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Escrito por Abonico Seg, 28 de Abril de 2008 19:02
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Charme Chulo grava disco ao vivo, Morrissey em NY, LCD Soundsystem no Brasil e OAEOZ comemora 10 anos.
Charme ChuloGrande Garagem Que Grava [Curitiba] :: 19.10.07
Morrissey
Hammerstein Ballroom [Nova York] :: 26.10.07
OAEOZ
Porão Rock Club [Curitiba] :: 11.10.07
Firefriend
Korova Bar [Curitiba] :: 26.10.07
Groselha Fuzz Festival
Chácara do Dudu [Ribeirão Preto – SP] :: 10.11.07
LCD Soundsystem
Via Funchal [São Paulo] :: 13.11.07
De cima para baixo: Charme Chulo, OAEOZ e Firefriend em Curitiba; LCD Soundsystem em São Paulo.
Quatro anos. Este é o tempo máximo necessário para que ocorram grandes transformações no universo da cultura pop. Foi neste período de tempo que os Beatles levaram para dominar o planeta através de um palco, que James Dean saltou da condição de aspirante a ator e estudante do Actor’s Studio a mito do cinema após apenas três filmes oficiais, que Cazuza levou tanto à frente do Barão Vermelho como em sua carreira solo, que o escritor James Ellroy levou para fazer sua série de quatro títulos chamada de L.A. Quartet (da qual fazem parte Dália Negra e L.A> Confidential, que depois também viriam a fazer sucesso com versões cinematográficas) que uma banda precisa passar junta com a mesma formação para gravar um disco que a marque depois na história.
Quatro anos também separam o Charme Chulo de sua primeiro demo, terrivelmente tosca de produção, à banda lapidada que registrava CD e DVD ao vivo tocando na grande Garagem que Grava. O baixista Peterson Rosário e o baterista Rony Gimenez, um eterno punk que não dispensa o chapéu de caubói na hora de tocar, deram todo gás e segurança rítmica para os primos caipiras. Igor Filus, o vocalista, nem de longe parece aquele garoto tímido e franzino que há quatro anos procurava jornalistas para entregar a primeira demo do grupo. Ele está solto, desenvolto. Dança como um pé-de-valsa, reproduzindo gestuais e passos que vão de metáforas do campo (como a chicotada no lombo) às diversões da música gauchesca. Igor também expandiu seus limites no vocal. Aprendeu a domar seu timbre incomum e hoje não tem medo de explorar falsetes (como em um refrão inteiro de “Piada Cruel”) e driblar os limites motores (como cantar, dar o balanço no pandeiro e soprar o apito de samba em “Não Deixa a Vida te Levar”). Leandro Delmonico, por fim, é um jovem ás que se desdobra entre as seis cordas da guitarra e as dez da viola (e ainda toca gaita de boca e faz alguns backings necessários. Seus dedos, cada vez mais ágeis, sobrepõem texturas de dedilhados e riffs, dando a impressão da haver mais músicos no palco dando conta de traçar a harmonia.
Enfim, o Charme Chulo cresceu e apareceu. Tanto que, ao vivo, não são mais aquela banda que muita gente costumou definir como “Smiths com viola caipira”. O repertório construído nos últimos dois anos somou tantas outras influências (notam-se de maneira mais clara Arctic Monkeys nas linhas quebradas de “A Caminho das Luzes Essa Noite”; Franz Ferdinand em “Não Deixa...”, o grande hit que o quarteto escocês nunca compôs; Legião Urbana, na performance da dança-louca de Igor) e aquela referência das interioranas se encontra mais reduzida pelas pegada, pelos compassos dançantes (“a chama pós-punk que nunca se acabará”, segundo garante o vocalista), pelo gigantismo da linha de frente dos outrora Marr & Moz de sangue pé-vermelho. Isto é, mais charme rocker nos arranjos.
Por volta das oito e meia de encalorada noite de sexta-feira, a Grande Garagem encontrava-se lotada, faltando dezenas de cadeiras para o público que era seguramente o maior de todas as sessões comandadas pelos ex-Beijo Aa Força Rodrigo Barros e Luiz Ferreira, os idealizadores do local. A platéia, extremamente variada. Familiares (pais, tios, primos, irmãos – quase todos, enfim, vendo pela primeira a vez banda tocar), público mirim (crianças que sabiam de cor todas as letras do primeiro álbum Charme Chulo) e infanto-juvenil (componentes do fã-clube CCCC – Charme Chulo “Chow” Clube), exaltadores dos bons sons locais (que não hesitavam em brindar em alto e bom som “viva o rock de Curitiba”) e muitos fãs. O motivo era muito especial: o Charme Chulo iria gravar seu segundo EP, desta vez ao vivo, dentro do famoso projeto da Garagem, que junta em um box-set registros sonoros de bandas da cidade dos mais variados estilos e gêneros. De quebra, aproveitando o mesmo concerto, ainda seriam captadas imagens para um vindouro – e ainda sem previsão de finalização – DVD.
E o CC brindou a todos os presentes com o um set completo, com o dobro de canções previstas para entrar no EP. As sete do novo disco foram dispostas em seqüência, no meio da performance. Duas delas, “De Hoje Não Passa” e “Até Dizer Chega”, eram inéditas e deverão figurar no segundo álbum de estúdio (que já está no começo de gestação, inclusive). “Não Deixa...”, “Polaca Azeda” (“velha-de-guerra”, segundo Leandro) e “Mazzaropi Incriminado” representarão o lado hitmaker. “Amor de Boteco” e “Barretos”, prima distante e caipira das batidas de “Last Nite” e “Ask”, complearam a lista, reforçando a saborosa ligação temática com a faceta popularesc da banda. A primeira, um flerte descarado com os clássicos bolerões de AM. A outra, uma provocação com o nome da cidade onde se realiza anualmente a maior festa/competição de rodeio do país.
Mas ainda teve espaço para mais, fora do EP. Músicas do álbum que não costumam constar sempre dos destaques dos shows foram recebidas com entusiasmo, como a valsa-vanerão “Intriga de Cinco Pessoas” e a batucada sombria de “Romaria dos Desvalidos”. No final, até duas faixas (“A Beleza e a Dor de Sua Alma” e “O que é Que Foi, Piá?”) do Você Sabe Muito Bem Onde Eu Estou, EP de estréia, lançado há longínquos três anos, foram resgatadas do limbo. Para a alegia e a festa de muita gente, que não conseguia se conter em assistir ao show sentada e sem poder dançar, por causa das filmagens.
