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Cadão Volpato
Escrito por Abonico Sáb, 22 de Agosto de 2009 13:05
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Ao lançar novo livro sobre o tempo e as relações humanas, ele anuncia: vem aí mais um disco do Fellini
Texto por Abonico R. Smith
Fotos: Divulgação
Entrevistar Cadão Volpato é uma tarefa prazerosa. Afinal, o sonho de qualquer jornalista é encontrar pela frente uma fonte que não só renda grandes histórias como faça jorrar sem parar declarações para lá de impactantes. Cadão, jornalista de ofício e eterno apaixonado pelas artes (o fazer e o consumir pessoal e profissionalmente), não para de falar. Se der corda e deixar, ele vai. Emenda uma coisa na outra, junta histórias e porquês, teses e teorias. Se bobear, ele deixa você para trás nas perguntas com respostas mirabolantes e extensas.
Tanta hiperatividade verborrágica também costuma se transferir para o seu dia-a-dia. Depois de um tempo de auto-exílio dos holofotes da mesma imprensa com a qual sempre conviveu, ele agora volta à tona. Primeiro, no mês de julho, anunciando uma volta efêmera de sua clássica e cultuada banda, o Fellini, aos palcos – foram três shows nas cidades São Paulo e Curitiba. No final de agosto, dá vazão à sua verve de escritor e lança um novo livro (o quarto de ficção), chamado Relógio Sem Sol. E já prepara outros rebentos para os próximos meses: um roteiro de cinema a ser rodado em 2010, um novo livro já em negociação para ser publicado em breve, a retomada de sua carreira solo como cantor e um novo álbum do Fellini (mais sobre isto lá embaixo).
“Sempre fui editor e já havia algum tempo eu estava de saco cheio de fazer a mesma coisa quase sempre. Então este tempo em que estou me dedicando a frilas e projetos pessoais vem sendo algo extremamente prazeroso. Claro que se trabalha mais, tem aquela incerteza do dia seguinte, mas tudo isso provoca um tipo de reação que me faz estar sempre ligado em tudo. É divertido”, confessa.
Sobre a conclusão de Relógio Sem Sol (Editora Iluminuras, 120 páginas) ele já entrega uma vitória pessoal. “Sempre fui um eterno fazedor de romances que não conseguem ser acabados”, brinca com sua própria inaptidão de concluir projetos literários. “Sempre chego a um ponto em que perco o interesse em continuar o desenvolvimento, É que eu sempre trabalho a história através do ponto de vista de quem está escrevendo as coisas. E eu, com meu passado de militante, trotskista, tenho uma certa arrogância e aquela necessidade de ser perfeito. Só que já dizia o poeta: ninguém é perfeito”. E dispara uma grande gargalhada...
Página em branco
Premiado pelo Programa Petrobrás Cultural, o livro, segundo o próprio autor, carrega uma tristeza básica, mas que não chega a se transformar em melancolia. “É que são histórias que tratam da passagem do tempo e das relações humanas”. Do ponto de vista literário, é tudo de um tom muito simples, assegura. “Eu não me considero poeta, mas sempre fui um grande leitor de poesia. Até mesmo por causa da minha ligação com a música também. Então, para mim, o ritmo é algo bastante importante.”
Para escrever as duas histórias – que são divididas por uma página em branco – Volpato partiu da epígrafe “Que relógio sem sol, homem sem ouro”, verso extraído de um poema escrito no final do século 18 pelo português Joaquim Fortunato de Valadres Gamboa. Na primeira parte – que serviu de batismo para o livro – não há, segundo Cadão, muito sol. “É um meio do caminho. É o drama de um casal que se conhece depois de outras experiências anteriores. Ambos têm filhos e ela quer ter mais um com ele mas ele não quer”, antecipa.
A segunda trata da perda da beleza. Para Cadão, o signficado da palavra “ouro” no verso do poeta barroco português pode ser entendido como “brilho” ou “fortuna”. “São atributos básicos que todos nós humanos achamos que temos de ter”, alfineta. “Conto a história de uma mulher que já muito, muito bonita, mas não é mais. Ela tem um nome esquisito, que eu não vou contar aqui – é preciso ter boa observação para descobrir este nome dentro da própria história. Ela acaba encontrando uma jovem com este mesmo nome esquisito. As duas têm destinos trágicos. Aquela coisa de que o inevitável é mesmo a morte.”
