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Nine

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Rob Marshall desperdiça elenco e obra-prima de Fellini em musical que estreia no Brasil

 

Guido (Day-Lewis) e suas mulheresTexto por Eduardo Colgan

Fotos de Sony Pictures/Divulgação

 

Algo importante a se dizer sobre Nine, musical que te a sua estreia em circuito nacional nesta sexta (29 de janeiro), é que ele é uma adaptação de , filme quase autobiográfico de Fellini feito em 1963. Ou seja, Nine é uma auto-biografia escrita pelas mãos de outra pessoa. Outra coisa relevante a se dizer é que essa outra pessoa é Rob Marshall, diretor de Chicago, também um musical.

 

Chicago teve uma abordagem interessante como musical, que agradou os produtores e deu a direção a Marshall. Ele decidiu que as músicas aconteceriam na imaginação da protagonista, Roxie Hart (Reneé Zellweger), quase como delírios, desejos de uma menina que queria ser uma estrela e assim, imagina que tudo à sua volta é um grande espetáculo.

 

O erro é tentar repetir essa fórmula em Nine, por uma questão muito simples: desgasta fácil. O tempo todo o que é a realidade do filme é entrecortada pelos momentos em que a imaginação do diretor italiano, Guido Contini (Daniel Day-Lewis, ótimo como sempre), em crise tentando fazer seu novo filme, cria grandes números musicais. E enquanto os delírios e devaneios de Guido Anselmi, o original de Marcello Mastroianni, eram misturados com a realidade, criando uma dúvida do que era real e o quê era o filme que ele estava fazendo e o que era apenas sonho e lembrança, todos os devaneios (aqui, musicais) de Contini ficam enclausurados na única coisa que seu filme tem de concreto: um cenário em um estúdio fechado. Um cenário pequeno ainda por cima, se comparada à megalômana estrutura para uma espaçonave que Guido faz em (aparentemente esse vício de manter tudo no mesmo lugar vem do fato de ter sido adaptado como Nine primeiro para a Broadway – ou seja, um vício teatral no cinema). Desse modo, o que é sonho fica no palco, e a realidade acontece, graças à montagem, ao mesmo tempo, explicitando que as músicas estão dentro da cabeça de Guido e deixando elas didaticamente distantes do real. Se ao menos Rob Marshall conseguisse surpreender como cada uma dessas incursões ao set, vá lá. Mas o que ele faz para filmar as seqüências musicais é basicamente deixar sua câmera num travelling, suavemente deslizando de um lado para o outro enquanto objetos do estúdio entram no enquadramento e seus atores ficam lá suando e cantando.

 

Sophia Loren está ótima, como sempreElenco estelar

As atuações, aliás, são o que valem o ingresso. Todos cantam e dançam maravilhosamente. O já citado Day-Lewis herda bem o Guido de Mastroianni, embora faça dele um homem mais sério (Mastroianni às vezes parecia estar alheio, flutuando em meio a tudo). As veteranas Judi Dench e Sophia Loren estão ótimas como sempre, inclusive cantando. Penélope Cruz dá um show de acrobacia durante um dos melhores momentos do filme. Kate Hudson não surpreende com sua performance, mas tem um dos melhores números musicias: “Cinema Italiano” consegue ser uma boa música mesmo chamando o cinema de Contini/Fellini de neo-realista.

 

Fergie, vocalista do Black Eyed Peas, é um dos pontos altos do longa, em uma das cenas que chega mais próxima de 8½, tanto no roteiro quanto na execução (em preto e branco, inclusive). Ela é Saraghina, a prostituta que, na infância de Guido, morava na praia próxima ao seminário em que o garoto estudava. A semelhança com a Saraghina original é surpreendente, mesmo com Fergie sendo muito mais magra e bonita que Eddra Gale.

 

Marion Cotillard também tem uma atuação maravilhosa como Luisa, a esposa de Guido, uma mulher contida e discreta, mas que sente o desprezo do marido batendo forte nela. As interpretações que ela faz das canções são impecáveis, tanto em uma canção triste e intimista como “My Husband Makes Movies” (em que ela fala como alguns homens têm bancos e outros engraxam sapatos, mas o dela faz filmes e vive nos sonhos) como na incrível “Take It All”, em que a personagem “se rebela” e a atriz prova que é capaz de cantar e dançar muito mais do que se suporia a princípio, quando se vê a personagem presa em um vestido reto e um coque no cabelo.

 

Completando o elenco estelar, Nicole Kidman prova que ainda sabe cantar bem como em Moulin Rouge, mas Nine dá a ela poucas chances de brilhar. Enquanto a Claudia original (não por acaso interpretada pela musa de Fellini, Claudia Cardinale) tem uma das melhores cenas de , em que ela fica cortando as tentativas de explicação de Guido afirmando que é tudo “porque ele não sabe amar”, a Claudia de Kidman até é dada a chance de dizer a frase, mas é apenas uma vez, e de um modo que fica sem impacto e a força que a cena original tinha.

 

Musical tem edição de videoclipeSem devaneios

E, pior do que sua câmera óbvia e sua edição de videoclipe, o que decepciona em Nine é justamente o roteiro. Se os roteiristas (um deles o também diretor Anthony Minghella, filho de pais italianos, falecido em março de 2008) tinham uma primorosa matéria-prima, conseguiram a proeza de minimizar seus momentos de maior impacto, cortar grandes momentos e reorganizar eventos para perderem sua força. Por exemplo, a abertura. Em 8½, o protagonista tem claustrofobia dentro do seu carro em um engarrafamento e imagina que sai voando. Em Nine, ela traz logo de cara todas as mulheres que influenciaram a vida de Guido, deixando óbvio que esse é o grande problema da vida dele, ser rodeada de belas mulheres, sem deixar qualquer espaço para maiores interpretações. Os devaneios do Guido Anselmi, o de Mastroianni, provam-se muito mais interessantes também, como quando ele imagina todas as mulheres de sua vida servindo-o em um harém. E a coletiva de imprensa, o clímax de , acontece logo no começo em Nine, perdendo todo seu clima...

 

Mas o grande problema do roteiro de Nine, o grande problema mesmo, é que ele soluciona a confusão de Guido. termina com Guido Anselmi no ápice de sua confusão, em meio a uma coletiva, gritaria, uma arma na boca e uma vertiginosa câmera rodando ao redor dele, para depois coroar tudo com um grande circo em que todas as figuras significativas da vida de Guido surgem vestidas de branco e comecem a dançar ao redor do seu cenário gigantesco, com ele rindo e dirigindo todos. Já Nine se encerra com Guido seguro e sabendo o que quer, em um clima de “agora vai”, tendo escolhido sua mulher preferida e as figuras de branco da vida dele surgem não como o ápice da maluquice, mas quase como anjos abençoando uma fase de clareza e certezas.

 

Nine é um filme claro. , confusão. Confusão é quase sempre mais interessante que a obviedade e o didatismo. A personagem de Kate Hudson diz: “I love the Cinema Italiano!” Por isso, é melhor ficar com o italiano mesmo...