Depois de tudo, restou a sensação de que diante de todos estava ali não mais aquela grande banda underground curitibana eu soube encantar a todos nos seu quatro primeiros anos de existência. Estava sim uma banda grande, formada e gestada por uma Curitiba conhecida pela autofagia voraz e descrença em seus próprios artistas. Uma banda grande que, desde o lançamento do álbum Charme Chulo, trabalha de maneira consciente e organizada para traçar novos rumos nacionais. Os primeiros passos já foram dados; o resultados positivos, obtidos. Agora começa uma nova etapa. E a agradável noite na Grande Garagem que Grava vai ficar como o marco desta transição.
Abonico R. Smith
***
Depois de três anos anos longe de Nova York, Morrissey voltou aos palcos da Grande Maçã em uma série de cinco shows na cidade. E foi uma volta em grande estilo. Durante 90 minutos, na noite de 26 de outubro, no Hammerstein Ballroom, o cantor fez a alegria de uma galera que enfrentou um verdadeiro dilúvio para ver o astro.
E logo nos primeiros acordes de “Stop Me with You Think You´ve Heard This One Before”, mais uma da série das históricas canções dos miths qu ele resolveu reviver de um tempo para cá, Moz disse a que veio. "Estamos bem longe da Broadway", soltou. A referência à localização da zona noturna que é sinônimo de meca do teatro também garantia que aquela noite de sexta não seria de entreterimento comum. Idolatrado nos Estados Unidos, o cantor inglês encantou a platéia com um set de deixar até o fã mais hardcore satisfeito.
Salvo uma ou outra música que, na opinião dessa escriba não poderiam ter ficado de fora (e, em se tratando de Morrissey, sempre acaba faltando algo mesmo), o show teve de tudo. Desde “You Have Killed Me”, carro-chefe de seu mais recente álbum, até o clássico “Death Of A Disco Dancer, dos tempos dos Smiths. Aliás, tanto “Death...” quanto “Stop Me...” possuem algo em comum: são do último disco da banda, Strangeways Here We Come, gravado durante uma turbulência que determinou o repentino abandono de cargo do guitarrista Johnny Marr e o fim da banda duas semanas antes do vinil chegar às lojas. Portanto, ambas ficaram flutuando naquele vácuo entre a dissolição do quarteto e o início da carreira solo do vocalista.
Voltando ao Hammerstein Ballroom... Morrissey revisitou diversas fases suas. Foi buscar “Jack The Ripper” lá de trás e incluiu a bela balada “The World Is Full Of Crashing Bores”, de 2004, quando retornou ao mundo fonográfico após um longo intervalo de sete anos de quietude. De seu novo álbum, ainda incluiu uma versão mais pesada da solenemente debochada “Life Is a Pigsty”.
Dominando completamente o público, o cantor mostrou que segue em forma, apesar dos problemas vocais que o afligiram recentemente – ele chegou a abandonar o palco em Boston, dpois de apenas meia hora de concerto, por causa de uma inflamação na garganta. Comandou o palco com força e graça, interagindo com a galera, fazendo piada sobre Paris Hilton, encarnando um toureiro e até tirando a roupa – evidentemente, arrancando gritos dos mais exaltados.
A platéia, para variar, que estava deliciada, cantava todas as músicas de cor. Naquela sexta, era uma turma mais velha, que acompanha o artista há tempos e que também tem mesmo gás. Para espanto geral, havia ainda um grande número de pais, com seus filhos, muitos ainda crianças – que imagino ainda nao sabiam bem o que estavam fazendo ali. Mas era a geração mais velha mostrando a garotada o que é a devoção a um ídolo incontestável.
Lílian Santos
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O som estava poderoso. A banda soava como uma mistura de Mercury Rev com Mars Volta. E, como fã da “ultima fase” da banda, digo que OAEOZ é outra coisa no palco, outra historia. É ali que eles se matam, onde dá para sentir cada nota com as expressões dos músculos do rosto dos integrantes. Ivan Santos (violão, teclados e vocais), Carlão Zuber (guitarra, violão e vocais), Rodrigo Montanari (baixo e vocais) e Hamilton de Lócco (bateria). E no último dia 11 de outubro, os titulares da atualidade – recebendo de volta, temporariamente, os ex-integrantes Igor Ribeiro (ESS, Íris, Tods) de volta e Rubens K (que participou do embrião do grupo; hoje no Terminal Guadalupe) – se juntaram para um show especial. No palco, eles relembraram os últimos dez anos de suas vidas musicais.
Às vezes três guitarras apitavam distorções e cada canto daquele porão ganhava uma sensação diferente, do noise ensurdecedor ao doce lirismo pop dependendo de qual guitarra estivesse mais perto de você. Então vinha o trompete de Igor e te levava para o sofá em algum pub escuro, aqueles com chão de tabuas da década de 30. E quando você já estava confortável a trinca guitarra-baixo-bateria (respectivamente Carlão, Rodrigo e Hamilton) e te arrancava do “macio”, te fazia o favor de lembrar que aquele show era uma celebração “anos 90”, vinham melodias pop cheias de guitarras apitando. E ainda tinha a poesia/dor/lirismo/esforço de Ivan que nos últimos anos tornou-se o coração da música feita pelo OAEOZ.
A ironia também estava presente, a mesma que persegue todas as bandas do Paraná – ao menos aquelas que ainda esperam “estourar” algum dia. Ela estava ali no single que a banda lançava, em cada canto vazio e escuro do Porão e em cada pessoa que cantava as frases das letras por vezes enormes da banda. Talvez quando a banda começou, lá na segunda metade dos anos 90, ainda passasse pelas mentes destes a possibilidade da “descoberta”. Naquela noite, entretanto, havia uma aura de libertação/comemoração em cada um dos presentes envolvidos com a banda nos últimos dez anos. Afinal, o que todo mundo neste estado sabe de cor, bandas paranaenses não estouram; elas implodem. Então, ter dez anos de historia é, de fato, algo para se comemorar.
Engraçado como lembrei uma conversa que tivera dias antes com Ivan; ele me contava como era irônico o fato de que a maioria dos shows memoráveis a que assistiu na vida foram em lugares vazios, para duas ou três dúzias de pessoas. E o show de uma década de OAEOZ foi um destes e poderia escrever aqui que foi bom que você não foi. Nada mais blasé do que ter uma banda praticamente tocando só para mim. Mas não. Eu, dez anos mais novo que ele, ainda não estou acostumado com essas coisas. Não entendo porque alguém não iria a um show de uma banda que, por osmose ou influência, estava ligada a várias outras bandas da cidade. Ivan, por exemplo, já tocou até na Relespublica, fato que descobri há duas semanas atrás, alem de integrantes de outras formações locais já terem passado OAEOZ.
