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Literatura :: Andréa Del Fuego
Escrito por Abonico Seg, 28 de Abril de 2008 19:00
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Fogo intenso
Ela começou sua vida de escritora respondendo dúvidas sexuais de leitores de uma revista de rádio paulista. Hoje, quase uma década depois, já lançou três livros, participa de antologias e chama a atenção dentro da Nova Literatura Brasileira por seus contos. Ainda assume sua paixão pela ligação entre imagem em texto em seu blog e uma trilogia de curtas extraídos da sua inspiração pelo universo feminino. Ainda está preparando dois romances, um deles a ser lançado no ano que vem. Eis Andréa del Fuego, por Egnaldo Oliveira.
Andrea Del Fuego: literatura como ofício, não como carreira.
“Ela voa como um peteleco”
Engano seu pensar que a capacidade criativa na literatura está esgotada, nada mais sendo possível extrair das palavras ou delas utilizar-se para transmitir ao leitor idéias e impressões mundanas. É cada vez maior o espaço conquistado por escritores cujas obras, até então ofuscadas por questões meramente mercadológicas, impulsionam a chamada Nova Literatura Brasileira. Dentre os autores de maior destaque, Andréa del Fuego chama a atenção por seus contos, embora seja essa apenas uma das facetas pertencentes à escritora. Paulista, a filha de mineiros e herdeira de sua latência possui uma curiosa trajetória. “Antes de ter o pseudônimo eu não achei que fosse publicar coisa alguma”, diz a escritora. Na ausência de uma cultura de leitura em casa, escrevia cartas, pois assim conseguia expressar-se e comunicar-se com o mundo, através das palavras. Começou a escrever contos, mas não pensava em publicá-los. Resolveu mostrá-los a um colega, editor da Revista 89 FM, que teve a idéia de criar uma coluna onde ela responderia às dúvidas sexuais dos leitores. Era 1998 e foi esse o seu primeiro registro publicado. A partir de então, Andréa Fátima dos Santos passou a ser conhecida como Andréa del Fuego, pseudônimo sugerido por sua sogra e inspirado na vedete Luz del Fuego.
“Coleciono figurinhas e não o álbum; meu problema é a cola”
Após isso, Andréa começou a reunir seus contos e levá-los às editoras, tendo nesse meio tempo a oportunidade de criar um site onde escrevia sobre interesses diversos, como poesia, filosofia, pintura e fotografia – além de colocar ali alguns de seus contos. Através disso, conheceu outras pessoas que também publicavam seus textos na internet. Depois de várias tentativas, conseguiu obter uma resposta positiva para a publicação de seu primeiro livro. Minto Enquanto Posso (O Nome da Rosa) é uma reunião de contos que exploram as fantasias de personagens que mergulham num jogo de verdades e mentiras, fantasia e liberdade, transitando entre a inocência e o erotismo com uma sutileza capaz de dar nova vida à arte de contar histórias.
O segundo livro, por sua vez, é marcado por suas peculiaridades, a começar pela edição. Nego Tudo (Fina Flor) teve tiragem única de 107 exemplares, todos assinados pela autora. Há a intenção de se fazer uma segunda edição, desta vez comercial. Nego Tudo é visto pela escritora com mais carinho, pois para ela possui um certo ineditismo. O livro conta também com as ilustrações de Erica Valente, descoberta pela escritora através da internet. Andréa percebeu então o quanto o trabalho da ilustradora poderia acrescentar ao seu livro.
A relação com a cor vermelha é marcante no trabalho da escritora. Está presente não apenas nas capas de seus livros, como também é utilizada na descrição de alguns cenários, como as cortinas de um motel de segunda categoria ou a toalha que cobre a mesa de um jogo de cartas, em Minto Enquanto Posso. Para ela, a cor tem relação com erupção, magma, fogo interno, transmitindo uma idéia de transformação. Andréa é fascinada pelo fogo e gosta do contraponto que há no vermelho com preto, que é a ausência de cor, e o branco, representando todas as cores. Esses são limites em que o fogo pode chegar, causando a ausência pela destruição ou iluminando e trazendo tudo à tona.
“Na lâmpada dos holofotes tem um fio, a linha do equilibrista”
Para Andréa, a ligação existente entre imagem e texto é muito forte, o que se explica por sua relação com o cinema, Aos 17 anos, já era estagiária de produção, fazendo depois produção de elenco para comerciais. Sua trajetória cinematográfica teve início com Morro da Garça, curta-metragem inspirado nas paisagens de Guimarães Rosa e que fez parte do Encontros com Guimarães Rosa, realizado no Centro Cultural São Paulo em 1996. Após isso, dirigiu O Beijo, curta que integrou o Festival Mix Brasil em 2002, além de ser exibido em outros festivais, na Bahia e em Tóquio.
Em seguida veio Ela, curta ainda inédito, baseado no conto Linha Contínua. Possui apelo erótico e retrata uma mulher em processo de libertação, dependente da força sexual de um homem. “Tem relação da fricção erótica da mulher com o mundo”, explica Andréa. Essa produção conta com a participação da atriz Rejane Arruda, que já havia participado de O Beijo.
Com Passageira, roteiro que se transformou em conto e retornará à linguagem cinematográfica, será encerrada sua trilogia sobre o universo feminino. Andréa ainda passou pelo teatro, sendo assistente de direção de Dani Chao Hu, nos espetáculos O Big Ben e Aquela Noite do Cachorro.
