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Blade Runner
Escrito por Abonico Qui, 28 de Junho de 2012 22:15
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Como o cult movie que completa 30 anos quase se tornou um dos maiores desastres do cinema
Texto por Marden Machado (Cinemarden)
Fotos: Warner/Divulgação
“O homem fez o homem à sua imagem e semelhança. Agora o problema é seu!”
Que frase boa para chamar a atenção de alguém para ver um filme. Melhor ainda quando este filme oferece no mesmo pacote quatro fatores importantíssimos: 1) É dirigido por um visionário (Ridley Scott, britânico egresso do mundo da publicidade, que havia acabado de vir de Alien – O Oitavo Passageiro); 2) Tem um ator carismático no papel principal (Harrison Ford, no auge da carreira); 3) O roteiro inspira-se em um excelente livro de ficção científica e; 4) Um orçamento generoso (foi na época o mais caro filme no gênero).
Blade Runner - O Caçador de Andróides, terceiro trabalho de Scott, é baseado em Do Androids Dream Of Eletric Sheep? (algo como Os Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?), obra de Philip K. Dick, publicada em 1968. O livro é bastante diferente do filme. Nele, a ação se passa no ano de 1992, em San Francisco, não em 2019, em Los Angeles. A Terra se recupera de uma guerra nuclear que extinguiu todos os animais do planeta. Os humanos mais ricos foram morar em colônias espaciais, os menos afortunados ficaram e vivem agora em um mundo caótico, poluído e superpovoado, enfrentando constantes chuvas ácidas e uma sensação de noite eterna. Deckard é um funcionário da Polícia de San Francisco, casado com Iran e que antes da guerra tinha uma ovelha de estimação. Quando oito andróides Nexus 6 fogem para a Terra, ele é convocado para caçá-los e só aceita o trabalho por causa da recompensa. Planeja comprar uma ovelha elétrica.
O livro de Dick logo despertou o interesse de Hollywood. Em 1969, o diretor estreante Martin Scorsese e Jay Cocks, um jovem crítico e roteirista, tentaram levar, sem sucesso, a história para a tela grande. Somente em 1974 os direitos do livro foram comprados por Herb Jaffe e seu filho, Robert Jaffe, escreveu a primeira adaptação cinematográfica.
O roteiro desagradou completamente o autor, pois Robert simplificou demais a trama do livro. Mais uma vez o projeto não decolou. Três anos mais tarde, em 1977, os Jaffe abrem mão dos direitos. O roteirista Hampton Fancher tenta adquiri-los e não consegue. Pouco tempo depois, no mesmo ano, Fancher fala sobre o livro para um amigo, Brian Kelly, que age prontamente e consegue comprar esses direitos do livro para o cinema.
Kelly envia uma cópia do livro para o produtor inglês Michael Deeley, que adora o material, mas considera-o infilmável. É bom lembrar que estamos em 1977, ano do lançamento de Guerra nas Estrelas, um período em que todos os estúdios estavam procurando por um filme de ficção-científica que pudesse repetir o sucesso da saga criada por George Lucas. Kelly procura Fancher e pede a ele que escreva um roteiro baseado no livro. Fancher recusa o convite e termina convencido por uma amiga, a atriz Barbara Hershey, e passa o ano inteiro de 1978 trabalhando no roteiro que, inicialmente, manteve o título original Do Androids Dream Of Eletric Sheep?. Brian procura Deeley novamente e lhe entrega o roteiro de Fancher. Dois dias depois, Michael telefona para Kelly e assume a produção do filme.
Michael Deeley inicia seus contatos para a obtenção de dinheiro junto aos estúdios. No início de 1979, o título do roteiro é mudado para Android e, pouco depois, para Mechanismo. Deeley ganha um Oscar (melhor filme para O Franco Atirador, de Michael Cimino, que havia produzido) e começa a procurar um diretor para o filme. Ele tem quatro nomes em mente: Ridley Scott, Adrian Lyne, Michael Apted e Bruce Beresford. Nenhum deles, naquele momento, estava disponível para se envolver com um novo projeto.
Aparece então o veterano Robert Mulligan, diretor de O Sol é Para Todos e Houve Uma Vez Um Verão. Mais uma vez o título do roteiro é mudado, agora para Dangerous Days. Mulligan fica envolvido com o projeto até o final de 1979, tendo inclusive trabalhado com Fancher em algumas alterações na trama. A Universal e a CBS Films demonstram interesse, mas terminam desistindo por causa dos custos.