A canção que abriu o show, “De Inverno” era, de certa forma, responsável pelo aparecimento de algumas das mais promissoras bandas de Curitiba – o Rock De Inverno, festival de musica independente organizado por Ivan e sua mulher Adriane Perin, foi por muito tempo pelos anos zero-zero a única janelinha para bandas daqui serem vistas lá fora (leia aqui as metrópoles São Paulo e Rio de Janeiro) e, salvo algumas exceções, nenhuma destas “grandes bandas” estava presente na comemoração d’OAEOZ.
Eu sou bairrista o suficiente pra me sentir incomodado com essas injustiças, tanto que este texto está criticando abertamente o publico de Curitiba. Não adianta nem usar uma frase de mãe para estes casos, aquela “um dia você aprende...”. Não, o roque (assim mesmo com que) de Curitiba não aprende.
Giancarlo Rufatto
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O Firefriend é uma daquelas raríssimas bandas nacionais que, mesmo cantando em português, possui uma sonoridade repleta de referências ao rock alternativo que os distancia muito do que costumamos encontrar em shows locais (quando eu falo locais, creio que estou me referindo ao país inteiro). Vê-los ao vivo pela primeira vez na capital paranaense foi de um prazer singular. Não só por terem feito um show com faixas de seus três discos (todos lançados on line, como também pela presença de três hipnotizantes músicas inéditas, ainda não batizadas e algumas sequer ainda sem letra.
O show começou por volta da 1h, após o quarteto curitibano Tristessa tocar. De cara, “Duas Julias” já deixava claro o perfeito entrosamento do power trio paulistano que, diga-se de passagem, soa como uma banda com mais integrantes – a guitarra de Yuri Hermuche, que tem uma sonoridade refinada mais um espetacular set de pedais, ainda é ligada ao vivo em dois canais, o que dobra o efeito e reforça a força das cordas. A primeira impressão, aos acordes iniciais, foi que eles são uma banda mais forte ainda ao vivo, com mais peso e com uma bateria furiosa.
Conforme o show progredia, alternando passagens praticamente só instrumentais com climas variados, vinha a empolgação de uma apresentação com músicas tão heterogêneas, mesmo que interligadas (sim, pois mesmo com tantas nuances em cada uma, era possível enxergar conectividade entre “Pequena Meia-Noite” e “Audiogalaxy” ou “Hey Pablo” e “Um ano, Um Segundo”. Afinal, o fato é que o firefriend é uma banda nova (praticamente dois anos de vida!) mas que parece ter muitos anos de estrada. Sim, foi um espetáculo guitarreiro, dissonante, com melodias apuradas e sarcásticas. Às vezes uma releitura de Jesus & Mary Chain (pela fúria) e outras vezes remetendo-me ao Pixies (pelo apelo pop). E os vocais da baixista Julia Grassetti, que cantou mais vezes que Yuri, praticamente serviam como um complemento ao instrumental para lá de inspirado.
Confesso que não me lembro de um show, em Curitiba, tão intenso nos últimos tempos, tão singular e, principalmente, tão roqueiro. Sem preocupação em soar dançantes, coisa insistentemente vista no rock contemporâneo, o Firefriend, mesmo assim, fez um show em que não se podia ficar parado. A surdez ao som da equação baixo + bateria + guitarra dobrada era inevitável e sacodir o corpo virava obrigação. Ao final de onze músicas (como foi pouco essa quase uma hora de show), o Firefriend se despediu da cidade prometendo que voltará em breve. Para derrubar tudo o que estiver pela frente, mais uma vez.
Erasmo Jr
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No mesmo dia em que o Cansei de Ser Sexy dava as caras de volta à cidade natal e divida os palcos do Planeta Terra com Kasabian, Devo e Lilly Alen, entre outros nomes, o Groselha Fuzz Festival comemorava três anos reunindo a 320 km da capital paulista alguns dos principais nomes da cena indie do Brasil.
Não chovia havia muito tempo em Riberão Preto. Pois choveu bem no primeiro dia. E show de rock quase sempre atrasa, não é? Esse, claro, atrasou também. E geralmente tem banda ruim, que deu um jeito de tocar junto com as boas. Desta vez, contudo, não teve. E dois palcos muito bem sincronizados não deixavam um minuto sequer sem rock ao vivo. Enquanto uma banda tocava, outra passava o som.
Uma das atrações regionais de destaque foi o Motormama. “Prata da casa”, a banda faz um hardcore que foge das letras usuais do estilo. Com teclado e uma garota no vocal, o quinteto tem ainda um toque de música caipira no som. Mistura muito bem conciliada. No mesmo palco, já virando de sábado para domingo, tocaram os sorocabanos do Volpina. Deram sorte: o auge do público da noite foi deles – o show ocorreu três horas depois do previsto, no horário que inicialmente era do Vanguart. E eles fizeram bom uso do atraso, com uma apresentação bem energética. Misturaram elementos do samba come muita percussão (pandeiro, chocalho e cowbell) e seguraram a atenção do público.
Energia core, emotivo e introspectivo, com pose de banda grande. Assim foi o Enne, de Minas Gerais, na parte superior. A maior surpresa do festival. A postura do vocalista lembrou muito a de Gustavo Drummond, da também belorizontina banda Udora. A banda não gosta da comparação, mas ela é inevitável.
E todos desceram mais uma vez, agora para acompanhar os paulistanos do Seychelles. Show intenso, daqueles de se bater o pé com força no chão. Quem deu as caras para apresentar a banda foi o ex-VJ da MTV, LuizThunderbird. Luzes piscando pelo palco, trilha visual em uma televisão 14” e incenso aceso. Participações especiais de integrantes do Mamma Cadela, com efeitos especiais sonoros, teremim e percussão. Lindo e emocionante.
A primeira banda que pecou no festival foram Os Telepatas, também da capital paulista. O público estava ali, mas era apático. Demorou para que fossem arrancados alguns aplausos, apesar de ser uma boa banda que ali estava. Talvez o som lento do quarteto, que viaja entre folk e MPB, tenha pegado um público cansado. Eram quase duas horas da madrugada quando tocaram, horário teoricamente marcado para o inicio da ultima atração da primeira noite.
