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Amor Extremo

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Mulheres da vida de Dylan Thomas fazem o poeta galês virar personagem secundário

 

Dylan Thomas (Rhys), contido nos excessosTexto por Abonico R. Smith

Fotos de Imagem Filmes/Divulgação

 

Extremamente hábil e sensível com as palavras, o jovem Dylan Thomas deixou os campos tranqüilos do País de Gales, onde nascera e crescera, para se aventurar em uma Londres apavorada pelos bombardeios da Segunda Guerra. Trabalhava profissionalmente para a BBC, escrevendo textos editoriais para confortar a população durante os dias de perigo, horror e destruição. Contudo, o que falava sempre alto era a sua paixão pela poesia e foi exatamente por ela que inscreveu seu nome como um dos maiores poetas britânicos do Século 20. Como todo poeta maldito, Thomas fazia questão de manter sua vida desregrada e cheia de excessos. A visceralidade de seus versos transferiu-se tanto para sua vida que morreu antes de completar 40 anos.

 

Todos estes dados do parágrafo biográfico acima não são lá muito importantes para o desenrolar de Amor Extremo (The Edge Of Love, Grã-Bretanha, 2008, Imagem Filmes), filme que chega agora aos cinemas nacionais depois de integrar a programação da Mostra de São Paulo no final do ano passado. Dylan é o ponto de partida para a história, mas não o centro dela, Com o passar das cenas, o poeta (interpretado por Matthew Rhys, ator da série de TV Brothers & Sisters) acaba perdendo espaço para as duas mulheres que gravitam ao seu redor.

 

Uma delas é Caitlin McNamara (Sienna Miller). Dançarina tão jovem quanto o galês, Catty fazia questão de manter a mesma conduta pessoal sem conhecer limites ou barreiras sociais. Talvez isto tenha sido primordial para a atração rápida e a construção de um bem-sucedido casamento com Dylan. Cada um sempre fazia o que bem queria, quando queria, inclusive com a presença de outros parceiros nada ignorada.

 

Cantora de extrema sensualidade, Vera Phillips (Keira Knigthley) faz questão de manter a pose de mulher durona e independente. Foge de compromissos conjugais até reencontrar em meio ao enfumaçado ambiente boêmio o primeiro homem de sua vida. Ela conheceu Thomas durante a infância, cresceu muito próxima a ele e experimentou com ele pela primeira vez o sexo aos 15 anos em uma praia galesa.

Vera (Keira) e Cat (Sienna): amigas íntimasFantasmas

A partir de então, Dylan passa a viver com as duas um atormentado triângulo amoroso onde cada um enfrenta seus próprios fantasmas. Ele, o de reviver uma paixão juvenil. Vera, o de se deparar com uma pessoa modificada pelo tempo e a vontade de deixar o passado enterrado onde ele está. Caitlin, o de encontrar na cantora uma paixão/identificação tão grande a ponto de viver uma amizade muito íntima com a recém-chegada. Aliás são estes laços estreitos que passam a ganhar cada vez mais foco ao longo do filme.

 

A confusão aumenta com a chegada do militar William Killick (Cillian Murphy), que se apaixona profundamente por Vera e passa a dividir sua intimidade com o trio. Confusa quanto a seus sentimentos, a cantora reluta em dizer que ama o marido, apesar de engravidar e assumir com firmeza o casamento. Promete, enfim, declarar-se quando o capitão retornar do front e, diante da gravidez, propõe a Dylan e Catty que, através das economias de Killick, todos troquem a insegurança londrina pela paz e tranquilidade de dois chalés vizinhos na praia de Gales. Ao voltar do combate em terras gregas, William começa a sofrer sérios problemas emocionais causados pelos horrores da guerra e suas atitudes colocam em sério risco a vida e a trajetória de todos os quatro.

Baseado em fatos verídicos mas longe de ser algo bem biográfico sobre o poeta, o filme divide-se em duas partes distintas, passadas na tensão da guerra que abate Londres e na paz dos verdes de Gales. Na primeira, constrói-se o futuro. A segunda é atormentada pelos fantasmas recentes adquiridos na capital. Ambas são costuradas não só pelos lindos versos de Thomas (como a pungente segunda parte do poema “In My Craft Or Sullen Art”) mas também pela música da época. A cargo do cultuado Angelo Badalamenti, a trilha sonora é repleta de jazz e baladas daquela época (curiosidade: não é só Keira que dá uma de crooner; olhos mais atentos identificam também Suggs, vocalista do grupo two-tone Madness, durante o número musical mais dramático do filme).

 

A direção John Maybury – que se projetou no início da década de 90 com o tocante clipe “Nothing Compares 2 U”, da irnadesa Sinéad O´Connor – se não compromete, também não estimula muito os atores a darem mais de si na composição dos personagens – Rhys faz um Thomas bastante contido e quem já viu Factory Girl não tem a menor dúvida de que Sienna Miller poderia render bem mais na pele da louquinha Caitlin. Talvez por isso o impacto de vida e obra do poeta galês acabe diluído em meio a aparentemente mais uma história com a Segunda Guerra como pano de fundo.