Nesse meio tempo, o roteiro de Fancher, sem as alterações feitas com Mulligan, chega às mãos do diretor Ridley Scott, que havia concluído Alien. Ele fica empolgado com a história, mas está bastante ocupado trabalhando na adaptação do romance Duna, de Frank Herbert, que termina sendo dirigido em 1984 por David Lynch. Deeley, com a ajuda de Ivor Powell, um grande amigo de Scott que havia trabalhado com ele na produção de Alien, consegue finalmente convencer o britânico a assumir a direção do projeto Dangerous Days.
TOMANDO FORMA
Chegamos então a 1980. O livro de Philip K. Dick, lançado há quase 12 anos, tem um roteiro, um produtor e um diretor. Falta apenas definir o elenco e conseguir o dinheiro necessário com algum estúdio. Nessa época, eles chegam a assinar um contrato com a Filmways Pictures, que garante um orçamento de 13 milhões de dólares para a produção do longa.
Scott resolve fazer mudanças no roteiro. Uma das coisas que o desagradam é o termo “detetive”. Ele argumenta com Fancher que este é um termo muito comum em tramas policiais e, já que o filme se propõe a mostrar uma visão diferente do futuro, teria de haver um nome novo para o trabalho que Deckard faz. Fancher lembra-se, então, de um livro do escritor beatnik William Burroughs, intitulado Blade Runner.
Deeley entra em contato com os advogados de Burroughs e compra o uso do título do livro para o filme. Pouco depois, eles descobrem que existe um outro livro de ficção científica, escrito por Alan E. Nourse, que também faz uso desse termo. Ridley Scott resolve, então, chamar seu filme de Gotham City. No entanto, Bob Kane, criador do Batman e da cidade de Gotham City, proíbe-o terminantemente de usar esse título. Os produtores acabam negociando com todas as pessoas envolvidas na posse do nome Blade Runner e, a partir de então, este passa a ser o nome definitivo do filme. Outra alteração feita nesta época diz respeito ao ano em que se desenvolve a ação da trama.
Estamos ainda em meados de 1980. No livro de Philip K. Dick, a ação se passa em 1992 – ou seja, pouco mais de dez anos no futuro. Era uma data próxima demais. Por segurança, decide-se transferir a história para o ano de 2020 e, logo depois e definitivamente, para novembro de 2019. Eles temem que o ano 2020 possa causar alguma confusão com a visão 20/20, um termo médico usado para se referir à visão perfeita. A cidade também é mudada: ao invés de San Francisco, opta-se por Los Angeles.
De repente, uma inesperada mudança acontece: Hampton Fancher, a pessoa que há mais tempo estava envolvida com o projeto, por não mais suportar as pressões de Ridley Scott para fazer pequenas alterações em seu próprio roteiro, abandona o grupo em novembro de 1980. O irmão caçula de Scott, o também diretor Tony Scott, indica o premiado documentarista e também roteirista David Webb Peoples (que mais tarde assinaria os roteiros de Os Imperdoáveis e Os 12 Macacos).
Peoples recebe o último tratamento feito por Fancher e diz a Deeley e Scott que não há o que modificar, pois, na sua opinião, o roteiro está perfeito. Mesmo assim, Scott fala sobre suas ideias e diz que ele deveria criar uma nova palavra para substituir o termo “andróide”, já que este é nome muito utilizado nos livros de ficção científica. Dias depois, lendo um trabalho de ciências de sua filha que tratava de duplicação celular, Peoples lê o termo “replicating” e cria o nome “replicant” (“replicante”). Ridley adota de imediato.
O ELENCO PERFEITO
Com o dinheiro garantido pela Filmways, Deeley e Scott começam a definir o elenco. O primeiro a assumir o papel de Rick Deckard foi Dustin Hoffman, ator indiscutivelmente talentoso, aprovado pelo produtor e pelo diretor. Hoffman participa de diversas reuniões com a equipe principal e parece bastante entusiasmado com o projeto, mas, sem maiores explicações, termina se desligando completamente.
Faltando três meses para o início das filmagens, a Filmways pressiona Deeley e Scott para contratarem o ator principal. De repente, surge o nome de Harrison Ford, que vinha dos sucessos de Guerra nas Estrelas e O Império Contra-Ataca e estava em Londres concluindo as filmagens de Os Caçadores da Arca Perdida. Ford ainda não era um nome forte em Hollywood, mas estava em ascensão. Novamente, entra em cena a atriz Barbara Hershey. Ela liga para Steven Spielberg, fala do projeto Blade Runner e do interesse em convidar Harrison Ford para o papel principal. Spielberg diz a Barbara que Ford é o ator perfeito para o papel e que muito em breve ele será com certeza o maior astro de Hollywood. Essa conversa chega aos ouvidos de Deeley e Scott. Imediatamente a dupla viaja para Londres, onde Spielberg gentilmente mostra cenas de um copião de Os Caçadores da Arca Perdida. Eles não têm mais dúvidas e contratam Harrison Ford para o papel de Deckard. No entanto, isso gera mais um probleminha: Deckard deveria usar um chapéu e, para que ele não ficasse muito parecido com Indiana Jones, Scott troca-o por um sobretudo e pede a Ford que corte o cabelo bem curto.