Um dos Seychelles ficou no palco de baixo e se juntou aos companheiros de sua outra banda, o Mamma Cadela. “Se você tem um cigarro, uma ficha de cerveja ou está querendo chegar em uma garota, faça tudo isso agora”, avisou Fernando Coelho (violão e escaleta), antes do inicio da apresentação. Música instrumental, leve e tranqüila, que tirou as pessoas do espaço coberto onde se apertavam e levou-as para a chuva, que apareceu novamente. A mistura de rock, samba e jazz deixou a pista de cima, onde os Ecos Falsos passavam o som, vazia. A chuva apertou chegando ao fim da apresentação e o público se dispersou.
Na hora da verdade, a galera voltou para acompanhar o show dos admirados por Tom Zé. Os Ecos Falsos – outra revelação paulistana – mostraram uma energia mais punk ao vivo, embora o som da banda seja melhor no disco (visivelmente não por falta de qualidade no show, mas por uma questão de estilo). Levaram Thunder e Johnny Monster, guitarrista do Daniel Belleza & os Corações em Fúria, para cantar o “pá pá pá” de “Findo Milênio” e fecharam a apresentação com “Bolero Matador”.
Quem mais conseguiu atrair o público, que ainda sobrevivia às 3h40, e praticamente isolou o resto do local da festa – exceto por aqueles que já estavam dormindo pelos cantos – foi o Vanguart. Banda sensacional até para quem acabou de conhecê-los e com o pé no mainstream. Até o camarim virou camarote na apresentação dos cuiabanos. Sucesso merecido e explicado pelo show. Hora deprimente, hora empolgante, porém único e emocionante. O top da atual safra do (folk) rock nacional.
A penúltima atração foi o punk rock cheio deglamour de Daniel Belleza & os Coração em Fúria. O barulho é macho; a pose, não. De botas plataforma, boné do Boy George e muito brilho, a banda tocou muitas músicas do “novo disco que pode sair a qualquer momento” – como disse o vocalista. Foi um show intenso, como comprovou a cara inteira vermelha e o suor que transbordava o baterista Jeff Molina. Valeu até uma versão de “Cowboy Fora-da-Lei”, de Raul Seixas. Porém, sobrou pouca gente pra ver. O pouco público que agüentava até às 4h20 se dividia e alguns foram assistir à passagem de som do Montage.
Para fechar, quase com o sol nascendo, o estava a postos o grupo cearense de electrorock. Apesar de se divulgar oficialmente como uma dupla, o Montage ao vivo é um trio. Daniel Peixoto na voz; Leco Jucá nos sintetizadores e um terceiro elemento na guitarra. Sobravam, porém, menos de quarenta pessoas, apesar do Montage ser a principal atração da “noite”. Daniel, por sua vez, pareceu não ligar para isso. Cantou, subiu nas caixas de som e terminou a noite só de sunga para completa alegria do parte do público, gay, que permanecia ali.
Dois palcos muito bem sincronizados, vários dos principais nomes do rock independente alternativo do Brasil, som de qualidade, diversos estandes de venda de roupas e discos, além da exposição Arquivo do Rock Brasileiro, da Associação Cultural Dynamite, e a apresentação do evento por Thunderbird – que parecia não estar com a mínima vontade de cumprir com o papel designado. Com exceção deste último e do enorme atraso no horário, para o público nada mais houve de errado.
Só que o mesmo não aconteceu nos bastidores. A produção do Groselha Fuzz teve diversos imprevistos: a empresa que faria o transporte das bandas cancelou a viagem, a chácara onde os artistas se hospedariam foi alugada para outra pessoa e a alimentação também teve seu planejamento alterado. Outra empresa de transporte fora contratada e um hotel tivera sua lotação esgotada.
“Bastante dinheiro teve de ser gasto sem planejamento, enquanto isso a festa já estava acontecendo, mas poucas pessoas chegando”, explicou Tiago Fuzz, organizador do evento (que estimou 800 espectadores, mas só teve 250 pagantes). “No final das contas, de madrugada, vimos que não tínhamos condição de bancar outro dia de evento”. Então, o domingo chuvoso de Ribeirão Preto terminou sem rock – entre as bandas canceladas estavam Ludovic, Zefirina Bomba, Dominatrix, Thunderbird e os Devotos de NSA, Debate e Rockz. Mas Tiago mandou avisar que não acabou a Groselha. “Provavelmente ano que vem teremos um novo festival, desta vez estruturado com muito mais cautela”, finalizou.
Gustavo Pelogia
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Rock? Eletrônico? Funk? Tudo isso ao mesmo tempo, na verdade. Assim é o show do LCD Soundsystem, banda formada pelo vocalista James Murphy (seu único integrante oficial) e mais quatro amigos. Em novembro, o principal nome da gravadora de DFA esteve mais uma vez no Brasil, tocando na capital paulista e sendo o principal nome do festival Eletronika, em Belo Horizonte.
Na antevéspera de feriadão, a platéia do Via Funchal – que chegava apenas a cerca de um quarto da capacidade da casa (6 mil pessoas) – presenciou um show conciso, porém com muita qualidade. Tanto que, apesar da vasta concorrência neste fim de ano – com festivais como Tim, Planeta Terra e os ainda-por-vir Motomix e Nokia –, já tinha gente considerando este “o melhor show de 2007” após o encerramento do set.
Murphy e seu LCD Soundsystem deixaram claro porque enlouquecem milhares de pessoas por onde passam. Primeiro porque garantem, no palco, sonoridade bastante próxima à dos discos, trunfo que muitos adeptos da electronica não conseguem obter, por mais que tentem e se esforcem. Depois porque possuem um repertório irresistível. Claro, tem hits (“Daft Punk Is Playing At My House”, “North American Scum” – o primeiro um batidão house que homenageia o estandarte da música pop francesa contemporânea; o outro uma ácida crítica ao comportamento paranóico e belicista do governo Bush e dos fundamentalistas da direita cristã americana). Mas também tem músicas “secundárias” que não fazem feio ao vivo e mantêm todo mundo dançando (“Yeah”,”Tribulations”, “Someone Great”, “Get Innocuous”, “Time To Get Away”). Estas duas últimas músicas soam bem pós-punk. “North American Scum” vira punk. Baixo e bateria – disposta de modo nada usual, ficando à direita do palco, bem perto dos fãs – são parte da responsabilidade da veia rocker do grupo nova-iorquino, que estourou nas pistas de dança. Até um grande sucesso do techno, “Throw”, de Carl Craig, transforma-se rock através da releitua do LCD Soundsytem. De “All My Friends”, então, nem se fala. O arranjo é progressivo até o alo, desenvolvido todo ele em torno de um crescendo de um mesmo acorde.
