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Cinema :: Metal

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Documentário promove jornada pelo mundo do heavy e analisa a devoção extrema pelo gênero.

Dentro do “sistema”

Desde a adolescência, Sam Dunn declarou-se fanático pelo universo das sonoridades mais pesadas do rock’n’roll. Depois de se formar como antropólogo, decidiu dedicar boa parte de seu tempo fazendo um documentário que desvendasse os principais segredos e truques do gênero conhecido pelo uniforme de camisetas pretas, gesto de chifrinho com os dedos, o estereótipo da mídia mainstream e a mais completa antipatia dos setores mais conservadores da sociedade. Surgiu assim Metal – Uma Jornada Pelo Mundo do Heavy Metal, que chegou a ser lançado, com certo atraso, nos cinemas brasileiros. Abonico R. Smith, que não foi fisgado pelo metal em sua adolescência, assistiu à produção e adoro. E conta o porquê.

Ronnie James Dio (ao centro de sua banda) explica a verdadeira origem das mãos de chifrinho.

Assistir a documentário chapa-branca é algo que requer um bocado de paciência. Quem já deu alguma chance aos obcecados discursos anticorporativos de Michael More e Morgan Spurlock sabe muito bem o que é isso. Ou então embarcou no complexo de vira-latas de um americano (gay, claro) que queira provar, a todo custo, que o homossexualismo é comum entre os animas irracionais (é bom frisar, isso está longe de ser questão de preconceito, mas apenas ter bom senso de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa). Pior é quem viveu – como eu – os primeiros anos de infância na década 70, ainda na rebarba do auge da ditadura miltar, e se lembra de algum vídeo institucional governista (“O Brasil é nosso”, “o progresso já chegou”, essas coisas). Afinal, a missão de um documentarista é justamente registrar algo, algum fato, alguém. Analisar os acontecimentos. Muitos, porém não resistem e distorcem os fatos de acordo com a conveniência e o direcionamento pré-determinado, sem sequer ouvir o outro lado ou dar o braço a torcer para reconhecer falhas.

Foi com os dois pés atrás que fui a uma sala de cinema cult de Curitiba que exibia o documentário do antropólogo canadense Sam Dunn. Junto com mais dois amigos, que assinam a co-direção, ele se embrenhou em uma paixão que mantém desde a adolescência: desvendar o que faz do heavy metal – em suas mais variadas subdivisões – uma vertente musical capaz de fidelizar e enlouquecer milhões de pesoas mundo afora. Para explicar tamanha devoção que se perpetua desde o começo dos anos 70, Dunn – com os cabelos longos e seu uniforme formado por camisetas pretas com estampas de suas bandas favoritas (como Iron Maiden e o nosso Sepultura) – embarca em viagens pelos Estados Unidos (Los Angeles, Nova York) e países europeus (Alemanha, Inglaterra, Noruega). O principal objetivo: traçar as raízes e os prquês do metal, em contraposiçao à visão quase sempe estereotipada que boa parte da mídia mainstream dedica ao gênero. Com a grandiosa ajuda de ícones do gênero, que se dispuseram a dar entrevistas para o filme (integrantes de bandas como Black Sabbath, Iron Maiden, Alice Cooper, Motörhead, Rush, Mötley Crue, Rage Against The Machine, Slayer, White Zombie, Twisted Sisters, Rage Agains The Machine e Slipknot)

Com extrema competência, porém Dunn dissipa logo nos primeiros minutos o maior medo dos não-fãs que se dispõem a ser platéia de seu documentário. O diretor – muito por causa de sua veia acadêmica, que se sobrepõe à do eterno adolescente apaixonado e seguidor de uma bandeira. Chapa branca (ou preta, dependendo do trocadilho que aqui cai bem) é o menos pode ser acusado Metal – Uma Jornada Pelo Mundo do Heavy metal, originalmente lançado há dois anos (e com o subtítulo mais apropriado, A Headbanger’s Journey). Para começar, ele não fica perdendo tempo discutindo o sexo dos anjos – ou seja, quem inventou o metal. Cita Blue Cheer, Cream Deep Purple, Black Sabbath, Led Zeppelin, os protopunks (MCs e Stooges) mas não perde tempo nisso. Pelo contrário: sustenta que o que menos importa é a paternidade e sim os efeitos que foram causados mundo afora a partir de então. E ainda traça uma importante árvore genealógica, ligando origens e influências, que vai se desenrolando de maneira mais clara no decorrer da projeção.

