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Vida
Escrito por Abonico Sáb, 29 de Janeiro de 2011 20:16
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Autobiografia de Keith Richards esmiúça lendas e curiosidades do "grande sobrevivente do rock"
Textos por Cristiano Viteck e Julliana Bauer
Fotos: Reprodução
Como se estivesse em uma longa porém agradável e divertida conversa de boteco com um dos maiores rock stars de todos os tempos. É assim que a gente se sente lendo Vida (Editora Globo), a autobiografia do famoso guitarrista dos Rolling Stones. Lançado no finalzinho de 2010 no Brasil, o livro com mais de 600 páginas já é um dos atuais campeões de venda. E não é para menos. Afinal, o músico é uma das personalidades mais icônicas do mundo artístico do século XX. Bom, nem sei porque eu estou apresentando o cara... Estamos falando de Keith Richards!
Beirando os 70 anos de idade e com um corpinho de 130, Keith é um sobrevivente do rock’n’roll. De garoto pobre que odiava a escola, encontrou na música a sua razão de viver. Da linhagem dos bluesmen iniciada por Robert Johnson na década de 1920, o guitarrista dos Stones absorveu e aprimorou ao longo de sua carreira uma gama enorme de estilos que vão do country ao rock da década de 50, passando pelo reggae e até mesmo pela disco music. Toda essa trajetória de sua formação músical é claro que é contada em Vida, que o músico escreveu em parceria com o jornalista James Fox.
Mas o que a gente quer saber mesmo é das festas, das prisões, dos vícios, das brigas com o parceiro Mick Jagger e dos fatos que estiveram atrás das gravações dos discos clássicos dos Rolling Stones. A gente quer saber é como Keith Richards trasformou a sua vida em um inferno na década de 70 e conseguiu se safar do mesmo, ao contrário de muitos dos amigos deles que ficaram no meio do caminho ao se aventurarem na brincadeira perigosa que é viver intensamente o espírito sexo, drogas e rock’n’roll. E Keith Richards não esconde nada, no máximo, dá a sua versão dos fatos...
Com a autoridade que sua carreira lhe confere, no livro Keith Richards dá algumas dicas que podem ser bem úteis, tanto para uma dona de casa como para quem sonha em se tornar uma estrela de rock. Para estes, o guitarrista afirma que em primeiro lugar é preciso se dedicar muito, buscar aprender sempre as infinitas possibilidades de um instrumento, tocar sempre por prazer em primeiro lugar e, se tiver um pouco de talento e muita mas muita sorte, quem sabe um dia virar uma estrela.
Para quem quer ser malaco ou bandido, o recado é o seguinte: um revólver você usa quando realmente está falando sério. Já uma faca você deve usar apenas para distrair seu oponente, que vai estar preocupado com a lâmina enquanto você está chutando as bolas dele.
Quer ser um drogado? Bom, o melhor é não entrar nessa achando que poderá sair quando quiser. Mas se mesmo assim você quiser insistir, nunca compre drogas das ruas. Vá atrás das melhores. Foi devido ao fato de ter os melhores fornecedores que Keith Richards credita o fato de ainda estar vivo. As drogas mais poderosas? Heroína e crack. Melhor não brincar com elas...
Foi preso? Para se safar você precisa de duas coisas: seja amigo de pessoas importantes e influentes. E, principalmente, tenha muita grana. Foi assim que ele acabou escampando da cadeia tantas vezes.
Está a fim de matar a fome? Keith Richards dá a receita do seu prato favorito. Purê de batatas com linguiça frita. O segredo é iniciar a fritura da linguiça com a frigideira fria! E mais, do manual de sobrevivência de Keith Richards ainda vem essa outra dica. Para manter a forma, coma sempre que tiver fome. Não caia nessa de se alimentar apenas três vezes ao dia. O ideal é fazer pequenas refeições durante o dia, o que facilita a digestão e ainda ajuda manter a forma!
Como você está vendo, Vida é um livro pra todo mundo. Cabe a cada um tirar suas "lições" dos ensinamentos de Keith Richards. Ah, é claro que ele ainda fala de dois assuntos polêmicos... Um deles é a lenda de que certa vez trocou todo o sangue do seu corpo todo envenenado por drogas por sangue novinho em folha. Outro é o oba-oba que saiu na imprensa alguns anos atrás, quando o guitarrista disse ter cheirado as cinzas do próprio pai. Mas essas coisas eu não revelo aqui. Quer saber? Leia o livro... (CV)
***
O estereótipo de tudo que envolve um rockstar. Esta é a imagem que acompanha Keith Richards desde que os Rolling Stones se tornaram uma das bandas que mais simbolizam o tripé sexo, drogas e rock’n’roll. Mick Jagger pode até ter sido o bonitinho da banda, que parece ter tentado engravidar uma mulher em cada continente, mas Keith Richards é o único cara que sobreviveria a uma bomba nuclear, de acordo com a piada que corre entre os fãs da banda (somente ele e as baratas, aliás). Mas em sua autobiografia, escrita com a ajuda do jornalista James Fox, o roqueiro não hesita em desmentir muitas das lendas que acompanham sua vida como músico. E também de reforçar muitas outras.
São seiscentas e trinta páginas, espaço o suficiente para o músico contar detalhes de muitos anos de vício em heroína, destilar algum veneno e é claro, dar a receita de seu prato preferido. De todas essas, cerca de quinhentas são interessantes, o que está bem acima da média para um livro desse gênero. Grande parte do mérito está na cara-de-pau do guitarrista, que não demonstra muito arrependimento sobre nada daquilo pelo que foi julgado pela mídia ao longo das décadas e aceita o título de “grande sobrevivente da música”. Não, Keith Richards não é um cara humilde. Ainda bem.
