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Jack Bauer está de volta com nova prioridade mas mantendo velhos hábitos

 

Jack Bauer troca a neta pela naçãoTexto por Márcio Padrão (gentilmente cedido por Scream & Yell)

Fotos: Fox/Divulgação

 

Bastam os primeiros dez minutos da oitava temporada para percebermos que as coisas continuam no seu devido lugar em 24 Horas. Está tudo lá: o aviso informando que os eventos ocorridos no dia serão em tempo real; uma frenética cena de ação envolvendo criminosos cujas motivações conheceremos depois; a presidência dos Estados Unidos envolvida em algum importante acontecimento com uma nação do outro lado do Atlântico; e, claro, Jack Bauer (Kiefer Sutherland) sendo “convocado”, pela força das circunstâncias, para salvar o país.

 

Desta vez os “Outros” são a fictícia república do “Kamistan” (um Irã-wannabe, para evitar polêmicas), que pretende assinar em Nova York um acordo de desarmamento nuclear com os Estados Unidos a fim de anular sanções comerciais contra seu país. No entanto, como já é clichê na série, algum grupo terrorista quer botar terra na brincadeira e planeja matar o presidente Omar Hassan (Anil Kapoor) antes que o tratado seja assinado.

 

Já o nosso herói surge mais sossegado do que o usual. Jack descansa no apartamento de sua filha Kim (Elisha Cuthbert) enquanto assiste TV com a netinha Teri. Ele parece determinado a mudar de vida e viver com Kim em Los Angeles, até que um informante ensanguentado bate à sua volta e relata o complô internacional contra o presidente Hassan.

 

Em outros tempos, seria o bastante para acordar a fera, mas Bauer hesita se envolver no caso porque a neta o fez mudar de prioridades. Para surpresa geral, a sua filha Kim é quem o convence. “Se algo terrível acontecer e você poderia ter feito algo para impedir? Não acho que conseguiria viver consigo mesmo”, diz, convicta do quanto conhece o pai que tem. E assim ele retorna, ainda que resignado, aos velhos hábitos.

 

O que mais chamará a atenção dos fãs antigos é o retorno da CTU, que havia sido desativada na temporada anterior. Palco de muitas redes de intrigas, a Unidade Contra-Terrorismo está novamente cheia de estereótipos criados apenas para alimentar subtramas, como o agente bonzinho, o funcionário malandro e o típico chefe antipático que faz tudo errado aos olhos do público. Mas o melhor desse cenário é rever a mal humorada analista Chloe O’Brien (Mary Lynn Rajskub) em ação, dando foras em todos e reforçando sua cumplicidade com Jack Bauer.

 

As duas primeiras horas carecem de boas cenas de ação, mas são eficientes na ambientação da trama e na tensão dos diálogos, com destaque para o reencontro entre Jack e Chloe na CTU, onde esta última praticamente implora a ele que a ajude em uma pista forte. Há ainda duas subtramas românticas que servem mais para preencher o tempo e humanizar os personagens, embora o romance do presidente Hassan tenha lá sua relação com a conspiração.

 

Jogadores apresentados, agora é só lançar os dados e contar os segundos para que o maior rival de Chuck Norris nos facts da internet consiga salvar o dia de novo. Não sem muito sangue e decisões difíceis no caminho, claro. O caráter trágico de Jack Bauer continua sendo um dos maiores combustíveis de 24 Horas. E o público, seu maior cúmplice.

 

Cena do início da sétima temporadaNove anos depois

Além das comemorações dos 20 anos de Os Simpsons, o canal de TV por assinatura FOX tem outra “prata da casa” comemorando uma grande marca em 2010. Em sua oitava temporada, 24 Horas está a poucos episódios de se tornar a série de ação e espionagem mais longeva da TV norte-americana. O dilema no qual os produtores devem estar metidos agora é encerrar no auge ou esgotar ainda mais a fórmula sob o risco iminente da queda de qualidade?

 

Os dias mais tensos da vida de Jack Bauer já deixaram sua marca na cultura pop, mas é importante rever essa história de sucesso sob as devidas circunstâncias. Ao estrear apenas dois meses após o 11 de Setembro de 2001, o trágico agente antiterrorista interpretado por Kiefer Sutherland não precisava de muito esforço para ganhar o coração dos americanos. Foi o personagem certo na hora certa, o típico herói de guerra que de tempos em tempos aparece para salvar o mundo – pelo menos na ficção – como ocorreu com Capitão América ou Rambo no passado, para ficar em apenas dois exemplos.

 

Mas o que tornou 24 Horas e Jack Bauer ícones universais foi a capacidade do programa de pintar seu universo ficcional com tintas muito semelhantes às da realidade geopolítica da última década. Nesse sentido, o maior tiro certeiro da série foi “prever” Barack Obama com o presidente negro David Palmer. Desde a temporada anterior, o seriado também vem apostando na sua “Hillary Clinton”, a presidente Allison Taylor.

 

As temporadas seguintes conseguiram manter o bom equilíbrio entre o entretenimento e a reflexão no limite da polêmica, além de consolidar Bauer como um dos grandes bad ass dos últimos anos. No entanto, o péssimo sexto ano e um hiato de quase dois anos causado pela greve dos roteiristas de 2007 quase puseram tudo a perder. Do outro lado da TV, não deve ter ajudado muito a ameaça da Al-Qaeda ter minguado com o passar dos anos.

 

Em 2009, foi curioso notar que o renascimento da série veio em um momento bem diferente a 2001: no embalo da euforia otimista pós-Obama. A sétima temporada conseguiu trazer ares de novidade ao introduzir a presidente Taylor, vivida com segurança por Cherry Jones; o fim da desgastada Unidade Contra-Terrorismo (CTU); o retorno de um coadjuvante carismático, Tony Almeida; e a presença ilustre de Jon Voight como um dos vilões.

 

Após oito dias tensos torturando árabes, africanos, orientais e latinos em prol da segurança dos Estados Unidos, Jack Bauer está cada vez mais no limite. Não apenas físico e psicológico, mas também criativo. Mesmo os fãs mais ardorosos vêm admitindo que a série está reciclando sacadas e situações de outras temporadas. Mesmo assim, a audiência continua satisfatória. O “Dia 7″ obteve 12,6 milhões de espectadores. Para se ter um parâmetro com outro hit da televisão atual, Lost fechou sua quinta temporada em 11,2 milhões.

 

Mesmo que na teoria esta oitava temporada seja a última, já existem conversas cautelosas sobre o nono ano, dependendo do retorno. Se tudo der certo, 24 Horas pode se consolidar, ao lado da família amarela de Springfield, em um seleto grupo de programas dos quais não conseguimos viver sem. Afinal, qual fã da série consegue imaginar a vida sem as telas divididas, Bauer gritando dammit a cada cinco minutos ou o tenso relógio digital com ruído de bomba-relógio?

 

Os segundos continuam a correr.


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