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Titãs - A Vida Até Parece Uma Festa

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Trajetória da banda é recontada nos cinemas em documentário assinado pelo vocalista Branco Mello

Brincadeiras em quartos de hotéisTextos de Abonico R. Smith (matéria/entrevista) e Karen Tortato (resenha)

Fotos Moviemobz/Divulgação

 

Vida cheia de som e fúria

Pelo corredor da sala de projeção anda um homem muito mais do que feliz. Ele está pleno, radiante. Os olhos brilham e iluminam o escuro. O peito, estufado em uma de suas peculiares e inseparáveis camiseta preta, bate de emoção, perfeitamente confirmada por largos sorrisos logo ao término da sessão. Branco Mello parece um menino ainda maravilhado com a sua própria façanha e incapaz de parar de lamber a própria cria.

Branco é um dos cinco remanescentes daquela que foi a maior (em tamanho, afinal começaram em número de oito) formação da geração que ajudou a popularizar o rock em verde e amarelo e sedimentá-lo como um grande nicho mercadológico no país. Apesar, é claro, da pecha de malucos – reforçada no início de carreira por uma esquisita combinação de cortes de cabelos radicais, maquiagem unusual, roupas coloridas e coreografias impactantes. No ano em que os Titãs celebra seus 25 anos de carreira e promete um novo disco de inéditas (algo que não ocorre desde 2003) e espera um novo recomeço de carreira (profundamente abalada na última década por causa de seguidas mudanças de gravadoras, a morte trágica do guitarrista Marcelo Frommer e a saída turbulenta e abrupta do baixista/compositor/vocalista Nando Reis), ele dá aos fãs um dos maiores presentes da longa história da banda.

Decalcando o título da biografia literária do grupo (que, por sua vez, fora extraído de um dos versos do hit “Diversão”), o documentário Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa chega aos cinemas contando em uma hora e meia toda a carreira através de imagens – muitas delas perdidas para sempre no submundo da história da televisão popular brasileira; algumas outras até então guardadas sob sete chaves em acervos pessoais dos músicos e seus familiares. Curioso, inusitado, divertido, espontâneo, singelo, particular, íntimo, emocionante, bem-humorado e auto-reflexivo: estes são apenas dez dos adjetivos de uma extensa lista que você pode usar para lembrar do que acabara de vez assim que se levantar da cadeira do cinema.

Com a co-direção da Oscar Rodrigues Alves – cineasta que, segundo Branco, foi convocado para dar uma “ótica externa à banda” e “imprimir um lado menos emotivo ao documentário” – o titã filtrou cerca de trezentas horas de imagens brutas. Entre o material não captado e guardado por ele, estavam participações em antigos programas de TV, resgatadas através de pesquisas feitas nos arquivos das emissoras. A dupla ainda lamçou mão de precárias gravações em VHS, registradas por amigos e parentes – já que muitas das cenas mais engraçadas, inexplicavelmente, já haviam sido apagadas para sempre pelos próprios canais. A saber de três delas, todas no iniciozinho da carreira: Marília Gabriela apresentando os músicos ao conservadoríssimo ex-presidente Jânio Quadros; Hebe Camargo, do seu sofá, perguntando “isso é punk?” antes de rolar o playback de “Sonífera Ilha”; e alguns músicos participando do quadro Sonho Maluco, apresentado por Gugu Liberato, no qual tinham de salvar uma fã presa por uma “aranha gigante e malvada” em uma grande teia pendurada no alto de um galpão. Gargalhadas garantidas por tios, avós, pais e irmãos dos músicos, sempre preocupados em registrar a ascensão de seus talentos surgidos na família.

Tirando o mofo

Tudo começou em 1991, quando Ângela Figueiredo, esposa de Branco e co-produtora do documentário, preocupou-se em decupar as primeiras imagens guardadas no fundo do baú. “Foi ela quem deu toda a força inicial para a gente recuperar tudo isso. Olhava fita por fita, se preocupava em tirar o mofo delas, rebobinava... Foi um processo bem artesanal”, conta o vocalista. Outro fator determinante foi o clipe de “Epitáfio”, início da parceria com Rodrigues Alves, em 2002. Para ilustrar a letra melancólica da canção (do eterno e marcante refrão “O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído”) e com a banda ainda abalada pela perda de Frommer, os registros pessoais da vida de cada integrante imprimiram o tom emocional suficiente para fazer Branco e Oscar começarem a assistir e separar as principais cenas para o documentário.

