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Abraços Partidos
Escrito por Abonico Qua, 27 de Janeiro de 2010 00:14
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Almodóvar esquece os exageros e surpreende na medida mínima esperada em novo filme
Texto por Karina Mikowski
Fotos por Universal Pictures/Divulgação
Almodóvar é sempre Almodóvar e em cada uma de suas obras sempre se pode perceber os toques de crueza com que ele trata o corriqueiro da vida. Essa é uma das características que fazem do diretor uma figura ímpar, daquelas que pega o espectador de surpresa mesmo que este saiba que será surpreendido. Nenhuma gota de suor é desperdiçada; nenhum gemido, emudecido.
Em seu mais recente filme, Abraços partidos (Los Abrazos Rotos, Espanha, 2009 – Universal Pictures) Almodóvar também surpreende, mas na medida mínima esperada. A história de Lena e Harry/Mateo parte de um potencial de coisas que podem ir a qualquer lugar, tomar qualquer rumo, aprofundar-se em si mesma e realmente emocionar. Mas algo não funciona e a trama de amores e vinganças torna-se algo mais raso do que parece a intenção do diretor.
Talvez os abruptos saltos temporais que obrigam que o espectador aceite as grandes mudanças na vida dos personagens sem ter participado delas, ou ser informado de como aconteceram. Talvez o fato de que Lena e Mateo, apesar de serem o amor da vida um do outro, abrem mão desse amor pela produção de um filme. Mateo, inclusive, aceita que sua cara-metade sofra diversos tipos de agressão por conta da mesma obra. O problema aí é que toda a abnegação dos personagens não se justifica, a não ser que o diretor esteja fazendo de forma velada a maior homenagem de sua carreira aos filmes em si, o que não parece o caso, tratando-se de Almodóvar.
É difícil acreditar que pessoas tão apaixonadas, tanto um pelo outro quanto pela vida, possam ser tão submissas e fracas. É difícil não lembrar dos grandes dramas dos anos 1980, época em que se passa parte da trama, com todos os seus exageros e pieguices. E ainda assim, Lena e Mateo surpreendem em sua brandura.
O filme é lindamente executado, com o kitsch da época para justificar e reforçar as cores intensas. A fotografia é belíssima, seja nas paisagens litorâneas, seja numa rua escura durante a noite. Junte-se a isso boas (não ótimas, à exceção de Rubén Ochandiano que interpreta Ray X) interpretações dos atores, bom ritmo de roteiro e algumas reviravoltas e o que se consegue é um Almodóvar mediano, burocrático e caxias. Pelo menos para os padrões do diretor espanhol.
Talvez ele esteja se tornando mais realista, talvez mais preguiçoso. O fato é que o diretor, que também escreveu o roteiro, mostra-se em Abraços Partidos um cineasta mais suave, mais saudosista, menos cru.
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