Para finalizar a noite, foi ecolhida a melancólica "New York, I Love You, But You're Bringing Me Down", tocada de maneira exemplar em um piano sob a bela voz de James. Nesta valsa-balada, o vocalista demonstra todo o amor à sua cidade. Mas não perde a chance de soltar aveia irônica e contrabalançar tudo com sua frustação em relação à Big Apple. Gran finale.
Talita Alana
Quatro anos também separam o Charme Chulo de sua primeiro demo, terrivelmente tosca de produção, à banda lapidada que registrava CD e DVD ao vivo tocando na grande Garagem que Grava. O baixista Peterson Rosário e o baterista Rony Gimenez, um eterno punk que não dispensa o chapéu de caubói na hora de tocar, deram todo gás e segurança rítmica para os primos caipiras. Igor Filus, o vocalista, nem de longe parece aquele garoto tímido e franzino que há quatro anos procurava jornalistas para entregar a primeira demo do grupo. Ele está solto, desenvolto. Dança como um pé-de-valsa, reproduzindo gestuais e passos que vão de metáforas do campo (como a chicotada no lombo) às diversões da música gauchesca. Igor também expandiu seus limites no vocal. Aprendeu a domar seu timbre incomum e hoje não tem medo de explorar falsetes (como em um refrão inteiro de “Piada Cruel”) e driblar os limites motores (como cantar, dar o balanço no pandeiro e soprar o apito de samba em “Não Deixa a Vida te Levar”). Leandro Delmonico, por fim, é um jovem ás que se desdobra entre as seis cordas da guitarra e as dez da viola (e ainda toca gaita de boca e faz alguns backings necessários. Seus dedos, cada vez mais ágeis, sobrepõem texturas de dedilhados e riffs, dando a impressão da haver mais músicos no palco dando conta de traçar a harmonia.
Enfim, o Charme Chulo cresceu e apareceu. Tanto que, ao vivo, não são mais aquela banda que muita gente costumou definir como “Smiths com viola caipira”. O repertório construído nos últimos dois anos somou tantas outras influências (notam-se de maneira mais clara Arctic Monkeys nas linhas quebradas de “A Caminho das Luzes Essa Noite”; Franz Ferdinand em “Não Deixa...”, o grande hit que o quarteto escocês nunca compôs; Legião Urbana, na performance da dança-louca de Igor) e aquela referência das interioranas se encontra mais reduzida pelas pegada, pelos compassos dançantes (“a chama pós-punk que nunca se acabará”, segundo garante o vocalista), pelo gigantismo da linha de frente dos outrora Marr & Moz de sangue pé-vermelho. Isto é, mais charme rocker nos arranjos.
Por volta das oito e meia de encalorada noite de sexta-feira, a Grande Garagem encontrava-se lotada, faltando dezenas de cadeiras para o público que era seguramente o maior de todas as sessões comandadas pelos ex-Beijo Aa Força Rodrigo Barros e Luiz Ferreira, os idealizadores do local. A platéia, extremamente variada. Familiares (pais, tios, primos, irmãos – quase todos, enfim, vendo pela primeira a vez banda tocar), público mirim (crianças que sabiam de cor todas as letras do primeiro álbum Charme Chulo) e infanto-juvenil (componentes do fã-clube CCCC – Charme Chulo “Chow” Clube), exaltadores dos bons sons locais (que não hesitavam em brindar em alto e bom som “viva o rock de Curitiba”) e muitos fãs. O motivo era muito especial: o Charme Chulo iria gravar seu segundo EP, desta vez ao vivo, dentro do famoso projeto da Garagem, que junta em um box-set registros sonoros de bandas da cidade dos mais variados estilos e gêneros. De quebra, aproveitando o mesmo concerto, ainda seriam captadas imagens para um vindouro – e ainda sem previsão de finalização – DVD.
E o CC brindou a todos os presentes com o um set completo, com o dobro de canções previstas para entrar no EP. As sete do novo disco foram dispostas em seqüência, no meio da performance. Duas delas, “De Hoje Não Passa” e “Até Dizer Chega”, eram inéditas e deverão figurar no segundo álbum de estúdio (que já está no começo de gestação, inclusive). “Não Deixa...”, “Polaca Azeda” (“velha-de-guerra”, segundo Leandro) e “Mazzaropi Incriminado” representarão o lado hitmaker. “Amor de Boteco” e “Barretos”, prima distante e caipira das batidas de “Last Nite” e “Ask”, complearam a lista, reforçando a saborosa ligação temática com a faceta popularesc da banda. A primeira, um flerte descarado com os clássicos bolerões de AM. A outra, uma provocação com o nome da cidade onde se realiza anualmente a maior festa/competição de rodeio do país.
Mas ainda teve espaço para mais, fora do EP. Músicas do álbum que não costumam constar sempre dos destaques dos shows foram recebidas com entusiasmo, como a valsa-vanerão “Intriga de Cinco Pessoas” e a batucada sombria de “Romaria dos Desvalidos”. No final, até duas faixas (“A Beleza e a Dor de Sua Alma” e “O que é Que Foi, Piá?”) do Você Sabe Muito Bem Onde Eu Estou, EP de estréia, lançado há longínquos três anos, foram resgatadas do limbo. Para a alegia e a festa de muita gente, que não conseguia se conter em assistir ao show sentada e sem poder dançar, por causa das filmagens.
Depois de tudo, restou a sensação de que diante de todos estava ali não mais aquela grande banda underground curitibana eu soube encantar a todos nos seu quatro primeiros anos de existência. Estava sim uma banda grande, formada e gestada por uma Curitiba conhecida pela autofagia voraz e descrença em seus próprios artistas. Uma banda grande que, desde o lançamento do álbum Charme Chulo, trabalha de maneira consciente e organizada para traçar novos rumos nacionais. Os primeiros passos já foram dados; o resultados positivos, obtidos. Agora começa uma nova etapa. E a agradável noite na Grande Garagem que Grava vai ficar como o marco desta transição.
