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J.D. Salinger
Escrito por Abonico Qui, 28 de Janeiro de 2010 22:16
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Como o livro O Apanhador no Campo de Centeio inventou a juventude da segunda metade do século 20
Texto por Marco Antonio Bart (texto gentilmente cedido pelo Portal RockPress)
Fotos: Reprodução
É bastante possível que você nunca tenha lido O Apanhador no Campo de Centeio (Catcher In The Rye). No entanto, se você tem um mínimo de "antenidade" com o mundo que o cerca, muito provavelmente já leu ou ouviu alguma alusão ao livro no cinema, em jornal, revistas, sites, blogs ou em outros livros. O fato é que este singelo romance de 1951 virou lenda ao longo dos anos, e fez de seu autor, Jerome David Salinger, um dos maiores mistérios da história recente da literatura. A pequena revolução que O Apanhador... causou no comportamento da juventude americana – e por tabela, no comportamento da juventude do mundo todo – ecoa até hoje, fazendo parte da cultura da segunda metade de século passado.
O Apanhador... narra um fim-de-semana na vida de Holden Caulfield, jovem de 17 anos vindo de uma família abastada de Nova York. Holden, estudante de um pomposo internato para rapazes, retorna para casa mais cedo no inverno depois de ter levado bomba coletiva em quase todas as matérias. Na volta para casa, ao se preparar para enfrentar o inevitável esporro da família, Holden vai refletindo sobre tudo o que (pouco) viveu, repassa sua peculiar visão de mundo e tenta enxergar alguma diretriz para seu futuro. Antes de se defrontar com os pais, procura algumas pessoas importantes para si (um professor, uma antiga namorada, sua irmãzinha) e tenta lhes explicar a confusão que passa por sua cabeça.
E é só isso aí. Não há nada de mais trágico (ou dramático) na história; é só um adolescente voltando para casa. A grande magia de O Apanhador... é justamente esta, a de ser uma história de e para adolescentes e não meramente um livro "recomendado para leitores em idade escolar". Foi a primeira vez na literatura americana (ou mesmo na mundial) que o universo próprio dos jovens foi estudado a fundo e exposto de maneira absolutamente natural, sem nenhuma pretensão ou didatismo. As idéias, conceitos, bobeiras, burrices, enfim, toda a loucura de ser jovem, isso nunca tinha sido traduzido de uma maneira tão profundamente sintonizada com a realidade.
Vale um aparte aqui. Antes de O Apanhador... simplesmente não existia esta coisa que há hoje de "cultura jovem". Pode ser difícil de acreditar, mas há meras seis décadas os jovens (e sua maneira de pensar, suas idéias próprias e suas aspirações) não eram levados a sério pelos adultos de forma alguma. Ser jovem, nos anos pré-Elvis Presley, era apenas estar em um estágio irritante entre a criança e o "homem feito", uma fase que devia passar o mais rápido possivel e sem maiores dores.
O que não quer dizer que os jovens não tivessem seus anseios e preocupações que não eram nem infantis nem adultas – mas que eram ignoradas pelos mais velhos. O Apanhador..., com seu relato sem retoques de tudo aquilo que realmente se passa na mente de um adolescente, ajudou a tornar a sociedade mais atenta à barra (às vezes pesada) que é ser jovem.
E o talento sem tamanho de J.D. Salinger é um dos maiores responsáveis pelo status cult do livro até hoje. Apesar de já ter passado longe da adolescência quando escreveu a obra (estava com 32 anos quando o livro saiu), o autor penetrou de forma admirável na maneira própria que os jovens têm para se expressar. O livro marcou época por seu uso ousado de gírias e expressões e referências "chulas" – que andavam na boca da rapaziada da época.
Salinger colocou em Holden Caulfield, de forma realista e convincente, tudo o que se passa na cabeça de um rapaz de 17 anos: as preocupações com o futuro, a incerteza de todo o mundo que passa por esta fase, as garotas (claro!)... Tudo de uma maneira que nunca havia sido vista antes, com liberdade de estilo, inteligência e um raro sentimento de proximidade com o universo jovem.
O mesmo sucesso que consagrou de vez o talento de Salinger (que já vinha, desde os anos 40, publicando contos em revistas) foi sem dúvida o responsável pelo rumo inesperado que sua carreira (e sua vida) tomou desde então. O Apanhador..., seu primeiro romance (e único volume de material inédito) tornou-se uma coqueluche instantânea entre os jovens americanos, enlouquecidos ao finalmente conseguirem se identificar de forma tão perfeita com um herói de literatura. Engraçado, comovente e forte, o livro é literatura de primeira: leve e ágil, próprio para gente jovem (que ainda não "tem paciência com esta coisa de literatura"). Mas com estilo totalmente próprio e marcante.
