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Inimigos Públicos

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Nem as boas atuações dos protagonistas salvam o filme sobre o gângster John Dilinger

 

Texto por Tanara de Araújo

Fotos: Universal Pictures

Os insossos que me perdoem, mas em filme de gângster charme é fundamental. Desde os velhos títulos de James Cagney ao ícone Bonnie & Clyde, glamour é o código que justifica a inevitável torcida pelo protagonista anti-herói. Inimigos Públicos (Public Enemies, EUA, 2009), recente narrativa do gênero em cartaz no país, apresenta boas credenciais ao focar uma fascinante persona dos anos 30 vivido por um dos mais carismáticos atores da atualidade. Entretanto, nem a trajetória do notório assaltante de bancos John Dillinger nem a performance de Johnny Depp sustentam a falta de sedução do novo trabalho do diretor Michael Mann.

O filme inicia-se no ano de 1933, quando Dillinger lidera uma ousada e bem-sucedida fuga da prisão em Indiana ao lado de fiéis comparsas. Concomitante à retomada de suas atividades — roubar bancos em “1 minuto e 40 segundos exatos” — apaixona-se pela atraente guardadora de casacos Billie Frechette (Marion Cottilard, de Piaf). Quando o coração passa a dividir a atenção com os negócios, Dillinger baixa a guarda e passa a ser perseguido de perto pelo obsessivo agente Melvin Purvis (Christian Bale). O ponto final dessa relação gato X rato é algo que o filme e os livros se encarregam de contar – mas não o Mondo Bacana.

É certo que Inimigos Públicos passa reto por clichês que permeiam narrativas afins. Não espere trilha sonora enfática nas sequências tensas, nem cenas melancólicas pontuadas por sentimentalismo em demasia. Em contrapartida, seu fluxo é frio e distante. O excesso de objetividade do roteiro — assinado por Ronnan Bennett e pelo próprio Mann — ignora a construção de situações que poderiam não só oferecer mais entretenimento, como subsídios para absorver a história como um todo. Dillinger era um eficiente assaltante de bancos. As cenas em que está em ação, no entanto, são breves e pobres. Não há impacto, nem simpatia. Como bom gângster, era amante das delícias da vida: roupas elegantes, carros velozes e diversão. Uma ida ao jóquei, uma fuga em alta velocidade e a conquista da mulher da sua vida em meros dois minutos, portanto, não justificam o mito.

Já a escalação do elenco é quase irrepreensível. Embora perdido em um emaranhado que não aproveita seu magnetismo, Depp se desdobra fácil pelas facetas de Dillinger. Temerário, confiante, atormentado e, sobretudo, carismático. Se Inimigos Públicos mantém a tradicional inclinação de “apoio ao fora-da-lei”, é graças à atração gerada pela imagem de Depp, não à (falta de) desenvoltura do personagem. Expert em tipos persistentes, Bale é outro que não decepciona — inclusive, consegue se abstrair do (criticado) tom de voz soturno de Bruce Wayne e John Connor. E se do filme há um ligeiro vislumbre de puro charme, agradeça à bela e discreta Cottilard, cujo papel também foi vítima do truncado roteiro.

Os acertos contemplam ainda a fotografia em tons de cobre, bem apropriada para a época, além da direção de arte e dos figurinos. Mas do que adiantam cenários, roupas e luzes bonitas se os enquadramentos não as captam adequadamente? Não bastasse uma overdose de close-ups, são diversas as tomadas, no mínimo, discutíveis aos longos dos 140 minutos de projeção — a que se propõe cobrir a suposta nudez de Cottilard na banheira pelo ângulo da porta, por exemplo, é primária.

Com Inimigos Públicos, Michael Mann, engorda sua lista non grata, que inclui títulos como Ali e Miami Vice. Nada, porém, que o futuro não possa voltar a redimi-lo. Afinal, levam a sua assinatura os excelentes Fogo Contra Fogo e o ótimo Colateral. Quase ilesos, Johnny Depp e Christian Bale se não terão motivos para se lembrar de Inimigos Públicos com orgulho, também não terão exatamente razões para vergonha — na filmografia de Depp, aliás, nada é passível de total embaraço. Já ao mítico John Dillinger coube um destino tortuoso e deselegante. Fora e dentro das telas.

 


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