Abonico R. Smith
***
Depois de três anos anos longe de Nova York, Morrissey voltou aos palcos da Grande Maçã em uma série de cinco shows na cidade. E foi uma volta em grande estilo. Durante 90 minutos, na noite de 26 de outubro, no Hammerstein Ballroom, o cantor fez a alegria de uma galera que enfrentou um verdadeiro dilúvio para ver o astro.
E logo nos primeiros acordes de “Stop Me with You Think You´ve Heard This One Before”, mais uma da série das históricas canções dos miths qu ele resolveu reviver de um tempo para cá, Moz disse a que veio. "Estamos bem longe da Broadway", soltou. A referência à localização da zona noturna que é sinônimo de meca do teatro também garantia que aquela noite de sexta não seria de entreterimento comum. Idolatrado nos Estados Unidos, o cantor inglês encantou a platéia com um set de deixar até o fã mais hardcore satisfeito.
Salvo uma ou outra música que, na opinião dessa escriba não poderiam ter ficado de fora (e, em se tratando de Morrissey, sempre acaba faltando algo mesmo), o show teve de tudo. Desde “You Have Killed Me”, carro-chefe de seu mais recente álbum, até o clássico “Death Of A Disco Dancer, dos tempos dos Smiths. Aliás, tanto “Death...” quanto “Stop Me...” possuem algo em comum: são do último disco da banda, Strangeways Here We Come, gravado durante uma turbulência que determinou o repentino abandono de cargo do guitarrista Johnny Marr e o fim da banda duas semanas antes do vinil chegar às lojas. Portanto, ambas ficaram flutuando naquele vácuo entre a dissolição do quarteto e o início da carreira solo do vocalista.
Voltando ao Hammerstein Ballroom... Morrissey revisitou diversas fases suas. Foi buscar “Jack The Ripper” lá de trás e incluiu a bela balada “The World Is Full Of Crashing Bores”, de 2004, quando retornou ao mundo fonográfico após um longo intervalo de sete anos de quietude. De seu novo álbum, ainda incluiu uma versão mais pesada da solenemente debochada “Life Is a Pigsty”.
Dominando completamente o público, o cantor mostrou que segue em forma, apesar dos problemas vocais que o afligiram recentemente – ele chegou a abandonar o palco em Boston, dpois de apenas meia hora de concerto, por causa de uma inflamação na garganta. Comandou o palco com força e graça, interagindo com a galera, fazendo piada sobre Paris Hilton, encarnando um toureiro e até tirando a roupa – evidentemente, arrancando gritos dos mais exaltados.
A platéia, para variar, que estava deliciada, cantava todas as músicas de cor. Naquela sexta, era uma turma mais velha, que acompanha o artista há tempos e que também tem mesmo gás. Para espanto geral, havia ainda um grande número de pais, com seus filhos, muitos ainda crianças – que imagino ainda nao sabiam bem o que estavam fazendo ali. Mas era a geração mais velha mostrando a garotada o que é a devoção a um ídolo incontestável.
Lílian Santos
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O som estava poderoso. A banda soava como uma mistura de Mercury Rev com Mars Volta. E, como fã da “ultima fase” da banda, digo que OAEOZ é outra coisa no palco, outra historia. É ali que eles se matam, onde dá para sentir cada nota com as expressões dos músculos do rosto dos integrantes. Ivan Santos (violão, teclados e vocais), Carlão Zuber (guitarra, violão e vocais), Rodrigo Montanari (baixo e vocais) e Hamilton de Lócco (bateria). E no último dia 11 de outubro, os titulares da atualidade – recebendo de volta, temporariamente, os ex-integrantes Igor Ribeiro (ESS, Íris, Tods) de volta e Rubens K (que participou do embrião do grupo; hoje no Terminal Guadalupe) – se juntaram para um show especial. No palco, eles relembraram os últimos dez anos de suas vidas musicais.
Às vezes três guitarras apitavam distorções e cada canto daquele porão ganhava uma sensação diferente, do noise ensurdecedor ao doce lirismo pop dependendo de qual guitarra estivesse mais perto de você. Então vinha o trompete de Igor e te levava para o sofá em algum pub escuro, aqueles com chão de tabuas da década de 30. E quando você já estava confortável a trinca guitarra-baixo-bateria (respectivamente Carlão, Rodrigo e Hamilton) e te arrancava do “macio”, te fazia o favor de lembrar que aquele show era uma celebração “anos 90”, vinham melodias pop cheias de guitarras apitando. E ainda tinha a poesia/dor/lirismo/esforço de Ivan que nos últimos anos tornou-se o coração da música feita pelo OAEOZ.
A ironia também estava presente, a mesma que persegue todas as bandas do Paraná – ao menos aquelas que ainda esperam “estourar” algum dia. Ela estava ali no single que a banda lançava, em cada canto vazio e escuro do Porão e em cada pessoa que cantava as frases das letras por vezes enormes da banda. Talvez quando a banda começou, lá na segunda metade dos anos 90, ainda passasse pelas mentes destes a possibilidade da “descoberta”. Naquela noite, entretanto, havia uma aura de libertação/comemoração em cada um dos presentes envolvidos com a banda nos últimos dez anos. Afinal, o que todo mundo neste estado sabe de cor, bandas paranaenses não estouram; elas implodem. Então, ter dez anos de historia é, de fato, algo para se comemorar.
Engraçado como lembrei uma conversa que tivera dias antes com Ivan; ele me contava como era irônico o fato de que a maioria dos shows memoráveis a que assistiu na vida foram em lugares vazios, para duas ou três dúzias de pessoas. E o show de uma década de OAEOZ foi um destes e poderia escrever aqui que foi bom que você não foi. Nada mais blasé do que ter uma banda praticamente tocando só para mim. Mas não. Eu, dez anos mais novo que ele, ainda não estou acostumado com essas coisas. Não entendo porque alguém não iria a um show de uma banda que, por osmose ou influência, estava ligada a várias outras bandas da cidade. Ivan, por exemplo, já tocou até na Relespublica, fato que descobri há duas semanas atrás, alem de integrantes de outras formações locais já terem passado OAEOZ.
A canção que abriu o show, “De Inverno” era, de certa forma, responsável pelo aparecimento de algumas das mais promissoras bandas de Curitiba – o Rock De Inverno, festival de musica independente organizado por Ivan e sua mulher Adriane Perin, foi por muito tempo pelos anos zero-zero a única janelinha para bandas daqui serem vistas lá fora (leia aqui as metrópoles São Paulo e Rio de Janeiro) e, salvo algumas exceções, nenhuma destas “grandes bandas” estava presente na comemoração d’OAEOZ.
