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O Leitor

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Como um pseudo-amor embalado pela literatura conquista o espectador indo bem além da sinopse

 

Texto de Tanara de Araújo

Fotos de Imagem Filmes/Divulgação

Em cinema, uma regra é básica: o espectador não deve limitar suas expectativas em torno da sinopse revelada, seja ela mirabolante ou insossa. São inúmeros os casos de filmes que muito prometem no papel, mas simplesmente não funcionam na prática. E, claro, o oposto, quando a premissa parece enfadonha mas a trama cresce ao ser transposta para a grande tela branca. O Leitor (The Reader, EUA, 2008) faz parte desse segundo time.

À primeira vista, o filme dirigido por Stephen Daldry (As Horas, Billy Elliot) e baseado no livro homônimo de Bernhard Schlink não é exatamente sedutor. O jovem Michael Berg (David Kross), 15 anos, certo dia passa mal e é acudido pela bilheteira Hannah Schmitz (Kate Winslet). Sem muitas delongas, eles logo passam a viver um interlúdio amoroso, insólito não só pela diferença de 20 anos de idade, mas especialmente por ela sempre pedir que o garoto leia em voz alta, antes ou depois do sexo, trechos de clássicos, como A Odisséia, O Amante de Lady Chatterley e Guerra e Paz, entre outros. Logo abandonado sem explicação, ele a reencontra oito anos mais tarde em uma situação bem menos lírica.

Menos é mais

Então, o que esperar desse pseudo-amor mal sucedido, embalado por pequenas odes à literatura? Várias camadas de sutilezas e delicadas reviravoltas. O que flui entre as paredes da casa de Hannah é parte de um doloroso quebra-cabeça iniciado anos antes e que só irá acabar uma vida inteira depois. O encaixar dessas peças, escondidas, por vezes, em cenas modestas, isso sim justifica o valor do ingresso e não pode ser vendido separadamente da sala escura do cinema.

Embora tenha suas surpresas, O Leitor ainda é um drama que se passa na Alemanha (entre o pós-guerra e o ano de 1995) e não uma aventura nas frenéticas ruas de Los Angeles. Ou seja, é conduzido de um modo mais contido e austero, acentuado pela densa trilha original de Nico Muhly. Na mesma linha do “menos é mais”, os diretores de fotografia Roger Deakins e Chris Menges apostam nos tons neutros, ligeiramente azulados, que melhor ilustram tanto a frieza do ambiente em questão quanto a profunda dificuldade de comunicação entre os personagens.

Entre as atuações, Kate Winslet reina. A inglesa, que faz bonito desde sua estréia em Almas Gêmeas (primoroso filme de Peter Jackson), volta a dominar a cena com mais uma irretocável atuação. Equilibrada com apuro no frágil limite entre a severidade e a ingenuidade, a personificação da misteriosa Hannah lhe rendeu muito mais que elogios, absolutamente comuns quando o assunto é o seu currículo. Em um exemplar caso de justiça que tarda, mas não falha, Kate finalmente conquistou seu merecido Oscar na última cerimônia da Academia — ela já havia sido indicada três vezes ao prêmio principal e outras duas como coadjuvante.

Enquanto Kate faz valer cada segundo de sua aparição, o mesmo não pode ser estendido a Ralph Fiennes (que interpreta Michael na idade adulta). Inquestionavelmente um dos melhores atores de sua geração, Fiennes não repete a segurança transmitida em papéis como Amon Goeth (o famoso vilão de A Lista de Schindler), Maurice Bendrix (de Fim de Caso) ou até mesmo o recente Harry Waters (de Na Mira do Chefe). Perdido e sem brilho, Michael Berg adulto é apenas uma sombra de sua versão jovem, bem defendida pelo novato David Kross.

 

Além do Oscar e do Globo de Ouro concedidos a Kate Winslet, O Leitor colecionou indicações como melhor filme, diretor, roteiro adaptado e fotografia. Foi título lembrado não só pela tradicional Academia de Ciências Cinematográficas, como demais instituições do gênero. É certo que premiações não são garantia inexorável da qualidade do produto. No entanto, quando focam com insistência um título sem a grandiloquência de um Benjamin Button ou o emocionante discurso de um Milk, vale aquela observação mais atenta do que a leitura de uma sinopse rasteira.

 

 

 


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