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A Novela das 8
Escrito por Abonico Sáb, 23 de Junho de 2012 23:41
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Filme de diretor estreante se perde ao relembrar os tempos de Dancin’ Days com panfletagem política
Texto por Flavio St Jayme (Blog Pausa Dramática)
Foto: Universal/Divulgação
Parece que existe uma cartilha que qualquer novo diretor de cinema brasileiro deve ler. Nela existem dois temas básicos a serem explorados: pobreza e ditadura. Dentro deles deve haver uma lista de frases prontas e clichês que estes diretores são aconselhados (senão obrigados) a utilizar. A Novela das 8 (Brasil, 2012 – Universal), infelizmente, não foge à regra do segundo tema.
Partindo de uma ideia que poderia ser original, o estreante diretor e roteirista Odilon Rocha entrega um filme totalmente amador. Aqui, o que poderia ser um ótimo tema – a fixação do brasileiro pelas telenovelas – é destrinchado numa trama sobre luta contra a ditadura militar passada em 1978 e com musicas da novela Dancin’ Days de fundo. Claudia Ohana e Vanessa Giácomo estrelam a trama no papel de Dora e Amanda, respectivamente. A primeira, aparentemente, uma empregada doméstica que depois descobriremos ser uma militante e a segunda, uma prostituta que serve aos militares. Juntas, as duas acabarão fugitivas da polícia de São Paulo rumo ao Rio de Janeiro, onde fica a lendária boate The Frenetic Dancin Days. No começo, Amanda repente que detesta atender seus clientes “bem na hora da novela” e que não vê a hora de conhecer o dance club, mas isso logo se perde quando um manda-chuva da caça aos militantes (Alexandre Nero, em algo que parece um vilão de filme B) entra em cena para perseguir um grupo aparentemente perigoso e importante – do qual Dora um dia fez parte.
A trama vai desenrolando e vamos entendendo o passado de Dora: jornalista e ex-militante cheia de ideologias, depois de passados alguns anos, ela só quer tocar a vida em paz. Mas acaba por visitar os antigos companheiros e colocar sua vida e a de Amanda em risco. Mais personagens vão aparecendo, como o diplomata interpretado por Mateus Solano e o guerrilheiro de Otto Jr.
Frases feitas não faltam e surgem a cada cinco minutos de filme, até o ponto de a própria personagem perguntar a outro se ele “acredita mesmo em todos os jargões que usa”. Alguns momentos chegam a ser cômicos, dado o absurdo de algumas frases e cenas e a artificialidade com que certas expressões tomam. Artificialidade, aliás, transparece em praticamente todos os péssimos atores do elenco e em seu texto panfletário. A interpretação de Guilherme Duarte como o filho da protagonista, por exemplo, é sofrível e sua cena com Mateus Solano poderia ser uma das melhores dos últimos tempos não fosse sua total falta de expressão. Otto Jr, como um guerrilheiro sentimental, também quase faz abandonar a sala do cinema. Claudia Ohana, porém, consegue sustentar todas as cenas em que está presente, em um trabalho que mostra o quanto o filme poderia ser melhor.
Nas mãos de um diretor mais hábil, que desse maior ritmo à história (há visíveis falhas de edição) e que talhasse melhor seu roteiro lugar-comum, seria um filme ótimo. Entretanto, o máximo que ele consegue é entreter com certo constrangimento num longa que parece um trabalho de faculdade de algum grupo “neo-ativista”. Infelizmente ainda falta à maioria dos diretores brasileiros a coragem e originalidade que um dia Fernando Meirelles mostrou com o lendário Domésticas (2001) ou mesmo de Afonso Poyart que estreou na tela grande este ano dirigindo o hollywoodiano Dois Coelhos (2012). Ainda padeceremos um tempo até que os nossos cineastas entendam que a ditadura militar é um tema que já se esgotou dentro de si mesmo e que cinema também pode ser entretenimento, não apenas panfletagem política.- 28/06/2012 22:15 - Blade Runner
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