A narrativa da obra, nas palavras do jornalista, escritor e roteirista cinematográfico Marçal Aquino, “é feita muito mais de climas que de tramas. É conduzida por uma espécie de curiosidade essencial dos personagens acerca de seu destino. Cadão Volpato volta mais uma vez seu olhar para outras realidades – realidades internas, mas não menos intensas, das quais só pode dar conta um olhar comprometido com a sutileza da poesia”, diz o autor do clássico O Invasor, responsável pela orelha do livro.
Alguns trechos de “Homem sem Ouro” foram plenamente inspirados em experiências pessoais vividas recentemente pelo autor. “Inclusive musicais”, assume. Este quê autobiográfico remete ao ano de 2001, quando Cadão passou um tempo em Londres para gravar o último álbum de estúdio do Fellini, no homestudio do amigo e eterno parceiro na banda, o também jornalista Thomas Pappon (que hoje ocupa posição de destaque no staff da BBC Brasil). “Foram coisas meio pesadas que passei, quando fiquei chocado ao saber da doença que pouco tempo depois levaria à morte o meu grande amigo Minho K[nota do edtor: fundador da banda 3 Hombres e que de dia assumia o alter-ego do jornalista Celso Pucci], uma das pessoas mais doces e maravilhosas que eu já conheci. Foi também o período em que o Thomas estava muito deprimido porque tomava uns remédios para se tratar da hepatite B”.
Se há algo que preopcupa bastante o Cadão escritor é o fato de fazer um exercício mais profundo para se aproximar ao máximo de seus personagens. “Eu tenho compaixão pelo meu personagem. Não diria que imprimo um tom amargo, mas sim um pouco pessimista. Se tem algo que eu acho difícil é fazer o leitor entrar no livro e sentir mesmo aquela experiência real. A pessoa já está dispensando um certo tempo da vida dela lendo a sua obra, então não gosto de pensar em importuná-la”, prossegue.
Enquanto começa a divulgar o novo lançamento, Cadão Volpato já está em negociação para a publicação de um novo livro, prevista para o ano que vem. “Será um conjunto de contos que se interligam. É uma ficção científica, com uma espécie de futurismo retro. E bem suave que Relógio Sem Sol.”
Ao vivo no estúdio
Paralelamente ao exercício da escrita, ele ainda retoma a carreira musical. A recente reunião do Fellini nos palcos rendeu conversas iniciais com três outros integrantes (o guitarrista Jair Marcos, o baixista Ricardo Salvagni e o baterista Clayton Martin) para acompanhá-lo em um novo trabalho solo. Volpato e Pappon ainda maquinaram aquilo que todo fã do gruposempre desejava mas já não tinha mais esperanças de ver se realizar: um novo disco do Fellini. Não por acaso, o título – já escolhido – cai como uma luva para a ocasião. O álbum se chamará Você Nem Imagina.
“Foi mesmo que uma decisão de última hora”, conta o vocalista e letrista da banda. “É o registro do material preparado para estes shows, um apanhado do melhor de nossos discos já lançados mas com uma conotação puxada para o lado do rock. Ficou bem pesado, ainda mais porque são arranjos tocados por uma banda completa”. Isto justifica a base fornecida pelos três primeiros trabalhos, lançados na segunda metade dos anos 80 e que representaram o período de maior atividade como uma banda de shows e gravações. “De fato os dois últimos ficaram de fora. Foi por questões mais técnicas mesmo. O material de antes era mais fácil e prático para ser levado aos shows.”
Ele define a vontade de fazer mais um disco do Fellini como uma “ocasião única”. Para Cadão, este era “o momento”, de fato. “Ficamos muito contentes e surpresos com a receptividade gigante que tivemos durante estes shows. Algo que nem de longe havia naquela época da chamada 'miltância'. Tinha muita gente nova que sabia cantar todas as músicas. Gente na faixa de uns 25 anos, que estava nascendo quando a gente começou.
Você Nem Imagina já foi gravado e está atualmente na fase de mixagem e masterização, que ficará a cargo de Thomas, em Londres. “Vamos fazer um CD, que é bem a nossa cara. Afinal, nada mais ultrapassado que o CD”, dispara, para emendar ainda a possibilidade (ainda que pequena) de sair uma edição em vinil. “Ainda haverá um libretinho, escrito e coordenado por mim, falando de cada música, os contextos e significados”. Será uma curadoria da trajetória do Fellini, uma banda que traçou um caminho próprio e bem particular na História da música brasileira nas últimas décadas.
>> Cadão Volpato lançou o livro Relógio Sem Sol na FNAC Curitiba, no dia 9 de outubro






