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Deus da Carnificina
Escrito por Abonico Seg, 21 de Maio de 2012 01:39
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Novo filme de Roman Polanski tem briga de casais, neuroses à tona e somente quatro atores em cena
Textos por Flavio St Jayme (Blog Pausa Dramática) e Jean Garnier
Foto: Imagem Filmes/Divulgação
Roman Polanski é um diretor de muitos gêneros. De suas mãos saíram obras díspares e sensacionais como O Bebê de Rosemary, O Pianista (que lhe rendeu o Oscar de melhor direção) e Escritor Fantasma. Agora com Deus da Carnificina (Carnage, França/Alemanha/Polônia/Espanha, 2011 – Imagem Filmes) ele se mostra ainda mais prolífico. Ao filmar a peça Le Dieu du Carnage, da francesa Yasmina Reza (que também assina o roteiro do longa) com um elenco nada menos que excepcional, o diretor nos enfia numa briga de casais que beira o cômico. E às vezes ultrapassa.
Na história, que começa sensata, dois casais conversam pacificamente sobre uma briga envolvendo os filhos. Ethan, o filho de Penelope e Michael Longstreet (Jodie Foster e John C. Reilly) foi atacado com uma vara por Zachary, filho de Nancy e Alan Cowan (Kate Winslet e Christoph Waltz) e os pais conversam para chegar a um acordo pacífico que envolva o pedido de desculpas e arrependimento por parte do agressor. Por mais que a conversa comece pacífica, o que paira no ar é que logo logo as máscaras cairão e a coisa vai ficar feia. E de fato isso não demora a acontecer.
Tendo como único cenário o apartamento de Penelope e Michael, o filme, ainda assim, possui movimentos ágeis de câmera e diferentes ângulos. Nesse ponto poderia ter sido filmado em uma única tomada, como uma peça mesmo. Nas mãos de um diretor tão eficiente teria sido interessantíssimo. Lembra em muito Quem Tem Medo de Virgínia Wolf, onde dois casais também se digladiam verbalmente noite adentro, embora o foco seja outro.
É incrível ver como os quatro atores estão bem, confiantes e naturais em seus papéis e como pouco a pouco o pano vai caindo e as neuroses de cada um vão vindo à tona. Todos com passagem pelo Oscar (e estatuetas na prateleira, inclusive), quem mais impressiona mesmo é John C. Reilly. Seu marido inicialmente obediente e recatado vai pondo as garrinhas de fora de forma magistral, até alcançar um ápice hilário. O enlouquecimento da personagem de Kate Winslet com o celular do marido também é digno de aplauso “em cena aberta”. As duas mulheres foram indicadas ao Globo de Ouro e não existe ninguém mais em cena além dos quatro atores. Mas tudo funciona perfeitamente bem e às vezes chegamos a pensar que estamos ali dentro daquela casa escondidos, observando a coisa toda. (FSJ)
***
O que começa com uma infantil briga vira um macabro e interessante debate entre quatro pessoas, enclausuradas em um espaço e prontas para confrontarem as suas imperfeições e seus medos. Com direção de Roman Polanski, Deus da Carnificina (Carnage, França/Alemanha/Polônia/Espanha, 2011 – Imagem Filmes) deixa um pouco de lado o enredo e joga todo o enfoque nos desempenhos dos atores.
Toda a tensão e os diálogos do filme – baseado no texto escrito pela dramaturga francesa Yasmina Reza – se passam em um apartamento no Brooklyn, em Nova York. Esse ambiente pertence ao casal Michael e Penelope Longstreet (John C. Reilly e Jodie Foster, respectivamente). Após uma rápida discussão entre dois meninos de 11 anos, Zachary, filho de Michael e Penelope, é atingido por uma paulada na boca. Os pais do agressor, Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz), resolvem ir se desculpar. À primeira vista, o contato verbal entre os casais segue um enorme tom de civilidade, com suspeitas trocas de elogios em situações devidamente forçadas e pedaços de bolos falsamente elogiados. Até que sutilmente eles começam a se agredir. E tudo só tende a piorar quando uma garrafa de whisky aparece em cena.
As fragilidades são expostas. Enquanto Penélope (que até então segurava a raiva pelo estrago que ficou o rosto de seu filho) começa a se sentir ferida ao ter a personalidade politicamente correta colocada em dúvida, o advogado Alan não se desgruda do celular e demonstra que a sua família é um mero acessório que ele usa quando bem quer. A empresa farmacêutica que ele trabalha está envolvida em escândalos e traça um paralelo com a sua vida. A moralidade de ambos é apenas um conceito relativo.
Michael se finge de bom moço para evitar atritos. Já Nancy, aos poucos, vai vomitando seus instintos selvagens. Defende seu filho e não se conforma quando Michael afirma que jogou fora um hamster, simples como quem se desfez do lixo. Mesmo não sendo memorável, Polanski revela as sutilezas do embate humano quando se depara com a anarquia para enfrentar seus demônios. Também não é perturbador em comparação com outras obras do diretor, como O Bebê de Rosemary ou Chinatown. Muito pelo contrário: é furioso, por vezes engraçado e curto. (JG)
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