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Cultivados

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Ficção apocalíptica joinvilense relata a vida em plataforma onde antes existia o Oceano Atlântico

Baptista: depois do fim do mundoTexto por Leila Vieira

Foto: Giu Vicente/Divulgação

O onda do fim do mundo que chegou com o ano 2012 atingiu também as obras nacionais.Em Cultivados, o joinvilense Rodrigo Baptista cria um futuro alternativo para o mundo após uma hecatombe assolar o planeta. Toda a vida como conhecemos hoje acaba. O mundo literalmente apodrece, mas o homem encontra uma forma de sobreviver criando uma realidade completamente nova. Mesmo com escassez a população consegue conviver em harmonia, através de uma forma de alimentação completamente condenável para os padrões morais da sociedade atual e em um mundo completamente novo, criado em uma plataforma que se estende em uma parte entre a América do Sul e a África onde antes existia o Oceano Atlântico. O novo mundo é Domi. Mas nem mesmo diante de todos os mecanismos criados para que a humanidade conseguisse existir, o mundo está salvo, pois onde existe uma laranja podre, sempre se propagará a peste.

Com apenas 172 páginas, Cultivados teria tudo para ser uma leitura rápida, mas não é. O excesso de palavras rebuscadas em uma mesma frase faz com que o leitor tenha de parar para pensar se vai realmente buscar o significado em um dicionário para tentar entender o que o escritor quis narrar ou se vai deixar aquela sentença passar despercebido. Da mesma forma, a obsessão de Baptista pela palavra pútrido dá o tom da obra, que pode ser analisada como uma mistura dos filmes 2012, A Ilha e Jogos Mortais.

A chegada do fim dos tempos exige uma medida eficaz para resolver o êxodo rural. A solução: ir para o mar, como em 2012. Os personagens centrais são criados em um ambiente chamado Redoma e se vestem como os personagens criados de Michael Bay em A Ilha, da mesma forma como eles são alheios a realidade que acontece no lado de fora das paredes do laboratório onde vivem. E por fim, o real significado da existência dos Cultivados, descrito ao fim do livro, é um show de horrores digno de um jogo de JigSaw em Jogos Mortais. É preciso estômago...

A obra aponta ainda para críticas duras à sociedade em que vivemos. Em parte, os Cultivados são a personificação da parcela da população que vive simplesmente por viver, sem entender os prazeres da vida e muito menos o sentido de sua existência. Mas sua participação na obra pode ser aliada a como animais criados em cativeiro, esperando para serem servidos ao fim de suas vidas. Por outro lado, a população de Domi, tão consciente dos defeitos da sociedade atual, tão crítica com relação às guerras e a discriminação, comete os mesmos erros ao se deparar com um Cultivado fugitivo. Com os olhares furtivos a se esquivar, uma forma de Rodrigo prova que nem mesmo quando se busca a perfeição o ser humano fica incólume a ignorância que lhes é de natureza. (Observação: incólume, aliás, é outra das palavras que mais aparecem no livro, ao lado de inóspito e pútrido.)

Um ponto contrastante no que diz respeito à obra é também o objeto central. Cultivados em cativeiros, os seres humanos descritos no livro são desprovidos de educação durante a vida e o único ensino que lhes resta são as míseras contações de histórias que escassamente recebem através dos alto-falantes da Redoma. Assim, é possível se perguntar: “como seres tão ignorantes possuem um vocabulário tão vasto?”; “como eles podem fazer descrições tão perfeitas ao narrar suas histórias aos outros humanos – aqueles que vivem fora da Redoma – que, no fim das contas, são o motivo para eles terem sido criados em cativeiro?”; e por fim, “se eles vivem em um mundo onde todos os recursos naturais estão escassos e eles nunca tiveram contato com educação ou a realidade anterior como uma das personagens sabe utilizar como metáfora a palavra carvão?”. Todos esses questionamentos podem ser justificados, talvez, pela pressa com que a obra foi escrita. Baptista concebeu Cultivados para participar de concursos literários e talvez, mesmo sem perceber, tenha cometido alguns pequenos deslizes.

Da mesma forma como, amante da sétima arte, ele também não soube discernir, em alguns pontos, a linha tênue entre uma obra literária e uma rubrica digna de roteiro de cinema. Algumas passagens tem sim sua importância para o entendimento final da obra mas por vezes se delongam demais em relatar take a take de uma cena feita especialmente para as telonas.

Todos esses pontos, porém, não desmerecem o valor cultural agregado à obra. Ela cumpre seu papel de ficção nacional, com um toque de americanismo. A história, apesar de grotesca em alguns momentos (algo completamente justificável para aqueles que conhecem Rodrigo), entretém ao mesmo tempo em que gera uma leve, e talvez dramática, reflexão a respeito da vida que levamos. Cultivados é um livro que merece ser lido.

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