Depois de definido o ator principal, tem início a contratação do elenco secundário. Ridley Scott quer que todos sejam atores desconhecidos do grande público. Um assistente mostra a ele um vídeo com cenas dos filmes Louca Paixão e O Soldado de Laranja, ambos dirigidos pelo holandês Paul Verhoeven e estrelados pelo ator, também holandês, Rutger Hauer. Scott aprova a sugestão e dispensa um teste com Hauer, que é contratado para o papel de Roy Batty, o líder dos replicantes fugitivos.
Para o papel de Rachael, Scott quer uma atriz que lembre Vivian Leigh e encontra essa semelhança em Sean Young. Daryl Hannah (Pris), aparece para o teste vestida com roupas que ela imaginava serem as que Pris usaria. Ao ver aquela atriz bonita, com um visual bem estranho e um tipo físico incomum, Scott é seduzido e a contrata. Joana Cassidy (Zhora) também utiliza um artifício semelhante e convence Scott de que nenhuma outra atriz faria aquele papel melhor do que ela. Afinal Cassidy sempre praticou esportes, tem um corpo atlético e uma cobra de estimação, aquela que Zhora usa na dança de Salomé, no bar de Taffy Lewis. Brion James (Leon) é contratado porque a secretária de Scott fica bastante assustada com sua fisionomia enquanto ele espera na sala para fazer o teste. Joe Turkel (Tyrell) é chamado por Scott por causa de seu desempenho em O Iluminado, de Stanley Kubrick. William Sanderson (Sebastian), que até então só havia feito papel de vilão, impressiona Scott por causa de seu jeito tímido e solitário. Os outros quatro atores do elenco, M. Emmet Walsh (Bryant), Morgan Paull (Holden), James Hong (Chew) e Hy Pyke (Taffy Lewis), são escolhidos por se encaixarem perfeitamente no tipo físico previsto para suas personagens.
Edward James Olmos (Gaff) é adicionado por causa de sua origem mexicana – o personagem seria filho de mexicanos e japoneses. O papel, que inicialmente era muito reduzido, terminou crescendo bastante graças às boas sugestões dadas por Olmos ao roteirista David Peoples. Na visão do ator, Gaff era uma mistura de diversos povos: a pele amarela dos japoneses, os olhos azuis dos americanos, o rosto de um latino e o bigode de um francês. Além disso, foi dele a criação da cityspeak (aquela língua estranha falada em Los Angeles, que mistura diversos idiomas e não constava do roteiro original).
NASCE UM CLÁSSICO
Nos primeiros dias de janeiro de 1981, quando tudo estava pronto para o início das filmagens, a Filmways Pictures abandona o projeto e resolve investir no filme Um Tiro na Noite, de Brian de Palma. Deeley e Scott, então, levam o projeto a diversos estúdios. Sem sucesso.
Finalmente, eles conseguem chegar a um acordo envolvendo três companhias: a Ladd Company (uma produtora independente), através da Warner Bros, investe 7,5 milhões de dólares (em troca, fica com a distribuição do filme em todo o ocidente); a Shaw Brothers (uma empresa de Singapura, gerenciada por Sir Run-Run Shaw, investe outros 7,5 milhões de dólares e fica com os direitos de distribuição para todo o oriente) e a Tandem Productions (uma produtora de filmes para TV), assume o compromisso de completar qualquer estouro no orçamento até o limite de 10% do valor estipulado, que é de 15 milhões. Na verdade, a Tandem termina investindo mais quatro milhões e deixa o orçamento final de Blade Runner em 19 milhões de dólares. As filmagens têm início no
dia 9 de março de 1981 e são concluídas exatos quatro meses depois, em 9 de junho.
Ridley Scott sempre foi um diretor extremamente perfeccionista e isso fez com que ele tivesse muitos atritos com a equipe técnica e o elenco – principalmente Harrison Ford. Mesmo após o término das filmagens, os problemas não acabam. Os executivos da Warner acham o resultado final bastante complicado para o grande público e, contra a vontade de Scott, fazem duas mudanças drásticas no filme. Primeiro, incluem a narração de Deckard, que Harrison Ford só gravou porque estava ainda sob contrato. Com isso, a Warner acreditava que o filme seria melhor entendido. Há ainda o corte de algumas seqüências. É modificado o final ambíguo e em aberto (Deckard e Rachael entrando no elevador e a porta fechando) para um final feliz em que vemos os dois dentro de um spinner (o carro voador) se dirigindo para iniciar uma nova vida no norte. Este novo final utiliza sobras da seqüência de abertura de O Iluminado, dirigido por Kubrick e produzido pela Warner no ano anterior. Foi esta versão que chega aos cinemas em 25 de junho de 1982.
