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Dalton Trevisan

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Em seu novo livro, paranaense tenta entender os vícios, torpezas e defeitos da humanidade

Desenho de Poty que ilustra a capaTexto por Fabrício Muller

Ilustração Poty Lazzarotto/Editora Record

– Me fiz de bêbado entre os bêbados, para ganhar os bêbados.

Me fiz de tudo para todos, para por todos os meios chegar a entender um só - ai de mim!

As duas linhas acima são a íntegra do conto "O Escritor", do novo livro de Dalton Trevisan, O Anão e a Ninfeta (Editora Record, 159 páginas). A alusão bíblica é clara: Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível (I Coríntios, 9, 29). Mas enquanto o apóstolo Paulo queria converter os homens, Dalton Trevisan quer entendê-los. E a humanidade que o maior escritor paranaense enxerga é cheia de vícios, torpezas e defeitos.

No conto que dá o título ao livro, um anão gasta todo o seu dinheiro com prostitutas, que não só o satisfazem sexualmente como frequentemente roubam suas roupas e o que ele tem na carteira. Em mais de uma história do livro, um velho senhor compra livros numa livraria apenas para chamar a atenção da balconista – que lhe dá atenção, mas não o que ele quer. Em "O Jogo Sujo do Amor", um homem bem sucedido tenta se equilibrar ente o amor da esposa e da amante, que vivem em cidades diferentes. No conto mais impressionante de todos, "O Caniço Barbudo", um esquisito e avarento herdeiro vive só, acompanhado apenas pela empregada e por seus jornais - dos quais não se desfaz de jeito nenhum. "O velho poeta" conta, em primeira pessoa, o encontro do narrador [seria o próprio Dalton?] com um pretensioso e patético poeta. Em "O Rosto Perdido", um homem abandonado pela mulher tenta se consolar com a companhia do cachorro. Até Inri Cristo e Maria Bueno aparecem. Ele, no pungente "O Reencarnado". Ela, num poema que tenta contar a história da santa popular de Curitiba.

E, claro, não poderia faltar os personagens habituais de Dalton Trevisan: prostitutas, bêbados, viciados, assassinos, miseráveis. Estes normalmente aparecem nas histórias curtas de O Anão e a Ninfeta, como a chocante "Programa", em que o curto diálogo mostra todo um universo decadente:

– Vamos, bem?

– Quanto?

– Dez.

– Onde?

– Logo ali.

– Tá.

– Chegamos.

– Se alguém vê?

– Não tem perigo.

– Dez. Tome.

– Com dente?

– Hein?!

– Veja. Sem dente.

– Não. Sim.

– Qual é?

– Sim. Fique.

– Tá bem.

– Mas não morda.

Não posso afirmar se Dalton Trevisan conseguiu entender a humanidade sobre a qual se debruça, mas o carinho que ele sente por seus personagens é sentido também pelo leitor. É sim. Lemos O Anão e a Ninfeta um tanto chocados. E um tanto enternecidos.


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