O fã dos Stones não deve esperar, no entanto, uma biografia da banda. Esta serve apenas de plano de fundo para os inúmeros incidentes – com drogas, com a polícia e sobre a vida pessoal do músico – contados no livro. Mas a história de muitas músicas, como “Satisfaction” e “Gimme Shelter” são esmiuçadas, talvez até mesmo para afastar os boatos que correm a respeito de sua criação. Keith nega, por exemplo, que “Gimme Shelter” tenha sido escrita como forma de expressar sua agonia ao saber da traição da então namorada, Anita Pallenberg, com o próprio amigo Mick Jagger. Mick, aliás, não ganha voz ao longo da história. Richards chamou uma série de amigos e familiares para contribuírem com declarações e histórias para serem inseridas ao longo da obra. Há várias inserções de Marlon, o filho mais velho do guitarrista, que viu ainda na infância as experiências mais pesadas dos pais com as drogas. Patti Hansen, a atual esposa, também narra sobre o dia em que conheceu o marido. Até mesmo a modelo Kate Moss dá um depoimento inesperado sobre o dia em que testemunhou o roubo de um dos ingredientes do prato preferido de Keith, no dia do casamento da filha dele. Mas Jagger ou qualquer outro integrante da banda estão ausentes. Mas o mesmo recurso de inserir depoimentos de coadjuvantes em meio à narrativa passa de enriquecedor a monótono ao longo das páginas. Algumas histórias parecem um pouco repetitivas e desinteressantes, principalmente nas últimas páginas do livro.
Um grande apelo da obra está nos desafetos de Keith. Há quase um capítulo inteiro dedicado a enumerar as fraquezas e defeitos de Mick Jagger, o que rendeu manchetes para jornais durante um bom tempo após o lançamento da biografia, em novembro do ano passado. De acordo com Richards, Mick se tornou insuportável nos anos 1980 – e tão egocêntrico que ignorava os demais membros dos Stones. Um “vocalista mandão de pênis pequeno”, em um trecho que foi mal interpretado por jornalistas de todo o mundo e explicado por Keith posteriormente – que se retratou dizendo nunca ter visto o amigo nu para saber tamanhos detalhes. A relação entre vocalista e guitarrista é um assunto recorrente,e muda a cada página. Ao mesmo tempo em que Keith fala sobre suas mágoas com Jagger, ele jura que seria o primeiro a defendê-lo, como um irmão.
Mas Jagger não é o único Stone a ser alfinetado. Brian Jones, o guitarrista morto em 1969, é retratado como um homem maldoso, fraco e intolerante com as namoradas, as quais espancava quando se recusavam a participar de orgias com ele. Um “filho da puta lamuriento”, em uma análise bastante fria sobre o integrante que batizou e liderou a banda em seus primeiros anos. Richards, que não compareceu ao enterro de Jones, ainda revela que o show em homenagem a Brian, logo após a sua morte, foi apenas uma conveniência para a banda.
A maior ironia sobre a biografia de Richards é o fato de ela desmentir, uma a uma, muitas das lendas que fazem parte do mito que ele se tornou. Não, ele nunca trocou todo o sangue do corpo. E também não estava escalando uma palmeira para cumprir uma tradição local, no incidente de sua queda de uma árvore em Fiji, em 2006. O famoso caso da batida policial em sua casa, nos anos 1960, na qual Marianne Faithfull fora encontrada nua com uma barra de chocolate entre as pernas não passa de uma distorção absurda da história. E quanto aos rumores de ter cheirado as cinzas do pai, bem, isso ele explica se tratar de outro caso mal interpretado. Não havia cocaína misturada às cinzas, como tanto foi falado, mas apenas os restos mortais de Bert Richards, que foram metidas narinas acima da forma mais afetuosa possível.
Quanto às mulheres e ao sexo, Keith conta que tudo vinha de forma fácil, mas que ele nunca teve talento para cantadas ou aproximações. Vale lembrar que estamos falando sobre um guitarrista que dorme com sua guitarra e descreve o instrumento de forma erótica e apaixonada. Muito mais recorrentes do que as histórias sobre relações amorosas com mulheres são as passagens nas quais o músico demonstra toda sua afeição por cada acorde já tocado e cada letra já escrita por ele.
“As pessoas amam essa imagem (...), elas querem que eu faça o que elas não podem fazer”, confessa o músico sobre a persona criada para ele. E a verdade é que o anel de caveira, o cigarro sempre pendurado em um canto da boca e as roupas e acessórios com ares de pirata contrastam com as reboladas, topetes e bicos de Mick Jagger, fazendo com que aquele fã mais antigo e hardcore dos Rolling Stones sempre tenha uma preferência pelo guitarrista feiosinho.
Há quem defenda que as grandes bandas devem encerrar as atividades quando estão no seu auge criativo, para que não passem a decair a partir dali. E há também quem acredite que lendas da música são aqueles que morreram jovens, em decorrência de uma vida desregrada e rápida, como pede o rock. Os Rolling Stones não escrevem nenhuma música que tenha ido às paradas de sucessos já há algumas décadas e Keith Richards já passou há décadas da perigosa idade dos 27 anos. Mas é um grande alívio para os fãs de rock’n’roll o fato de que um de seus maiores mitos ainda está nos palcos e viveu para reforçar em um livro o título que melhor o define: o de “cara mais legal do mundo”. (JB)
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