Ao contrário do esperado, Blade Runner recebe críticas negativas e é um fracasso nas bilheterias americanas. Porém, cria um culto de fiéis seguidores. Quando começa a ser exibido fora dos Estados Unidos (No Brasil, o longa chega somente nas semanas anteriores ao Natal), as críticas melhoram, a bilheteria idem e o culto ainda mai
Desta vez, no entanto, algo aparentemente inimaginável acontece: um estudante de cinema descobre perdido no depósito de filmes de uma universidade da Califórnia a versão original de Blade Runner e começa a exibí-la no circuito universitário. No início de 1991, a Warner é comunicada sobre as sessões privadas e recolhe todo o material. Vendo que o interesse do público está mais que aguçado, os executivos do estúdio não perdem tempo e em setembro do mesmo ano chamam Ridley Scott, que estava concluindo seu épico sobre o descobrimento da América, 1492 – A Conquista do Paraíso. Ridley ganha carta branca para refazer o filme do jeito que ele queria ter feito em 1982.s. Os críticos americanos terminam por rever suas posições e finalmente dão ao filme o seu devido valor. No ano seguinte, quando Blade Runner é lançado em vídeo, o culto já está mais do que estabelecido e a partir daí a Warner não tem mais prejuízos com o filme. De 1983 até 1990, cresce cada vez mais o apelo dos fãs para que o estúdio relance o filme nos cinemas.
Scott aceita o desafio e faz todas as modificações necessárias. A versão final do diretor (director’s cut) é lançada nos Estados Unidos em agosto de 1992, dez anos depois do primeiro lançamento, e chega ao Brasil em março de 1993. Não há mais a narração que durante muito tempo nos acostumamos a ouvir. Novas cenas aéreas de Los Angeles foram incluídas, além do sonho de Deckard com o unicórnio (que sugere ser ele também um replicante) e por último, a eliminação do final feliz. O filme agora termina com Deckard e Rachael entrando no elevador e a porta fechando.
Muito ainda pode ser escrito sobre Blade Runner. Os spinners e os diversos artefatos criados por Syd Mead, os cenários futuristas desenvolvidos por Lawrence Paull e David Snyder, a trilha sonora composta por Vangelis, a direção de Ridley Scott, o desempenho de todo o elenco, o roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, a fotografia de Jordan Cronenweth, os efeitos especiais de Douglas Trumbull, a montagem de Terry Rawlings, a produção de Michael Deeley e todas as implicações que este trabalho conjunto gerou no entendimento dos cinéfilos ao redor do mundo. É difícil encontrar dois fãs com a mesma visão. Cada um entende o filme ao seu modo, e não adianta argumentar.
Existem cinco versões do filme: 1) o primeiro corte do diretor; 2) a versão do estúdio, lançada em 1982, com a narração de Deckard; 3) a primeira versão do diretor, sem a narração e com o final diferente; 4) a segunda versão do diretor com um novo tratamento de cor e 5) a versão definitiva do diretor (que Ridley Scott jura ser a última) com um novo tratamento de cor e algumas poucas imagens adicionais. Todas essas versões fazem parte da edição especial lançada em DVD e Blu-Ray.
Blade Runner é um dos filmes mais influentes das últimas décadas. Basta observar o que foi produzido a partir de 1982, não só em filme, mas também nas histórias em quadrinhos. Alguns exemplos: RoboCop, O Cavaleiro das Trevas (HQ de Frank Miller), os dois primeiros filmes da penúltima série de Batman (de Tim Burton), Chuva Negra (do próprio Scott), O Quinto Elemento, Juiz Dredd (HQ e filme), O Exterminador do Futuro, Estranhos Prazeres, O Corvo e a trilogia Matrix. Blade Runner é um clássico genuíno que resistiu ao teste do tempo e influenciou outras obras. Além de tudo isso, é um autêntico filme de autor, cheio de pequenos detalhes que só quem o viu repetidas vezes e com bastante atenção é capaz de detectar na totalidade e sentir o que ele realmente é: uma experiência única.
BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (Blade Runner – EUA, 1982). Direção: Ridley Scott. Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Brion James, Daryl Hannah, Edward James Olmos, James Hong, Joanna Cassidy, Joe Turkel, M. Emmet Walsh, Morgan Paull e William Sanderson. Duração: 117 minutos. Distribuição: Warner.
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