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Heavy Trash

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Jon Spencer fala sobre sua nova banda, na qual surge mais fiel às influências do rockabilly

Spencer, Verta-Ray e seus topetes

Texto de Kristian Frederiksen (Lowcutt Magazine)

Tradução de Carlos Lopes

Fotos de Divulgação

Era terça à tarde, e estava seguindo para a maior entrevista de minha vida. O famoso Jon Spencer, líder do Jon Spencer Blues Explosion e do Pussy Galore, aceitara ser entrevistado por nós – e eu gelei. Por que deveria ter medo desse homem? Por muitos motivos. Leia outras entrevistas com ele e saiba o porquê. Ele é um de meus ídolos há muito tempo. Sentei com uma cerveja na mão e um velho gravador na outra, preparando-me para o meu destino. Disquei o número. Ele atendeu imediatamente. Aguardava o pior, mas fui surpreendido por um sujeito sonolento, com uma voz muito-muito-muito grave do outro lado...

Como foi o início do Heavy Trash?

Well, yeah... Conheço Matt (Verta-Ray, guitarrista, ex-Speedball Baby) há muitos anos. Vivo em Nova York há 15, talvez 20 anos. Minha banda encontrou-se com a dele, já nos conhecíamos. Há alguns anos, passamos algum tempo juntos, nos divertindo e tocando. De início tocávamos só músicas de outros compositores, coisas como Achievements, e daí começamos a compor o nosso material. Teve início com o nosso antigo amor pelo rockabilly. Matt e eu amamos rockabilly. As músicas sobre as quais falávamos em tocar e as músicas que escrevemos desenvolveram-se a partir daí. Foi bastante normal. Tocava meu violão e Matt tocava a guitarra – estávamos só passando o tempo e jogando conversa fora. Aí começamos a gravar. Matt tem o seu próprio estúdio, em um pequeno espaço sobre um bar no low east side da cidade. Era um local agradável para se trabalhar, ficávamos à vontade e conversávamos. Era tocar, gravar um pouco, beber algo. Foi assim... A gravação caminhou bem devagar em um período bastante longo. Como Matt era o produtor e tínhamos acesso livre ao estúdio, não estávamos enfrentando qualquer pressão. Você sabe, podíamos experimentar, tentar novas coisas. Não havia banda, com exceção de nós dois. Então rolavam muitas experiências até a gente alcançar a execução perfeita para cada canção. Depois convidamos os amigos para colaborar com o trabalho.

Então era mais como uma banda sem nenhum compromisso?

Yeah, acho que sim. Mas levávamos tudo muito a sério, amamos a música. Gostávamos de todo o processo, compor e gravar. Não havia pressão.

Isso tornou o processo criativo mais fácil?

Acho que pode ter sido mais fácil... Certamente é mais fácil, do que gravar em um estúdio que cobra mil dólares diariamente e com o qual você só pode contar por quatro dias no máximo – assim você fica de mãos atadas. Só pode continuar gravando quando vaga algum período...

Então foi puro amor à música? Claro que vocês quiseram fazer um disco, mas você estava envolvido nisso somente pela música?

Sim. Foi totalmente por amor à música. Mais do que isso, foi por amor ao rockabilly. E eu sei que todas as canções não são fielmente rockabilly, nos desgarramos um pouco. Pense que foi como um ponto de partida, uma referência.

Matt e Jon: paixão pelo rockabilly

"Quando eu era adolescente, meu ídolo nunca teria sido o Johnny Cash. Nunca escutei rock'n'roll na adolescência. Então meu ídolo poderia ter sido [o escritor] Douglas Adams"

Ouvindo seus outros trabalhos, com o Blues Explosion e Pussy Galore, o estilo adotado pelo Heavy Trash é diferente, porém similar. É mais rockabilly, mas...

Yeah, ainda sou eu, de outra maneira... O Heavy Trash é um pouco mais tradicional do que as outras coisas que faço. É uma outra definição, porque eu nunca havia trabalhado com Matt Verta-Ray. Até mesmo quando escrevo, nunca faço tudo sozinho: gosto de ter outra pessoa para desenvolver mais idéias, sentimentos. Eu nunca havia trabalhado com o Matt, nem como parceiro nem como produtor.

E obviamente foi bem sucedido...

Ya, eu acho, porque nos divertimos muito. Isso fica evidente no disco.

O estilo é diferente. Foi difícil se adaptar?

Nããããooo! Foi apenas tocar o material que amo. Para mim é muito bom me redimir com outros estilos musicais. Ou “abusar deles”, como queira....

A semelhança com outros estilos (blues, rock, country) é óbvia. Mas você ainda preserva o seu próprio estilo. Você é conhecido por desconstruir muito da música norte-americana tradicional e reinventá-la à sua maneira. Soa dessa forma em um disco do Heavy Trash, assim mesmo... Era esse o objetivo?