Logo de cara, também, Dunn desvenda o significado de uma palavrinha básica para o metal: o trítono. O complexo efeito dissinante causado por ele (são acordes que se caracterizam pela quinta nota diminuta) provocam sensação de tensão e movimento, sendo , inclusive, relacionado a atos sexuais há vários séculos. Isso levou à sua proibição por parte da igreja ocidental, que consideravam-no “a presença do diabo na m música”. Só que compositores como Bach, Beethoven e Wagner não se curvaram à imposição e passaram explora-lo bastante em suas construções harmônicas. E a formação erudita dos músicos de metal resgatou essa “antitradição”, o que explica o forte elo com as bobagens que se falam até hoje a respeito do gênero com o morador lá debaixo.

O tema “religião”, aliás, permeia todo o documentário. Tony Iommi relata que as temáticas sombrias do Sabbath nunca passaram de mera diversão juvenil (histórias de terror, missa negra). O baixinho Ronnie James Dio conta a verdadeira origem do gesto clássico (os chifrinhos formados pelos dedos de uma mão são tanto uma herança de sua avó, para espantar maus olhados, com um xingamento de origem italiana, a ascendência do vocalista). O chileno Tom Araya, do Slayer, tenta explicar como faz para não confrontar sua veia católica com as temáticas iconoclastas dos títulos de músicas e álbuns de sua banda.

Somente alguns noruegueses parecem levar a sério a história de que o metal é o veículo sonoro das trevas de lúcifer – a ponto dos músicos provocarem uma mórbida onda na década 90, com atitudes extremas como a de incendiar igrejas católicas em série e matar-se uns aos outros, mesmo sendo grandes amigos, sem motivos aparentes. Em sua breve passagem pelo país escandinavo – aliás, o metal tem muito a ver com as histórias e lendas nórdicas – Sam tenta conversar com integrantes de bandas de black metal. Não consegue. As respostas são monossilábicas, lacônicas. Curiosamente, quem fala mais é o padre de um dos templos destruídos.

Sexo e censura
A sexualidade é outro eixo central do documentário. Entre os pontos analisados estão as groupies (Pamela des Barres, considerada a maior de todas nas últimas décadas, também abre as portas de sua casa), a sexualidade aflorada (as tiradas de Lemmy são capazes de arrancar gargalhadas), a pouca presença das mulheres nas bandas (a vocalista do grupo sueco Arch Enemy fala sobre isso e seu vocal gutural), o homossexualismo e a simulação de travestismo (Vince Neil relembra os seus bons tempos à frente do Mötley Crue contando que parecer mulher era uma grande isca para atrair o público feminino).

Bruce Dickinson bate altos papos com Dunn a respeito da técnica vocal e do gestual do metal. Dee Snider – que hoje nem de longe sugere ter sido aquela figura medonha de maquiagem exagerada e cabelão longo, loiro e crespo dos tempos de glam à frente do Twisted Sisters. A presença de Dee, aliás, é um dos pontos altos do documentário. Ele lembra, com muito bom humor, o que sofreu depois do estouro de “We’re Gonna Take It” e seu videoclipe desafiador aos bons costumes familiares. O cantor foi considerado “inimigo número um” da sociedade conservadora, chegou a ser interrogado por políticos (liderados pelo então senador Al Gore – o mesmo que encabeçou o Live Earth, levou o Oscar neste ano e acabou de ganhar o prêmio Nobel da paz por sua cruzada a favor do meio ambiente do planeta) a respeito do conteúdo “altamente ofensivo” de suas letras. Em tempo: a mulher de Al, Tipper Gore, foi uma das co-fundadoras da PMRC (Parental Music Resource Center), entidade que ameaçou implantar censura às obras artísticas norte-americanas e conseguiu fazer com que as capas do discos viessem, a contragosto dos artistas, com um selinho alertando aos pais e responsáveis sobre o conteúdo explícito (sexual ou verborrágico) das músicas ali gravadas.

Fãs mais ardorosos do metal podem até sentir falta (e reclama) de uma abordagem maior a respeito de grandes ícones do gênero. Afinal, o Kiss só aparece representado pelo seu fã-clube, o Kiss Army. Os gigantes do thrash Metallica e Sepultura vêm apenas de tabela, em camisetas, pôsteres, discos e breves citações. Van Halen? Quase nada... O que significa grunge? Só que essas lacunas podem muito bem ser justificadas dois motivos básicos: a falta de tempo suficiente do documentarista para abordar todas as facetas e estandartes de um extenso gênero musical; e a falta de tempo (ou interesse) de membros dessas bandas para falar sobre o assunto. Mas ele mesmo deixa claro que não pretende esgotar o assunto nesta primeira empreitada.

Sam Dunn, por fim, consegue o grande mérito de mostrar o metaleiro visto por si próprio – e por profissionais da sociologia e da antropologia. Sem glorificações bestas ou inúteis e com o nervo crítico sempre exposto, a ponto de saber apontar baboseiras, criticar bandas que não conseguem dar uma entrevista decente (por causa de posturas idiotas e muita cerveja na cabeça) e até condenar o discurso e as atitudes dos congêneres noruegueses.


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