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Sombras da Noite
Escrito por Abonico Qui, 21 de Junho de 2012 00:35
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Tim Burton recria série cult da TV com Johnny Depp como um vampiro deslocado no tempo
Textos por Abonico R. Smith e Flavio St Jayme (Blog Pausa Dramática)
Fotos: Warner/Divulgação
Na cartilha de Tim Burton não podem faltar palavras como esquisitice, incompreensão, desajuste social e inadequação. Filme vai e filme vem, seus personagens acabam sendo acumulando alguns destes elementos, o que não só tornou a sua marca registrada como também arma infalível para a criação de um extenso séqüito de fãs em todas as partes do planeta e de todas as faixas etárias. O diretor sabe que o que quer que ele faça vai ter uma multidão louca para ver uma louca mistura pop de terror, era vitoriana, fantasia e Johnny Depp.
Tudo isto está em Sombras da Noite (Dark Shadows, EUA, 2012 – Warner), o oitavo fruto da longa parceria entre Burton e Depp, que chega agora aos cinemas brasileiros. O longa é baseado em uma série de TV exibida pela rede norte-americana ABC entre 1966 e 1971. Como os dois amigos eram fãs incondicionais da produção durante a infância, logo arrumaram muito assunto para conversar durante os bastidores das filmagens de Sweeney Todd. Então, não bastou mais do que meia década para que ambos – inclusive com Depp assinando entre os produtores – terminassem ressuscitando o seriado em uma divertida adaptação para a tela grande.
Depp encarna o vampiro Barnaby Collins, condenado a viver de tal forma para a eternidade ao ser alvo de uma bruxaria provocada por um coração partido. Em 1772, ele era o jovem herdeiro de uma próspera e bem-sucedida família de comerciantes que migrou da cidade inglesa de Liverpool para um pequeno município portuário dos Estados Unidos que leva o nome do clã, Collinsport. Exatos duzentos anos ele acaba liberto de sua tumba por acaso e retorna à bicentenária mansão para ajustar suas contas com o passado enquanto tenta se adaptar aos novos tempos.
Este é um dos trunfos do longa-metragem. Fazer Barnabas ressurgir em 1972 (“coincidentemente” o ano em que a série acabou cancelada) é mote para uma série de situações para Burton deitar e rolar em conjunto com o roteirista Seth Grahame-Smith nas piadas com referência àquela época: o movimento hippie, os astros pop, as roupas e a tecnologia dos automóveis, instrumentos musicais e eletrodomésticos. O vocabulário elizabetano e o visual vitoriano – detalhes da TV que Burton e Depp fizeram questão de conservar – são o principal desajuste social do protagonista. Aliás, elegância, cavalheirismo e estilo aos quais os fãs desta mais recente leva de vampiros cinematográficos não andam lá muito acostumados.
Entretanto, a inadequação social não se restringe somente ao personagem central da história – que, curiosamente, só apareceu em Dark Shadows depois de duzentos capítulos, como uma tentativa para salvar a série da baixa audiência. Os Collins da “atualidade” são bastante disfuncionais. Sob os cuidados da austera matriarca Elizabeth (Michelle Pfeiffer, outra que assume ter acompanhado os episódios na ABC), estão o irmão canalha Roger (Jonny Lee Miller), a adolescente rebelde Carolyn (Chloë Grace Moretz, nome que ainda vai dar o que falar nos próximos anos) e o pequeno sobrinho David (Gulliver McGrath). Os problemas incontornáveis de David, que vê fantasmas e torna-se uma dor de cabeça constante em casa, acabam trazendo à mansão uma psiquiatra neurótica pó não envelhecer (Helena Bonham Carter, em mais uma grande atuação em filmes do marido) e uma jovem e misteriosa babá (Bella Heathcote), com quem Barnabas enxerga uma relação perdida lá no passado. O fiel caseiro Willie (Jackie Earle Harley) e a septuagenária e silenciosa empregada Mrs Johnson completam o time desta Família Addams genérica de Collinsport, cidade, aliás, já devida e recentemente rebatizada como Angie Bay por causa da malévola Angelique Bouchard (Eva Green), empresária que levou às ruínas os negócios dos Collins.