“Você pensa que está, pensa que vê, pensa que lê
Antes da trilogia de curtas, outra é concluída. Através da Bolsa de Incentivo à Criação Literária do PAC (Programa de Ação Cultural da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo) Andréa lança seu terceiro livro de contos. Engano Seu (O Nome da Rosa) reúne 60 minicontos, divididos em 4 partes. “São 60 comprimidos, divididos em quatro quartos de hora. Um comprimido por minuto“, explica. Esse foi o resultado de um processo iniciado no primeiro livro. Em Minto Enquanto Posso havia, por parte da autora, a vontade de escrever quantidades. Com o tempo, percebeu que isso nada dizia, pois o que interessava era o texto. Cortar não só deixava o texto melhor como era, para Andréa, um “tesão”. Assim percebeu o quanto essa visão tomava espaço em suas obras. “Você vai esculpindo a coisa”, diz a escritora. Em Engano Seu, assumiu de vez o miniconto, tendo muita influência do que já fazia em seu blog, uma linguagem que exige coisas sintéticas. Aprecia a vida efêmera do miniconto.
Dessa forma, a escrita curta tomou corpo e Andréa percebeu que esse era o caminho. “Acredito que o miniconto seja um formato flexível e ao mesmo tempo perigoso. Ou vai, ou racha. Diferente da poesia, onde o poema é sua encarnação, dando volume e respiros, a prosa curta se limita apenas ao conteúdo para dizer a que veio, se é que veio. O miniconto sugere síntese, esse desafio é grande e perverso. Não há espaço para a forma circular que se espera em narrativas maiores: as idéias se abrem para o seu próprio fim e para o entendimento de quem lê”.
Engano Seu transita entre referências cotidianas e outras que incorporam um tom mais intimista, em um jogo de revelar-se e esconder-se, dando margem ao preenchimento de sentidos pelo leitor. Borboletas, asas, vôo, que remeteriam diretamente à idéia de liberdade, aparecem atreladas a certa fragilidade, estabelecendo relação com as escolhas que fazemos ou deixamos de fazer e ao que isso pode nos expor. “A liberdade é só uma coisa que você quer”, diz Andréa. O relacionamento que temos com certas regras que, em conjunto com outras, fazem sentido, podem tornar a liberdade mero desprendimento do que é preestabelecido. O jogo de palavras entre o titulo e o encerramento do livro (“Engano meu”) permite ainda o questionamento e reflexão de tudo que ali está, tanto pelo leitor quanto pela própria autora, tornando-os cúmplices na construção de sentidos ou no simples prazer de degustar a prosa curta.
“Assim não revelo o que espeta, o que pinica está tão próximo de quem lê, que acabo invertendo a projeção nesse ato, o de publicar aqui ânsia nenhuma”, escreve em um trecho de Engano Seu. A posologia é então administrada pelo leitor, pois os “comprimidos” podem ser tomados em ordem aleatória, sem contra-indicação.
“Não foi por querer, foi por ter quisto”
Atualmente, Andréa mantém ativo um blog, que já recebeu mais de 140 mil visitas. Para ela, “é um jeito de conhecer, de ter contato com os leitores”. Em razão disso, Andréa responde a todos os comentários deixados pelos visitantes. Ao contrário do que foi feito em Nego Tudo, onde o texto foi ponto de partida para a concepção das ilustrações, no blog ela escreve para as imagens, “deixando a foto como ponto final do texto”.
Autodidata, a escritora construiu seu conhecimento através de pesquisa e leitura próprias. Vê a literatura como ofício, não como uma carreira. Aprecia a oralidade, apesar da preocupação que tem com a língua, embora a veja apenas como caminho para passar uma idéia. Do seu gosto por transitar entre o mundo real e o imaginário, surgiu Serra Morena, romance ainda inédito que Andréa está reescrevendo.
“Serra Morena trata-se de um romance que beira o realismo fantástico, em um ambiente rural, onde as paixões são trancadas, onde existe muita latência”, conta. De início, é ambientado em um lado da serra, transitando em seguida para o outro, embora seja esse outro lado de acesso restrito a alguns personagens. Esse livro é um tributo ao sangue ancestral de Andréa, que acredita haver por parte do escritor um certo pedágio, a ser pago em razão do acesso que tem à escrita.
Enquanto Serra Morena não sai, os fãs da escritora podem aguardar para 2008 o lançamento de Sociedade da Caveira de Cristal, romance juvenil já finalizado e diverso de suas obras até então publicadas, tanto em gênero quanto em público. Um adolescente, viciado em computador, entra em um jogo e através dele conhece a Sociedade da Caveira de Cristal, onde os integrantes se encontram em um sonho coletivo. Para entender o mundo adolescente, a escritora, que aprecia a liberdade existente na literatura infanto-juvenil, fez uma regressão de si mesma. Andréa ainda trabalha em um terceiro romance, distinto dos dois primeiros, mas que tenta aliar ambos. Desta vez, os sonhos adultos serão o ponto de partida.
Bem como a experiência adquirida com a trilogia de contos deu segurança à Andréa, que assim pôde iniciar os romances, sua trilogia feminina de curtas pode levá-la ao primeiro longa-metragem. A vontade de fazer o longa veio depois dos romances. Sentiu que “seguraria as pontas”. Acha que poderia adaptar alguma obra de um autor contemporâneo, além da vontade de explorar algo relacionado com o tempo. Está roteirizando “Avon”, conto publicado na antologia Mais 30 Mulheres Que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, para um curta.
Além dessa antologia, seus contos também integram Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, Fábulas da Mercearia, Doze e 69/2 Contos Eróticos. Em outubro, foi lançada outra antologia, 35 Segredos Para Chegar a Lugar Nenhum (Bertrand Brasil), organizada por Ivana Arruda Leite, participando Andréa com o conto “Como Ganhar um Jabuti”.
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