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Justice
Escrito por Abonico Seg, 28 de Abril de 2008 19:10
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Metal para as pistas
Empresário do Daft Punk, Pedro Winter resolveu apostar na até então insólita mistura entre o peso e a simbologia do heavy metal às batidas contagiantes da música eletrônica, particularmente a bem-sucedida escola do house francês. E acertou em cheio. Não só fundou o badaladíssimo selo Ed Banger, como também catapultou para o sucesso seus pupilos do Justice, dupla que contagiou o mundo inteiro com um dos hits do ano. Abonico R. Smith conta essa história e ainda revela o grande segredo por trás de “D.A.N.C.E.”.
Podem heavy metal e electronica se misturarem a ponto de fazer surgir um belo caldo homogêneo? Anos atrás, alguém que propusesse tal hedonismo musical seria muito bem tachado de louco, por puristas de ambos os lados. Contudo, Pedro Winter (ou Busy P, alcunha que passa adotar em trabalhos de produção) resolveu apostar nesses divergentes componentes para criar uma equação própria. O resultado saiu sob o nome de Ed Banger Records, que termina o pouco que ainda resta do ano de 2007 como o selo mais cultuado e falado das pistas mais alternativas.
Winter é um cara atípico. Nunca dispensa as indefectíveis camisetas pretas, um dos maiores símbolos adotados pelos admiradores do metal. Seu cabelo é comprido. Sua aparência é algo como a de um mecânico posando de b-boy.. Metallica é a banda do principal pôster grudado na parede do escritório, de onde comanda não apenas as ações do seu selo, como ainda a carreira de um dos estandartes da primeira divisão da cena eletrônica dos últimos anos – ele é o empresário do Daft Punk.
E foi exatamente unindo as paixões antagônicas que uma outra dupla tornou-se a nova menina dos olhos de Winter. Gaspard Augé e Xavier de Rosnay são empresariados e produzidos pelo cara. Sob o singelo nome de Justice, eles conquistaram, em três anos de carreira, o posto de carro-chefe do Ed Banger. O primeiro trabalho de Rosnay e Gaspard estourou logo de cara. Foi uma remixagem de “Never Be Alone”, do Simian (banda que depois geraria o Simian Moblile Disco, lançado em vinil doze polegadas em 2004. A música estourou nos clubs e na net, até que, dois verões depois, ganhou impacto comercial, sob outro nome (“We Are Your Friends”), chegando às paradas via Virgin e ganhando o prêmio de videoclipe do ano, batendo o favorito Kayne West, na premiação da MTV européia.
Michael Jackson
A badalação ganhou contornos gigantescos. Auge e de Rosnay passaram a trabalhar sem parar como DJs, remixadores (a lista de artistas retrabalhados por eles entre 2005 e 2007 inclui Justin Timberlake,Fatboy Slim, Britney Spears, Franz Ferdinand, Detah From Above 1979 e Soulwax) e artistas autorais. Logo depois do lançamento do primeiro single (“Waters Of Nazareth”), no ano passado, sets de nomes importantes das pistas (Tiga, Erol Alkan, 2 Many DJs) passaram a conter o Justice. Até que veio o tiro de misericórdia no último mês de maio, colocando a dupla em pé de igualdade a outros nomes da electronica francesa – como Cassius, Air e o próprio Daft Punk.
“D.A.N.C.E.” foi a música escolhida para ancorar o EP que precederia o lançamento do álbum de estréia. Não poderia ter havido escolha mais acertada. A faixa transformou-se em um dos hits do ano, uma daquelas músicas que vai contar para sempre a história do pop de 2007 em antologias musicais e nas pistas de dança. A base é um electro poderoso, com vocais gravados por um coral de crianças londrinas. O videoclipe, maravilhoso, tornou-se febre no YouTube (a ponto de ser escancaradamente copiado pelo Tim Festival em sua propaganda de tevê). São duas camisetas (uma preta, outra branca) cujas estampas vão mudando de cores, formas, slogans e desenhos enquanto seus usuários passeiam por ruas e clubs.