Tim Burton faz de seu novo longa sua maior aproximação dos filmes de terror da produtora britânica Hammer – que trazia entre os principais nomes de seu elenco o ator Christopher Lee, mais uma vez fazendo, em Sombras da Noite, uma breve aparição sob a direção de seu amigo e fã incondicional. A história levada às telas é tão sombria e gótica quanto bem-humorada e leve. Espécie de Sessão da Tarde com muitos toques de erotismo e com duas trilhas sonoras poderosas (a incidental, a cargo do fiel escudeiro Danny Elfman, e a pop, que traz grandes nomes do rock de 1972, como Elton John, T. Rex, Iggy & The Stooges, Black Sabbath, Carpenters e Alice Cooper – que canta duas músicas “em carne e osso” no grande salão da mansão Collins), a produção levanta um pouco a bola do diretor, que ficou devendo ousadia e autoria nos seus últimos dois filmes, Sweeney Todd e Alice. Sair do cinema com a sensação de que Burton, aos poucos, está voltando a ser aquele bom e velho Tim que a gente conheceu e aprendeu a venerar não tem preço. (ARS)
***
Antes de qualquer coisa é preciso que se explique: Sombras da Noite era um seriado de TV da década de 1960, meio terror, meio trash ainda cultuado por muita gente nos Estados Unidos e praticamente desconhecido no Brasil. Dito isso, pode-se começar a falar do filme de Tim Burton de mesmo nome, uma homenagem ao seriado. Foi no set de filmagem de Sweeney Todd que o diretor descobriu a paixão em comum com Johnny Depp pela série.
Na plateia muita gente não gostou do clima pastelão de algumas cenas, por não entender o espírito da coisa. Não se trata somente de mais um arroubo visual do diretor, aqui amenizado, diga-se de passagem. Mas realmente de uma homenagem à série que tinha Jonathan Frid no papel que hoje é de Depp: o vampiro Barnabas Collins. Frid, falecido em abril deste ano, faz inclusive, uma ponta no filme.
Na história, Barnabas Collins é um rico empresário amaldiçoado por uma bruxa por não lhe dar seu amor e, ao invés disso, apaixonar-se por uma outra jovem. Preso por quase dois séculos em um caixão como vampiro, Barnabas ressurge em 1972 com seu visual e vocabulário deslocados para se espantar com carros, eletricidade, TV e outras modernidades e ainda apaixonado pela mesma mulher que acaba encontrando reencarnada na pele de uma babá. Retornando ao que sobrou de sua família, o vampiro tentará salvá-los da bancarrota, mas terá novamente de enfrentar a bruxa que o amaldiçoou e ainda o ama.
Uma mistura de horror, fantasia e humor fácil. Isso resume bem Sombras da Noite (Dark Shadows, EUA, 2012 – Warner). Johnny Depp está eficiente como sempre no papel do protagonista – mas não brilhante como em Piratas do Caribe ou Edward Mãos-de-Tesoura, primeira parceria diretor/ator no cinema. Uma falha grave é a má escalação da vilã: caso a fraca Eva Green trocasse de lugar com a deslumbrante Michelle Pfeiffer, a personagem conseguira toda uma outra projeção e cresceria em qualidade. Mas mesmo num papel menor e menos relevante Pfeiffer se impõe. Quem ressurge das trevas aqui também é Johnny Lee Miller, um dos protagonistas junkies de Trainspotting, praticamente desaparecido desde então. Já Chloë Moretz (que agora ganha um nome do meio, Grace) continua sua escalada ao estrelato, iniciada com Kick Ass e Deixe-me Entrar.
Claro que a esposa do diretor também está no elenco. Helena Bonham Carter segue a escola de Johnny Depp e coleciona papeis bizarros nos filmes do marido. Aqui ela é uma psiquiatra alcoólatra teoricamente responsável pelo tratamento do mais novo membro da família Collins, David (Gulliver McGrath), um garoto de 8 anos cuja mãe se suicidou e o pai é um patife.
Divertido, às vezes um pouco lento, com personagens interessantes e trilha setentista (os saudosistas vão adorar!). Uma comédia trash, como o diretor já havia feito em Marte Ataca. Uma história que mistura diversos gêneros. Um filme de vampiro com uma história de amor, tão em voga ultimamente. Mais um personagem histórico de Depp, mais uma bizarrice pop de Burton. Mas quem não gosta e não pede cada vez mais?
Uma curiosidade: Este é o primeiro vampiro que Depp encarna no cinema, mas foi num filme de vampiros (A Hora do Espanto, de 1984) que ele iniciou sua carreia aos 21 anos. (FSJ)- 28/06/2012 22:15 - Blade Runner
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