Depois de vender 15 milhões de exemplares e virar uma celebridade mundial, J.D. Salinger – notoriamente tímido e agressivamente modesto em relação a seu talento – primeiro isolou-se em uma casa no topo de uma montanha, em uma cidadezinha de mil habitantes. Foi diminuindo o ritmo de produção (publicou seu último conto, “Hapworth 16, 1924”, em 1965, na revista The New Yorker) e afinal cortou qualquer contato com a mídia. Não concedia entrevistas desde 1980, não se deixava fotografar e também nunca permitiu que nenhum dos seus livros fosse adaptado para o cinema (assim como o próprio Holden Caulfield, Salinger odeia cinema!). Em 1999, do alto de seus 78 anos, autorizou, afinal, o lançamento de seu quinto livro (justamente a publicação em capa dura de Hapworth 16, 1924), o primeiro em 34 anos (parece o My Bloody Valentine...). Logo depois, voltou atrás...
A mística sobre o autor de O Apanhador... não se sobrepôs sobre o impacto da obra em si. Holden Caulfield e suas desventuras se tornaram precursores do mito da juventude rebelde – o protagonista contesta os mais velhos e não quer se tornar como eles, a quem considera farsantes. Toda a sua luta é para preservar os valores que ele acha verdadeiros e sinceros. Pode-se dizer que a figura de James Dean, o rebelde sem causa, é filhote da cruzada de Holden por sua integridade.
O livro foi citado por incontáveis bocas célebres ao longo dos anos, em filmes e outros livros. Uma das notas tristes na "biografia" da obra é que o livro teria inspirado o maluco Mark Chapman a cometer o ato que o tornou macabramente famoso: o assassinato de John Lennon, em dezembro de 1980.
Mas nem por isto O Apanhador no Campo de Centeio deixou de ser um dos livros indispensáveis (talvez o único realmente indispensável) na formação de qualquer jovem que deseja compreender melhor a si mesmo. E como o mundo o enxerga e a seus colegas.
(P.S.: Eu mesmo li duas vezes: a primeira aos 12 anos, a segunda – no original em inglês, mais engraçado ainda – aos 19. E ainda vou encarar uma terceira, assim que achar um exemplar em algum sebo. Quem achar o livro, editado pela Editora do Autor, agarre na hora. É a fonte da eterna juventude.)
Livros de J.D. Salinger
>> O Apanhador no Campo de Centeio (1951, Editora do Autor)
>> Nove Estórias (1953, Editora do Autor)
>> Franny e Zooey (1961, Editora do Autor)
>> Pra Cima Com a Viga, Moçada / Seymour – Uma Introdução (1963, Editora Brasiliense)
>> Hapworth 16, 1924 (ainda inédito em edição brasileira)
Curiosidades
>> Além da música “Who Wrote Holden Caufield?” (lançada em Kerplunk!, de 1992), o Green Day faz referências a Holden Caulfield em cinco álbuns da banda
>> A letra de “In Hiding”, do Pearl Jam (lançada no álbum Yield), fala sobre tentar achar a casa de J.D. Salinger. Eddie Vedder disse ao New Musical Express que, no fundo, é uma metáfora sobre tentar encontrar a casa de Deus. “Como se Ele fosse um recluso. Você encontra a casa Dele, abre Sua caixa de correspondência e descobre que está cheia de junk mail”, declarou o vocalista ao semanário inglês.
>> Quando perguntaram a Mark Chapman por que ele matara John Lennon, o perturbado-mental-ou-pau-mandado-da-CIA disse: “Leia O Apanhador No Campo de Centeio e você descobrirá porque o fiz. Este livro é meu argumento”.
>> Em uma referência a Chapman, o filme Teoria da Conspiração traz Mel Gibson no papel de um lunático que compra todas as cópias de O Apanhador... que consegue encontrar. Sem nunca ter lido o livro...
>> A Disney tinha um projeto de produzir uma versão animada de O Apanhador... com um pastor alemão como Holden Caulfield (Deus nos livrou desse lixo enquanto Salinger estava vivo!)
>> Existe uma banda americana chamada Caulfields e uma gravadora indie com o nome de Caulfield Records (PO Box 84323 Lincoln, NE 68501 USA)
>> A cantora Lisa Loeb fundou a banda Nine Stories, título original de um dos livros de Salinger
>> Em 1958, Bill Halley and His Comets gravaram em homenagem a Salinger a faixa “Rocking Through The Rye”.
>> Salinger, que morreu de causas naturais aos 91 anos no dia 27 de janeiro de 2010, viveu por muitos anos recluso no Srianka, pequeno país-ilha situado ao Sul da Índa,o Oceano Índico







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