Sessões de Tudo ao Mesmo Tempo Agora“Foi um processo que levou seis anos. Como ampliar aquelas imagens de fitas VHS em uma tela de cinema não era uma tarefa muito fácil, precisamos fazer diversos testes de laboratório e projeção em salas de cinema”, relata. Branco confessa que mexeu-se muito pouco no que era necessário melhorar tecnicamente, como na questão de uma maior nitidez das imagens durante a pós-produção. “Preferimos não fazer maquiagens. Apostamos na opção artística de fazer valer o registro histórico, de mostrar tudo aquilo do mesmo jeito que foi feito na época”. Mesmo assim, segundo ele, não houve

Outra grande dificuldade para levar a história documental às grandes telas foi correr atrás de todo mundo que aparece nas cenas, nem que seja por poucos segundos. “Tivemos de procurar mais de duzentas pessoas para que elas autorizassem o uso de suas imagens. Imagine: todas as chacretes, Roberto Carlos, Jimmy Cliff, Silvio Santos... Foi complicado e levou um tempo, mas no final todos concordaram e nos deram a permissão.”

Nem para reunir de volta todos os ex-Titãs foi complicado. Arnaldo Antunes (que saiu da banda da forma mais amigável possível e volta e meia se reúne com seus ex-companheiros) e Nando (que partiu para carreira solo de modo turbulento e até hoje não muito bem explicado) foram alguns dos que estiveram presentes na primeira exibição pública de A Vida Até Parece..., realizada em São Paulo. De Portugal vieram os filhos de Marcelo, para representar o pai. “É um orgulho muito grande apresentar este filme. Ele é a minha história, a nossa história. E é um orgulho não só para nós, que vivemos tudo aquilo. Mas também percebo a molecada que nem era nascida quando gravamos nossos primeiros discos vibrar também. Eles percebem que é mesmo possível sonhar seguir em frente na vida com o seu grupo de amigos.”

Este documentário inaugura com o pé direito uma nova fase. Os Titãs estão prestes a lançar um novo álbum de inéditas (o último foi há seis anos e não provocou tanto impacto quanto os trabalhos das duas décadas anteriores) e experimentam um período de mudanças. Novo empresário, nova gravadora (Arsenal, sob a direção artística do midas do pop rock nacional que atende pelo nome de Rick Bonadio), nova formação. Reduzido a quinteto, o grupo concebeu as novas músicas com Paulo Miklos assumindo a segunda guitarra e Branco empunhando o contrabaixo. “Estudei bastante o instrumento durante todo este tempo”, confessa Branco, que já havia experimentado a mesma função em meados dos anos 90, durante o projeto paralelo Kleiderman, tocado ao lado de Sergio Britto durante uma longa pausa nas atividades da banda. “Antes era só aquela parada de punk rock. Tocava numa boa, bem tranquilo. Agora toco o baixo de um jeito meu e o arranjo sai com a cara dos cinco.”

O “novo” diretor considera seu filme um momento único na carreira da banda. “Somos nós olhando para a frente, mostrando como vale a pena todo esse amor pela música e pela vida. É um belo panorama que mostra o porquê dos Titãs ainda estarem aí na ativa, na linha de combate, com toda vitalidade, procurando sempre se reinventar.”

Vitalidade esta, aliás, que reflete a chegada dos músicos à casa dos 50 anos. “Eu estou com quase 47. Paulo fez 50 agora em janeiro, foi o primeiro de nós a alcançar esta marca. Britto será o próximo... A gente está bem, com a maturidade suficiente de saber viver em conjunto e mesmo assim se satisfazer individualmente. Temos a experiência para controlar a ansiedade, trabalhar com prazos e concentração, correr menos e fazer jogadas mais bonitas. A cabeça fica mais tranqüila para andar com calma e conduzir tudo com serenidade.”

Como se não bastasse, Branco Mello ainda consegue se dividir com outras atividades. Fora a atividade principal com os Titãs e o envolvimento com a produção e divulgação do seu documentário nos cinemas digitais de todo o país, ele ainda desenvolve outros trabalhos musicais ao lado do amigo Emerson Vilani (guitarrista de apoio nos shows do grupo, convocado logo após a morte de Frommer). A dupla compõe trilhas para longas-metragens, espetáculos de circo e teatro e alguns programas de TV. “Estou trabalhando bastante. Nem sei direito o que é ter um dia livre. Estou bem tudo ao mesmo tempo agora”.

