distante de quase tudo e no meio de quase nada.
1) “Smells Like Teen Spirit”
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