Eu sou bairrista o suficiente pra me sentir incomodado com essas injustiças, tanto que este texto está criticando abertamente o publico de Curitiba. Não adianta nem usar uma frase de mãe para estes casos, aquela “um dia você aprende...”. Não, o roque (assim mesmo com que) de Curitiba não aprende.
Giancarlo Rufatto
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O Firefriend é uma daquelas raríssimas bandas nacionais que, mesmo cantando em português, possui uma sonoridade repleta de referências ao rock alternativo que os distancia muito do que costumamos encontrar em shows locais (quando eu falo locais, creio que estou me referindo ao país inteiro). Vê-los ao vivo pela primeira vez na capital paranaense foi de um prazer singular. Não só por terem feito um show com faixas de seus três discos (todos lançados on line, como também pela presença de três hipnotizantes músicas inéditas, ainda não batizadas e algumas sequer ainda sem letra.
O show começou por volta da 1h, após o quarteto curitibano Tristessa tocar. De cara, “Duas Julias” já deixava claro o perfeito entrosamento do power trio paulistano que, diga-se de passagem, soa como uma banda com mais integrantes – a guitarra de Yuri Hermuche, que tem uma sonoridade refinada mais um espetacular set de pedais, ainda é ligada ao vivo em dois canais, o que dobra o efeito e reforça a força das cordas. A primeira impressão, aos acordes iniciais, foi que eles são uma banda mais forte ainda ao vivo, com mais peso e com uma bateria furiosa.
Conforme o show progredia, alternando passagens praticamente só instrumentais com climas variados, vinha a empolgação de uma apresentação com músicas tão heterogêneas, mesmo que interligadas (sim, pois mesmo com tantas nuances em cada uma, era possível enxergar conectividade entre “Pequena Meia-Noite” e “Audiogalaxy” ou “Hey Pablo” e “Um ano, Um Segundo”. Afinal, o fato é que o firefriend é uma banda nova (praticamente dois anos de vida!) mas que parece ter muitos anos de estrada. Sim, foi um espetáculo guitarreiro, dissonante, com melodias apuradas e sarcásticas. Às vezes uma releitura de Jesus & Mary Chain (pela fúria) e outras vezes remetendo-me ao Pixies (pelo apelo pop). E os vocais da baixista Julia Grassetti, que cantou mais vezes que Yuri, praticamente serviam como um complemento ao instrumental para lá de inspirado.
Confesso que não me lembro de um show, em Curitiba, tão intenso nos últimos tempos, tão singular e, principalmente, tão roqueiro. Sem preocupação em soar dançantes, coisa insistentemente vista no rock contemporâneo, o Firefriend, mesmo assim, fez um show em que não se podia ficar parado. A surdez ao som da equação baixo + bateria + guitarra dobrada era inevitável e sacodir o corpo virava obrigação. Ao final de onze músicas (como foi pouco essa quase uma hora de show), o Firefriend se despediu da cidade prometendo que voltará em breve. Para derrubar tudo o que estiver pela frente, mais uma vez.
Erasmo Jr
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No mesmo dia em que o Cansei de Ser Sexy dava as caras de volta à cidade natal e divida os palcos do Planeta Terra com Kasabian, Devo e Lilly Alen, entre outros nomes, o Groselha Fuzz Festival comemorava três anos reunindo a 320 km da capital paulista alguns dos principais nomes da cena indie do Brasil.
Não chovia havia muito tempo em Riberão Preto. Pois choveu bem no primeiro dia. E show de rock quase sempre atrasa, não é? Esse, claro, atrasou também. E geralmente tem banda ruim, que deu um jeito de tocar junto com as boas. Desta vez, contudo, não teve. E dois palcos muito bem sincronizados não deixavam um minuto sequer sem rock ao vivo. Enquanto uma banda tocava, outra passava o som.
Uma das atrações regionais de destaque foi o Motormama. “Prata da casa”, a banda faz um hardcore que foge das letras usuais do estilo. Com teclado e uma garota no vocal, o quinteto tem ainda um toque de música caipira no som. Mistura muito bem conciliada. No mesmo palco, já virando de sábado para domingo, tocaram os sorocabanos do Volpina. Deram sorte: o auge do público da noite foi deles – o show ocorreu três horas depois do previsto, no horário que inicialmente era do Vanguart. E eles fizeram bom uso do atraso, com uma apresentação bem energética. Misturaram elementos do samba come muita percussão (pandeiro, chocalho e cowbell) e seguraram a atenção do público.
Energia core, emotivo e introspectivo, com pose de banda grande. Assim foi o Enne, de Minas Gerais, na parte superior. A maior surpresa do festival. A postura do vocalista lembrou muito a de Gustavo Drummond, da também belorizontina banda Udora. A banda não gosta da comparação, mas ela é inevitável.
E todos desceram mais uma vez, agora para acompanhar os paulistanos do Seychelles. Show intenso, daqueles de se bater o pé com força no chão. Quem deu as caras para apresentar a banda foi o ex-VJ da MTV, LuizThunderbird. Luzes piscando pelo palco, trilha visual em uma televisão 14” e incenso aceso. Participações especiais de integrantes do Mamma Cadela, com efeitos especiais sonoros, teremim e percussão. Lindo e emocionante.
A primeira banda que pecou no festival foram Os Telepatas, também da capital paulista. O público estava ali, mas era apático. Demorou para que fossem arrancados alguns aplausos, apesar de ser uma boa banda que ali estava. Talvez o som lento do quarteto, que viaja entre folk e MPB, tenha pegado um público cansado. Eram quase duas horas da madrugada quando tocaram, horário teoricamente marcado para o inicio da ultima atração da primeira noite.
Um dos Seychelles ficou no palco de baixo e se juntou aos companheiros de sua outra banda, o Mamma Cadela. “Se você tem um cigarro, uma ficha de cerveja ou está querendo chegar em uma garota, faça tudo isso agora”, avisou Fernando Coelho (violão e escaleta), antes do inicio da apresentação. Música instrumental, leve e tranqüila, que tirou as pessoas do espaço coberto onde se apertavam e levou-as para a chuva, que apareceu novamente. A mistura de rock, samba e jazz deixou a pista de cima, onde os Ecos Falsos passavam o som, vazia. A chuva apertou chegando ao fim da apresentação e o público se dispersou.