Abonico R. Smith

Nos tempos de Cabeça DinosauroResenha

Metamorfose ambulante

O “octeto” de rock mais amado do Brasil sempre foi surpreendente pela trajetória construída ao longo de um quarto de século de convivência. Durante o tempo sofreram algumas metamorfoses, porém nunca perderam o caráter individualista na construção de melodias e letras sempre muito bem elaboradas. Conseguiram unir poesia e simplicidade. Falaram de ódio, amor, de coisas normais e anormais. Surtaram nos meandros do concreto, do básico e do punk. Voaram entre hemisférios distintos e a história foi se lapidando a cada álbum. Alguns lendários, alguns mais discoteca básica, outros mais ligeiros, mais certeiros, mais abrasivos e contundentes. Titãs me lembra bandas como New York Dolls e Ramones, que tiveram uma ascensão ligeira aceita nas festas e rodas mais alternativas; tiveram influência da mídia, dos Beatles, dos Rolling Stones e da indústria fonográfica; mas principalmente foram bombardeados pela maior de todas as influências: a espontaneidade deles mesmos. Sempre foi a personalidade de cada um em cada composição, ora Bellotto, ora Britto, ora Antunes, ora Miklos, ora Frommer, ora Mello, ora Reis e até mesmo Gavin. Dedicação total ao rock nunca deixando de lado a diversão, amizade e irmandade cega, além de toda a extroversão mesmo nos momentos mais sérios.

O documentário Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa (já em cartaz em cinemas digitais de várias cidades brasileiras) é o resumo da ópera-rock destes oito cavaleiros do apocalipse musical. Um documentário extremante bom, compilação dos melhores momentos on e off bastidores. Branco Mello em parceria Oscar Rodrigues Alves (diretor de alguns clipes recentes dos Titãs, entre eles o premiadíssimo e autobiográfico “Epitáfio”) fizeram uma esmerada pesquisa que resultou na fusão, talvez mais brilhante de um documentário de música divertido e instigante.

E A Vida Até Parece Uma Festa não poderia deixar de ser autêntico. Consegue-se sentir São Paulo way of life na narrativa criada por Branco e Oscar através de uma compilação inédita para os padrões musicais da vide-arte musical. Vai desde a iniciação pueril-tropicália do embrião da carreira como Os Mamões e as Mamonetes – três moleques mirrados (Branco, Marcelo e Toni – este último no vocal) que se jogam pela primeira vez em um programa de calouros tipo B onde um dos personagens nada mais é que Wilson Simonal como jurado...

Avalanche em detalhes

Surpresas ao longo da trajetória documentada não acabam. Tome como partida disso a descoberta da mudança radical de estilo na volta de uma turnê internacional. Foi o lado B da banda desencravando-se com a dor do pecado de ser um rockstar exposto ao mundo dos vícios e tormentos, uma balada contra a hipocrisia vinha devagar e crescendo como um Tetsuo no final da saga Akira.

Folga conjunta durante uma turnêA semelhança com Touring dos Ramones no video clipe onde mostram suas viagens em turnê. A parceria emocionante com o Rei Roberto Carlos, mostrando que o rock pesado não era, afinal, tão duro assim. Um novo mundo abrindo-se a cada descoberta para os Titãs incansáveis do rock...

Em “32 Dentes”, mais uma surpresa que faz-nos entender bem a origem da letra e sua velada discussão sobre talento e reconhecimento social nas massas. Uma parceria muito bonita, um momento glorioso. Em "Polícia", os Titãs dão vazão ao ódio quase sarcástico de uma época recheada de drogas e nervosismo. E, depois, a poesia volta misturada à vida de cada um deles, muito bem retratada em detalhes, ora triviais, ora realmente conturbados e reveladores. A insanidade de Arnaldo crescendo abertamente em letras e movimentos já mostrando o que poderia ser sua carreira pós Titãs, hoje tão respeitado como músico, escritor, artista e poeta.

Dos vários formatos arquivados por Branco e sua troupe desde VHS até mini-DVs, sentimos uma evolução humana acontecendo, na forma, no requinte, no tirar e colocar elementos. No conseguir manter-se em vida mesmo depois de mudanças. Juntos, abertos e conscientes apesar dos momentos de incosciência, de fuga e de conflitos pessoais. As saídas de Arnaldo e Nando, a morte de Marcelo. Família, filhos, alegrias e desesperos.

Uma avalanche em detalhes – como o cabelo de Branco influenciado por Jesus and Mary Chain ou o primeiro arranjo de “Bichos Escrotos” – me fizeram relembrar porque eu gostava de assistir ao Chacrinha aos 11 anos de idade e ir às festinhas americanas sempre com um disco do Titãs embaixo do braço. Por isso, A Vida...  é imperdível aos amantes do rock brasileiro que curtem viajar pelos detalhes da história e gloria dos seus astros maiores.

Karen Tortato