Sendo bem claro... Nunca houve uma discussão ou alguma imposição entre mim e Matt, nada que eu me lembre. Nunca houve um cronograma de como agir. Simplesmente havia uma compreensão entre ambos.

Li uma entrevista com Matt, na qual ele disse que o seu grande ídolo era Johnny Cash. Você também considera Cash um ídolo?

Não, quando eu era adolescente, meu ídolo nunca teria sido o Johnny Cash. Seria alguém como, deixa eu ver... Não sei! Nunca escutei rock'n'roll quando adolescente. Então meu ídolo poderia ter sido Douglas Adams (autor do livro O Guia do Mochileiro das Galáxias).

Então você foi um retardatário?

Ya, e isso me ajudou muito. Esse fato me define como me relaciono com o rock'n'roll e todas essas outras formas tradicionais de música norte-americana. Porque eu sou, ou era... Isso veio tão tarde em minha vida. Então acho que isso influenciou uma boa parte do negócio...

Jon, à frente: um Elvis a la Townshend

"Conforme se envelhece, não é mais importante falar sobre que tipo de música se escuta, mas sobre o que acontece na própria vida, as influências na música e sobre o que se faz no momento"

Muitos consideram que você, ao interagir com o rockabilly e desconstruir o rock, fez o mesmo que Pete Townshend fizera nos anos 60. Para muitos, resulta em um rock intelectualizado. É algo ao qual você gosta de ser associado?

Acho que entendi a pergunta. Conforme se vai envelhecendo, a parte intelectualizada ainda é menor. Com o Pussy Galore, é como se fosse apenas um conceito, uma espécie de ambiente intelectualizado. Conforme envelheço ainda mais, começo a me envolver mais intensamente com a música em si, pelo bem da própria música – e eu acredito que isso seja benéfico tanto para o Pussy Galore como para o Blues Explosion. Acho que o Pussy Galore é mais limitado, a dívida e a falência do rock'n'roll. O Blues Explosion tem prazer em interagir com o rock'n'roll e eu não fico me preocupando muito com esse fato. No disco mais recente do Blues Explosion minha participação ocorre mais como um criador de canções e letrista. É cada vez menos conceitual e intelectualizado, ao mesmo tempo que é cada vez menos e menos sobre música. Creio que esse fato é motivado pelo amor à música, entende? Conforme se envelhece, não é mais importante falar sobre que tipo de música se escuta, mas sobre o que acontece na própria vida, as influências na música e sobre o que se faz no momento. Não tem mais nada a ver sobre quais são as influências musicais. Heavy Trash é, certamente, a mais extrema de todas as propostas, a menos intelectual possível. Menos intelectual de tudo que eu já tenha produzido antes. Apenas utilizamos formas tradicionais, nos satisfazendo com elas e nos rebelando junto a elas. Algumas canções são tematicamente bobas e algumas bem sérias. De novo, sempre resultado do que acontece em minha vida.

Então você não negligenciou que a música serve como expressão individual?

Acredito que sempre foi... Existem muitas razões para me envolver com música, e expressão individual sempre foi uma das maiores razões – não me leve a mal. Acho que... Com o passar dos anos sou menos Pete Townshend. É interessante esse aspecto, entendo o que você quer dizer – embora eu nunca tenha sido muito fã do Pete Townshend (risos). É uma analogia interessante.

Como é excursionar com o Heavy Trash?

Sempre excursionei bastante com o Blues Explosion... Com o Heavy Trash, não estou muito interessado... Não gostaria de viajar para tocar sempre nos mesmos lugares, fazer a mesma coisa. Com o Heavy Trash quero tocar em lugares inusitados, com uma atmosfera especial ou em eventos especiais. Não quero fazer uma excursão rock'n'roll. Não que haja algo contra fazê-la, mas isso eu já tenho feito com o Blues Explosion.

Você está cansado de excursionar?

Certamente alguns aspectos de uma excursão são muito cansativos. Enquanto estou no palco, não. Eu nunca me canso disso.

Você é conhecido por ser um reconhecido performático…

É bastante gentil de sua parte, muito obrigado! (regozijo) Significa muito pra mim. Trabalho bastante para isso.

Fazendo outra analogia, vejo muito de Elvis Presley em você.

Bem, Elvis pode ser. Afinal ele é o rei, ou não é? Ele é de fato uma influência! Ele era um rockabilly de verdade.

>> O Heavy Trash faz oito shows na América do Sul em abril, sendo seis no Brasil – nas cidades de Bauru (SP), Araraquara (SP), Curitiba, Recife (no festival Abril pro Rock), Sorocaba e São Paulo. Mais informações sobre a turnê aqui.

>> Veja aqui os videoclipes das músicas "Way Out" e "Dark Hair´d Rider"

>> Entrevista publicada no Brasil com exclusividade com permissão da Lowcutt Magazine e gentilmente cedida pelo Portal RockPress.