Na hora da verdade, a galera voltou para acompanhar o show dos admirados por Tom Zé. Os Ecos Falsos – outra revelação paulistana – mostraram uma energia mais punk ao vivo, embora o som da banda seja melhor no disco (visivelmente não por falta de qualidade no show, mas por uma questão de estilo). Levaram Thunder e Johnny Monster, guitarrista do Daniel Belleza & os Corações em Fúria, para cantar o “pá pá pá” de “Findo Milênio” e fecharam a apresentação com “Bolero Matador”.
Quem mais conseguiu atrair o público, que ainda sobrevivia às 3h40, e praticamente isolou o resto do local da festa – exceto por aqueles que já estavam dormindo pelos cantos – foi o Vanguart. Banda sensacional até para quem acabou de conhecê-los e com o pé no mainstream. Até o camarim virou camarote na apresentação dos cuiabanos. Sucesso merecido e explicado pelo show. Hora deprimente, hora empolgante, porém único e emocionante. O top da atual safra do (folk) rock nacional.
A penúltima atração foi o punk rock cheio deglamour de Daniel Belleza & os Coração em Fúria. O barulho é macho; a pose, não. De botas plataforma, boné do Boy George e muito brilho, a banda tocou muitas músicas do “novo disco que pode sair a qualquer momento” – como disse o vocalista. Foi um show intenso, como comprovou a cara inteira vermelha e o suor que transbordava o baterista Jeff Molina. Valeu até uma versão de “Cowboy Fora-da-Lei”, de Raul Seixas. Porém, sobrou pouca gente pra ver. O pouco público que agüentava até às 4h20 se dividia e alguns foram assistir à passagem de som do Montage.
Para fechar, quase com o sol nascendo, o estava a postos o grupo cearense de electrorock. Apesar de se divulgar oficialmente como uma dupla, o Montage ao vivo é um trio. Daniel Peixoto na voz; Leco Jucá nos sintetizadores e um terceiro elemento na guitarra. Sobravam, porém, menos de quarenta pessoas, apesar do Montage ser a principal atração da “noite”. Daniel, por sua vez, pareceu não ligar para isso. Cantou, subiu nas caixas de som e terminou a noite só de sunga para completa alegria do parte do público, gay, que permanecia ali.
Dois palcos muito bem sincronizados, vários dos principais nomes do rock independente alternativo do Brasil, som de qualidade, diversos estandes de venda de roupas e discos, além da exposição Arquivo do Rock Brasileiro, da Associação Cultural Dynamite, e a apresentação do evento por Thunderbird – que parecia não estar com a mínima vontade de cumprir com o papel designado. Com exceção deste último e do enorme atraso no horário, para o público nada mais houve de errado.
Só que o mesmo não aconteceu nos bastidores. A produção do Groselha Fuzz teve diversos imprevistos: a empresa que faria o transporte das bandas cancelou a viagem, a chácara onde os artistas se hospedariam foi alugada para outra pessoa e a alimentação também teve seu planejamento alterado. Outra empresa de transporte fora contratada e um hotel tivera sua lotação esgotada.
“Bastante dinheiro teve de ser gasto sem planejamento, enquanto isso a festa já estava acontecendo, mas poucas pessoas chegando”, explicou Tiago Fuzz, organizador do evento (que estimou 800 espectadores, mas só teve 250 pagantes). “No final das contas, de madrugada, vimos que não tínhamos condição de bancar outro dia de evento”. Então, o domingo chuvoso de Ribeirão Preto terminou sem rock – entre as bandas canceladas estavam Ludovic, Zefirina Bomba, Dominatrix, Thunderbird e os Devotos de NSA, Debate e Rockz. Mas Tiago mandou avisar que não acabou a Groselha. “Provavelmente ano que vem teremos um novo festival, desta vez estruturado com muito mais cautela”, finalizou.
Gustavo Pelogia
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Rock? Eletrônico? Funk? Tudo isso ao mesmo tempo, na verdade. Assim é o show do LCD Soundsystem, banda formada pelo vocalista James Murphy (seu único integrante oficial) e mais quatro amigos. Em novembro, o principal nome da gravadora de DFA esteve mais uma vez no Brasil, tocando na capital paulista e sendo o principal nome do festival Eletronika, em Belo Horizonte.
Na antevéspera de feriadão, a platéia do Via Funchal – que chegava apenas a cerca de um quarto da capacidade da casa (6 mil pessoas) – presenciou um show conciso, porém com muita qualidade. Tanto que, apesar da vasta concorrência neste fim de ano – com festivais como Tim, Planeta Terra e os ainda-por-vir Motomix e Nokia –, já tinha gente considerando este “o melhor show de 2007” após o encerramento do set.
Murphy e seu LCD Soundsystem deixaram claro porque enlouquecem milhares de pessoas por onde passam. Primeiro porque garantem, no palco, sonoridade bastante próxima à dos discos, trunfo que muitos adeptos da electronica não conseguem obter, por mais que tentem e se esforcem. Depois porque possuem um repertório irresistível. Claro, tem hits (“Daft Punk Is Playing At My House”, “North American Scum” – o primeiro um batidão house que homenageia o estandarte da música pop francesa contemporânea; o outro uma ácida crítica ao comportamento paranóico e belicista do governo Bush e dos fundamentalistas da direita cristã americana). Mas também tem músicas “secundárias” que não fazem feio ao vivo e mantêm todo mundo dançando (“Yeah”,”Tribulations”, “Someone Great”, “Get Innocuous”, “Time To Get Away”). Estas duas últimas músicas soam bem pós-punk. “North American Scum” vira punk. Baixo e bateria – disposta de modo nada usual, ficando à direita do palco, bem perto dos fãs – são parte da responsabilidade da veia rocker do grupo nova-iorquino, que estourou nas pistas de dança. Até um grande sucesso do techno, “Throw”, de Carl Craig, transforma-se rock através da releitua do LCD Soundsytem. De “All My Friends”, então, nem se fala. O arranjo é progressivo até o alo, desenvolvido todo ele em torno de um crescendo de um mesmo acorde.
Para finalizar a noite, foi ecolhida a melancólica "New York, I Love You, But You're Bringing Me Down", tocada de maneira exemplar em um piano sob a bela voz de James. Nesta valsa-balada, o vocalista demonstra todo o amor à sua cidade. Mas não perde a chance de soltar aveia irônica e contrabalançar tudo com sua frustação em relação à Big Apple. Gran finale.
Talita Alana
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