A letra, inocente e ingenuamente infantil, traz uma ordem acompanhada da receita: “Do the D.A.N.C.E./ 1 2 3 4 fight/ Stick to the B.E.A.T./ Get ready to ignite/ You were such a P.Y.T./ Catching all the lights/ Just easy as A.B.C./ That's how you make it right/ Do the DANCE (do the dance)/ The way you move is a mystery/ Do the DANCE (do the dance)/ You're always there for music and me/ Under the spotlights/ Neither black nor white/ It doesn't matter/ Do the DANCE (do the dance)/ As strong as you might/ Working day and night/ Whatever happens/ Do the DANCE (do the dance)”.
Quem prestar mais atenção em cada um dos versos vai reparar que as palavras soletradas e determinadas expressões não estão lá à toa, apenas por capricho ou por uma intenção de infantilização (ou de deixá-la para lá de palatável e acessível). Estão “escondidas” na letra algumas referencias a... Michael Jackson (?!). Saltam aos olhos diversos nomes de músicas do cantor, compositor e dançarino americano – da carreira solo ou com os irmãos no Jackson 5, hits ou faixas mais obscuras de álbuns mais famosos. “Beat It”, “Black Or White”, “ABC”, “Pretty Young Thing”, “The Way You Move”, “I’ll Be There”, “Music and Me”, “Working Day And Night”…
Simbolismos
O fato é que o álbum de estréia do Justice – prometido pra novembro no Brasil – trouxe os valores máximos do selo Ed Banger: o tratamento rocker dado à musica eletrônica para garotos que hjo só querem saber de bandas de rock que os levem à dança. Simbolismos do metal estão por toda parte. Na capa preta, apenas o contorno de uma cruz em perspectiva – não é à toa que o disco, sem batismo oficial, acabou sendo chamado de Cross. Referências bíblicas compõem alguns nomes de faixas, como “Gênesis”, “Let There Be Light” e “Waters Of Nazareth”. Velocidade e riffs encardidos movem arranjos como os de “Phantom” (composição dividida em duas partes, sendo a segunda bem mais pesada), “Stress” e a já citada e conhecida “Waters Of Nazareth” (esta, uma surpreendente demonstração de como sintetizadores podem soar como poderosas guitarras Flying-V). “Genesis” e “Valentine”, por sua vez, flertam com o progressivo e o ambient (conexão com outros nomes das pistas francesas, como o Air e os DJs Laurent Garnier e Jacques Lu Cont).
Para quem conheceu o Justice através de “D.A.N.C.E.” e possa vir a estranhar a veia pesada e rocker do resto do trabalho autoral, Augé e de Rosnay reservaram um segundo míssil para, novamente, acertar em cheio as pistas. Com o vocal malemolente de Uffie (uma jovem americana de apenas 20 anos, radicada em Pari e também pertencente ao elenco do Ed Banger), a faixa se chama “The Party”. Como o nome indica, é um relato de como se acabar na madrugada de uma balada e amanhecer na piscina depois de muita, muita diversão. E para quem ainda se mostrar descontente, ainda tem o hip hop “DVNO” e boas combinações de baixos funky e grooves caprichados – embora bastante sombrios, como manda a cartilha do metal – em músicas como “New Jack”, “Let There Be Light”, “Phantom (Part. 1)” e “One Minute To Midnight”.
O Justice – que já passou pelo Brasil, há anos, em uma tímida noite reservada apenas para discotecagem na capital paulista – aproveitou o fesival de Coachella, n últim verão americano, para tirar todas as dúvids. Pela primeira vez na história, a dupla apresentou um show trocando mixagem, i-Pods e turntables por músicos de carne e osso fazendo o acompanhamento. Um show de rock, para animar um mar de camisetas pretas.
Beavis, Butt-head, new ravers e fãs do house francês já aprovaram. E já fizeram o “D.A.N.C.E.”.
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